O choro de Roman Polanski é livre

Otavio Almeida 3 de maio de 2018 0
O choro de Roman Polanski é livre

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas expulsou recentemente o ator Bill Cosby e o diretor Roman Polanski. Ambos foram julgados nos EUA como culpados por abuso sexual ou estupro. Os responsáveis pelo maior prêmio do cinema – sorry, Cannes, mas a Academia deixa tirar selfie no tapete vermelho – estão apenas seguindo um novo código de conduta estabelecido desde o ano passado após o caso do produtor tarado e safado Harvey Weinstein, também banido, que desencadeou uma série de discussões necessárias sobre o tema na indústria.

“Nada muda da noite para o dia”, disse Cate Blanchett, presidente do júri do Festival de Cannes, sobre a luta pelo empoderamento feminino. É verdade. Alguns dizem que a Academia demorou a tomar essa decisão, outros comemoram, mas também tem aquela parcela do público que acusa a organização de dançar conforme a música e dar ao povo o que ele quer. Acho que todas as reações estão corretas, menos a que diz ser um ato de desrespeito a um dos maiores cineastas de todos os tempos, Roman Polanski. Mas, doa a quem doer, os primeiros passos para reparar uma história de erros e violência estão em andamento, porque não adianta ignorar. Algo precisa ser feito e, vamos combinar, expulsar Roman Polanksi da Academia aos 84 anos após cerca de quatro décadas sem tomar nenhuma atitude, a não ser lhe dar um Oscar por “O Pianista”, é fichinha perto do que aconteceu com Samantha Geimer.

Para quem não sabe, em 1977, o diretor drogou e obrigou Samantha, de apenas 13 anos a manter relações sexuais com ele depois de uma sessão de fotos, crime pelo qual foi acusado e detido. Polanski ficou pouco mais de 40 dias na prisão, mas foi solto após pagar fiança e fugiu dos Estados Unidos no final de 1978 temendo novamente entrar em cana.

Quanto a Bill Cosby e Harvey Weinstein, ninguém ligará se esses caras desaparecerem do mapa, eu sei. Agora, em relação à Roman Polanski, que não lança nada relevante desde 2002, quando assinou “O Pianista”, parece que o diretor carrega o status de intocável para algumas pessoas. Mas é justamente isso que faz desse caso uma discussão ainda mais intrigante. Afinal, estamos discutindo a situação do cara que entregou “Chinatown” e “O Bebê de Rosemary”, dois dos melhores filmes do mundo. Podemos também colocar no baú títulos como “Tess”, “A Dança dos Vampiros” e “Repulsa ao Sexo”, vai. Mas o ponto é que Polanski não é qualquer um. Sua história no cinema é sólida. Só que o recado é esse aqui: se fizeram algo contra um artista consagrado como Polanski, ninguém mais está impune.

Harland Braun, advogado de Polanski mandou isso para a Academia: “Escrevo essa carta para evitar litígio desnecessário. O Sr. Polanski tem o direito de ir ao tribunal e exigir que sua organização siga os próprios procedimentos, assim como as leis da Califórnia. A única solução apropriada seria que sua organização anule a expulsão ilegal do Sr. Polanski e siga seu padrão de conduta, dando ao Sr. Polanski um aviso prévio razoável sobre as queixas contra ele e uma audiência justa para que ele apresente sua posição com respeito a qualquer expulsão proposta. Não estamos contestando os méritos da decisão, mas sim o desrespeito flagrante da sua organização com relação às próprias normas de conduta e as violações dos padrões exigidos pelo Código Corporativo da Califórnia.”

Coitado, não? Mas nem adianta Polanski e seu advogado espernearem. A justiça demorou, mas chegou. Tem mais: para sobreviver e se adaptar ao público atual que realmente vive essa indústria, entre realizadores e consumidores, Hollywood precisa agir; já começou e acho que não vai parar na primeira ação judicial questionando qualquer decisão do cinema americano, o maior que tem. Sim, a Academia é a opinião de Hollywood. A Academia é Hollywood.

Quando pensamos que é o cinema que impõe certos tipos de filmes ao público, a verdade é que eles dão às pessoas o que elas querem. Quando notamos que a tendência incomoda, fazemos algo para mudar e pode ter certeza que Hollywood está vendo, ouvindo e se preparando para mudar também. Sempre foi assim e sempre será. Então, espere novas cabeças rolando na Academia e desaparecendo da sua frente de uma hora para outra, como aconteceu com Kevin Spacey, por exemplo. Estamos naquele ponto de mudança e quem não notou já está ficando para trás.

Ah, sim, não dá para mudar o que Polanksi fez pelo cinema e não podemos queimar seus filmes em praça pública. Mas, daqui em diante, esse momento representa o fim de sua carreira.

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