“Hereditário” | Crítica

Otavio Almeida 27 de junho de 2018 2
“Hereditário” | Crítica

Nasce um diretor nesse clássico moderno de horror que é medonho de tão bom

Por Otávio Almeida

O estreante Ari Aster escreveu e dirigiu um filme sobre luto e como qualquer família jamais será a mesma após a morte de um ente querido. Com esse clima de dor pairando no ar, Aster adiciona mais um tema na receita: como herdamos os demônios de nossos pais e não conseguimos fugir disso.

A diferença é que o diretor de apenas 31 anos, que ainda vai dar o que falar, inicia “Hereditário” (Hereditary, 2018) como cinema de drama que, aos poucos, revela sua verdadeira intenção: ser um filme de terror.

Em sua primeira metade, trata esse horror de forma metafórica, abordando cada ponto que despedaça uma família após o falecimento de sua matriarca (fato explicado no primeiro frame numa original forma de obituário), incluindo uma tragédia, que é a melhor cena do filme, e que você jamais esquecerá. “Hereditário” já tem uma carga emocional pesada como drama, mas imagine quando o diretor converte essa energia negativa em filme de terror. A linha tênue entre os gêneros faz com que ambos se complementem e é muito bem conduzida por Ari Aster, que confia sua câmera 100% no talento de Toni Collette como Annie, provavelmente sua melhor performance desde “O Sexto Sentido”. Aliás, podemos praticamente fazer um paralelo entre os dois filmes imaginando Collette como a mesma mãe quase duas décadas após o longa que revelou o cineasta M. Night Shyamalan. Ainda sobre drama e horror se encaixando, há uma cena dramática durante um jantar, com Toni Collette desabafando contra o filho adolescente, Peter (Alex Wolff), que é mais assustadora que qualquer cena de horror do filme e já está editadinha para ilustrar sua indicação em qualquer transmissão de prêmio na TV na hora de listar a categoria de Melhor Atriz. Ok, não é tão assustadora quanto a cena trágica que citei acima, mas Toni Collette é o terror em forma de mulher nesse momento.

Sobre a tal cena trágica, repare em sua construção: há uma morte inesperada. Ari Aster corta o violento fragmento de segundo e foca imediatamente no rosto de Alex Wolff, que reage com espanto ao mesmo tempo em que a ficha insiste em não cair. A câmera não sai de seu rosto até nesmo quando a personagem vivida por Collette encontra o corpo e grita com todo o horror do mundo nas costas. Tudo isso ocorre num ambiente escuro e, de repente, Aster corta sem dó para a luz do dia com a câmera grudada numa parte do corpo que jamais imaginamos que seria mostrada. É horrível (no bom sentido) e um exemplo perfeito de como o explícito pode tomar conta do filme após uma antecipação muito bem construída pelo implícito. Sinal de que tem diretor bom surgindo no pedaço.

Aster ainda reafirma que veio para ficar com outras transições impecáveis. Há uma cena elegante em que o rosto da filha mais nova, Charlie (a incrível Milly Shapiro e seu tique clássico desde já) é substituído pela face da mãe quando uma luz estoura na tela. Também há outra parte em que Peter está sentado na cama e, num piscar de olhos, Aster corta a situação para o rapaz sentado na cadeira da sala de aula. Perspectiva é mais uma parte do show. Por exemplo, o detalhe da maquete da própria casa onde se passa 90% do filme é faz alusão a uma força externa que manipula quem está lá dentro. Enquadramentos geniais também fazem parte do acervo criativo de Ari Aster, como a cena em que Peter acorda no meio da madrugada e fica sentado em sua cama. Do lado de cá da tela, nossos olhos se esforçam para identificar um vulto ao fundo e, quando confirmamos que realmente algo está ali, a reação é de gelar a alma.

Não podemos esquecer que nada disso seria ressaltado se Ari Aster não dominasse a habilidade de contar bem uma história. Sucesso que passa pelo espectador disposto a embarcar numa viagem sem volta rumo ao inferno, pois uma vez que o diretor admite o sobrenatural na trama, ele pede para que a lógica seja desligada na hora em que tentamos ligar os pontos da trama. Claro que podemos entender o sobrenatural como o clímax sem esperança para a inevitável desestruturação de uma família traumatizada. Mas não fuja do que seus olhos finalmente estão vendo: as pistas estão todas em seus devidos lugares e ajuda muito fazer uma segunda sessão de “Hereditário”, um terror que se inspira mais no medo do desconhecido que nos sustos. Jamais será popular, mas tem tudo para figurar entre os grandes do gênero neste século, como um sucessor direto de clássicos como “O Bebê de Rosemary”, “O Exorcista”, “A Profecia” e “O Iluminado”.

São tantos elogios, mas esse texto não tem como fazer justiça ao filme de Ari Aster sem dissecar cenas importantes. Porém, cometeria uma injustiça com o cinéfilo que merece entrar de cabeça numa experiência que ainda será estudada e reverenciada nos próximos anos.

Sabendo disso, leia daqui pra baixo apenas se você viu o filme, porque quero fazer mais um comentário. Ok?

Um espectador mais atento pode reclamar do arco das personagens principais, Annie, Peter, Charlie e até o pai, Steve, interpretado por Gabriel Byrne. Vamos colocar também no caso a colega de Annie, Joan (Ann Dowd, que merece uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante). Todas evoluem de um ponto até outro, goste você da conclusão da história ou não. Ari Aster definiu “Hereditário” como um ritual do ponto de vista das ovelhas. Se você viu o filme, sabe que as personagens cumpriram seus papéis.

VEJA O TRAILER:

Hereditário (Hereditary, 2018)
Direção e roteiro: Ari Aster
Elenco: Toni Collette, Alex Wolff, Gabriel Byrne, Milly Shapiro, Ann Dowd, Brock McKinney, Mallory Bechtel
Duração: 2h07
Distribuição: Diamond Films

2 Comentários »

  1. Paulo Ricardo 28 de junho de 2018 às 8:33 PM -

    Esse filme grudou na minha mente e não sai de jeito nenhum…

  2. Antonia Almeida 16 de julho de 2018 às 3:05 PM -

    É um dos filmes que mais medo me deu. Tem protagonistas sólidos e um roteiro diferente, se tem uma coisa que eu não gosto nos filmes de terror atuais, são os screamers, e o que eu mais gosto é o terror psicológico, depois de vê-la você ficara com algo de medo. Os filmes de terror são meus preferidos, é o melhor. Meu favorito é It: A Coisa, acho que o novo Pennywise é muito mais escuro e mais assustador, Bill Skarsgård é o indicado para interpretar o palhaço. Aqui deixo os horários da estréia: https://br.hbomax.tv/movie/TTL612335/It-A-Coisa é realmente uma história muito interessante, uma das melhores de Stephen King, o clube dos perdedores é muito divertido e acho que os atores são muito talentosos. Já quero ver a segunda parte.

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