“Han Solo: Uma História Star Wars” | Crítica

Otavio Almeida 25 de maio de 2018 0
“Han Solo: Uma História Star Wars” | Crítica

Entrega tudo que podemos esperar de um filme sobre Han Solo, mas sem nenhuma inspiração

Por Otávio Almeida

Han conhecendo Chewie? Confere. Han e Chewie entrando na Millennium Falcon pela primeira vez? Confere. A Millennium Falcon fazendo o Percurso de Kessel em menos de 12 parsecs? Tudo lá, amigos! Só faltou inspiração para o diretor Ron Howard e os roteiristas Lawrence e Jonathan Kasdan entregarem uma aventura empolgante e surpreendente em “Han Solo: Uma História Star Wars” (Solo: A Star Wars Story, 2018). Afinal é o que um dos personagens mais adorados da saga criada por George Lucas merece. Mas seu filme de origem não combina com ele.

Não culpem Alden Ehrenreich, porque o garoto faz um trabalho competente emulando trejeitos e o espírito do contrabandista e mercenário eternizado por Harrison Ford. Felizmente, não se limita a imitá-lo e se esforça para entregar sua própria versão de um jovem Han Solo anos antes de encontrar Luke Skywalker, Obi-wan Kenobi, C-3PO e R2-D2 numa certa cantina em Tatooine. Alden é um novo Han e, de uma hora para outra, aceitamos sem perceber que não estamos mais cobrando que ele seja Harrison Ford. É como aprovar Roger Moore, Pierce Brosnan ou Daniel Craig num papel que nasceu e entrou para a história do cinema com Sean Connery. Enfim, mérito do ator.

O problema de “Han Solo: Uma História Star Wars” é a impressão de que Lawrence Kasdan – autor dos textos de “O Império Contra-Ataca”, “O Retorno de Jedi” e “O Despertar da Força” – entrou nessa pela grana quando ele mesmo demonstrou em entrevistas que estava de saco cheio de “Star Wars”. Teve a companhia do filho, Jonathan Kasdan, para escrever o filme.

Mas, agora que vi o resultado, fica clara para mim a razão pela qual Phil Lord e Chris Miller, os diretores demitidos no meio das filmagens, tentaram imprimir um tom diferente. Responsáveis por “Tá Chovendo Hambúrguer”, “Uma Aventura Lego” e a versão cinematográfica de “Anjos da Lei”, Lord e Miller nasceram da comédia. Lawrence Kasdan é bem mais sério e um talento consagrado de um cinema mais classudo, operístico. E isso não combina muito com o estilo de Han Solo quando ele ainda não conheceu elementos dramáticos mais grandiosos, como o amor verdadeiro, a nobreza dos jedi, a mística em torno da Força e o sacrifício exigido por uma guerra. Não é possível que Lord e Miller não tenham tentado quebrar o gelo e imprimir um tom menos sisudo e, digamos, mais divertido. Isso não quer dizer que a intenção era avacalhar e deixar Solo com cara de bobo, afinal devem ser fãs de “Star Wars”, como todo diretor de sua geração. Mas, provavelmente, Phil Lord e Chris Miller tinham tudo para fazer um filme, no mínimo, divertido no sentido de eletrizante, sabe? E, por que não, emocionante.

Coisa que Ron Howard não fez. Porque o tom de “Han Solo” é frio, lento e, por vezes, sonolento. O filme, não o personagem, que passa a sensação de estar em outro filme. Assim como Donald Glover, como o jovem Lando, que honra o personagem interpretado por Billy Dee Williams na trilogia original, mas tem pouco tempo para fazer algo inesperado, o que é exatamente que esperamos de Donald Glover, não?

Como sempre, Ron Howard entrega o que pediram. Respeitou 100% o Kasdan pai e a amiga e presidente da Lucasfilm, Kathleen Kennedy, que lhe confiou seu produto. Sim, essa é a palavra que define “Han Solo: Uma História Star Wars”: produto. Mas se Howard ficar para possíveis sequêcias, afinal Alden Ehrenreich assinou para três filmes, talvez tenha como pedir um texto mais leve e, repito, inspirado, para entregar finalmente um filme de verdade, porque é um cineasta que sabe como se faz. Há luz no fim do túnel para isso já que Lawrence Kasdan admitiu ter sido sua última contribuição para “Star Wars” (viu como ele estava de saco cheio?).

É aquela velha história: “Han Solo” reafirma que filme não se faz somente com fan service. É preciso paixão aliada à habilidade de se contar uma história que, aqui, foi concebida de forma problemática e ficou muito difícil para Howard sair disso. É um filme tão errado que nem mesmo há um vilão marcante; o que não é uma regra, mas aqui precisávamos desesperadamente de um (Paul Bettany é um grande ator, mas seu Dryden Vos tem pouquíssimo tempo). Assim como era necessário ver uma cena de ação decente capaz de tirar a situação do marasmo. Elas existem, mas são modorrentas quando temos um protagonista aficcionado por velocidade numa década em que o cinema nos deu algo como “Mad Max: Estrada da Fúria” (pense nisso). Pelo contrário, “Han Solo” tem muito falatório, flerta superficialmente com política e se apoia em referências da saga para os fãs mais ardorosos.

A estranheza aumenta com uma dúvida deixada no ar quanto ao aspecto técnico, que, para mim, deixou a desejar num filme de 2018. Desde que a Disney comprou a Lucasfilm, “Star Wars” nunca explorou tanto cenários e planos abertos, gigantescos, uma herança da câmera de Peter Jackson em “O Senhor dos Anéis”, que tem os filmes mais influentes do século e poucos notaram. É só comparar o olhar épico, que preenche toda a tela em “O Despertar da Força”, “Os Últimos Jedi” e até mesmo no problemático “Rogue One”. Das duas, uma: ou “Han Solo” teve um orçamento reduzido ou Howard optou por planos mais fechados e cenas em ambientes internos para homenagear a simplicidade que “Uma Nova Esperança”, lançado em 1977, parece ter hoje em dia. Mas se o clássico de George Lucas é atemporal, “Han Solo” cheira a mofo desde o dia em que chegou aos cinemas.

Pelo menos, “Han Solo” não é ruim. Não há momentos constrangedores de envergonhar os fãs, como Anakin Skywalker (Hayden Christensen) se equilibrando num boi e dando frutinha na boca de Padmé (Natalie Portman), em “Ataque dos Clones”, ou Jar Jar Binks fazendo palhaçadas em “A Ameaça Fantasma”.

Mas também não há uma cena que empolgue; tirando uma surpresa “wtf” no finalzinho que não tem nada a ver com nada nesse exato momento da saga, parece até perdida no meio do roteiro, mas que pode vir a ser explicada posteriormente e, talvez, afetar não só o futuro da série, mas também seu passado. Curioso? É o que “Han Solo” causa nessa cena. Um sentimento que deveria ter sido provocado no restante do filme.

Para terminar, precisava MESMO explicar o sobrenome do personagem? Sério, Lucasfilm?

VEJA O TRAILER:

Han Solo: Uma História Star Wars (Solo: A Star Wars Story, 2018)
Direção: Ron Howard
Roteiro: Lawrence Kasdan e Jonathan Kasdan
Elenco: Alden Ehrenreich, Donald Glover, Emilia Clarke, Woody Harrelson, Thandie Newton, Joonas Suotamo, Paul Bettany, Phoebe Waller-Bridge, Jon Favreau, Warwick Davis
Duração: 2h15
Distribuição: Disney

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