“Jurassic World: Reino Ameaçado” | Crítica

Otavio Almeida 18 de junho de 2018 1
“Jurassic World: Reino Ameaçado” | Crítica

Franquia está à beira da extinção criativa e não sabe disso

Por Otávio Almeida

Quando “Jurassic World” saiu em 2015, eu disse que a continuação disfarçada de reboot atualizou a franquia e conceitos do amado filme original de 1993 para uma nova geração. Mas que uma sequência tinha a obrigação de levar a franquia adiante e não condená-la à repetição eterna no esquema “dinossauros à solta e humanos correndo num salve-se quem puder”.

Pois bem. Temos aqui “Jurassic World: Reino Ameaçado” (Jurassic World: Fallen Kingdon, 2018), que deixa o sem sal Colin Trevorrow, do “Jurassic World” anterior, na produção executiva e conta com o muito mais talentoso J.A. Bayona na direção. Mas nem Pelé levaria o Íbis ao título. Nem Ayrton Senna ganharia uma corrida com um Fusca. Nem qualquer diretor consagrado seria capaz de fazer milagre com um roteiro tão indeciso quanto esquizofrênico assinado pelo próprio Trevorrow e Derek Connelly.

Lembro lá atrás que algumas pessoas me disseram que “Jurassic Park” era só efeitos digitais com um fiapo de roteiro. Coitados. Eles não sabiam o que estavam dizendo e imagino o que pensariam de “Reino Ameaçado”, que, sim, tenta novos caminhos para a série, mas não sabe muito bem qual deles trilhar.

QUATRO FILMES EM UM

São mais ou menos quatro filmes mal iniciados, desenvolvidos e acabados que pecam na harmonia quando precisam dialogar entre si. O primeiro deles é uma versão atualizada de “O Mundo Perdido: Jurassic Park”, mas adicionando um vulcão em erupção. A ideia chega a ser bacana se a gente atuar somente como fã incondicional, porque juntar vulcão e dinossauros soa como o melhor blockbuster que podemos ter. Mas não é bem por aí. Afinal, quando a brincadeira estava ficando legal, com uma correria danada de humanos, dinossauros e lava tomando conta da tela, o filme encerra o primeiro ato para dar lugar a um dos momentos mais chatos de toda a franquia. Porém, antes de entrar nesse “segundo filme”, essa parte do vulcão traz uma interessante discussão a respeito de direitos dos animais (algo explorado em “O Mundo Perdido”), uma nova extinção dos dinossauros (opa, isso é inédito) e termina com uma cena emocionante, que é a melhor do filme. E, cá entre nós, apenas esse ato renderia um longa satisfatório, caso fosse devidamente desenvolvido. Seria repetitivo, mas não vergonhoso.

Mas, então, vem o esquecível segundo filme em quatro possíveis, que ainda estou tentando descobrir qual é. Até porque, na verdade, ele é uma barriga; um intervalo longo para o clímax, que, no fundo, repete tudo aquilo que já sabíamos e sem a mínima novidade: a raça humana não aprende, quer brincar de Deus e ganhar muito dinheiro sem saber exatamente onde e como gastar. Os protagonistas novamente interpretados por Chris Pratt e Bryce Dallas Howard não tem muito o que fazer nesse segmento, então ficam parados, falando e pensando, enquanto acompanhamos um leilão de dinossauros tão divertido quanto as cenas políticas no senado de “Star Wars: A Ameaça Fantasma”. Tudo isso acontece numa mansão estilo Bruce Wayne onde a Batcaverna dá lugar a um laboratório/prisão. Vejam só o nível do entretenimento: saímos da ilha para uma mansão (!). Nesse meio tempo descobrimos até mesmo um clone humano na trama (!!) que não é essa revelação tão surpreendente que os roteiristas queriam. E ela está lá só para justificar um botão apertado nos últimos minutos do filme.

Enfim, ainda bem que esse cenário logo vira um filme de terror censura livre, onde J.A. Bayona se sente à vontade e o diretor de “O Orfanato” e “Sete Minutos Depois da Meia-Noite” pode exercitar sua verdadeira vocação entre sombras, luzes e sustos. É o terceiro filme em quatro dando o ar de sua graça.

Bayona acha espaço para seu toque pessoal mesmo quando demonstra o quanto “Jurassic Park” e Steven Spielberg inspiraram sua criatividade como cineasta. Mas é um tanto esquisito ver que os planos gigantescos e abertos da ilha no primeiro ato foram substituídos por um pega-pega dentro de uma mansão proporcionada por mais um dino mutante (chega disso, por favor). Aliás, senhoras e senhores, lembro novamente das pessoas que reclamaram do “Jurassic Park” original. Especialmente quando Spielberg colocou um velociraptor abrindo porta. Só que elas não sonharam que, um dia, “Reino Ameaçado” traria um dino sorrindo sarcasticamente, enquanto outro interpreta a sensação de perigo (ou “lê” uma placa, vai saber) sobre vazamento de gás e uma explosão prestes a se concretizar só para que ele corra tão rápido quanto Tom Cruise antes de ser consumido pelo impacto e o fogo. Confesso que aceito esses dinossauros espertinhos, contanto que Bayona saiba bem o que quer fazer. É terror ou é aventura?

PLANETA DOS DINOSSAUROS? REALLY?

O quarto filme dentro de “Reino Ameaçado” só vem nos minutos finais como um gancho safado para mais uma sequência. É uma reviravolta tão inesperada quanto esdrúxula, porque o filme não conduz a trama para esse um clímax, que lembra outra franquia com animais, indicando um futuro diferente, mas que não garante a empolgação desejada. Pelo contrário, causa estranheza, desconfiança e a sensação de que tentaram inovar, mas sem a mínima certeza do que estavam fazendo. Da mesma forma que uma criança pequena com um brinquedo na mão ou Michael Bay na direção, sabe? Pode ter ecos dos livros de Michael Crichton, que deram origem aos filmes, mas isso não me importa; pois durante a construção da história, juntando começo, meio e fim de “Jurassic World: Reino Ameaçado”, essa conclusão soa forçada e é impossível acreditar que chegamos a esse ponto. Menos ainda é a catarse zero provocada no espectador pela espera em relação ao próximo filme.

Enfim, está claro que, seja como produtor ou diretor (e ele dirigirá a continuação), Colin Trevorrow não é a mente criativa que pode conduzir a franquia rumo a um futuro promissor, assim como J.A. Bayona não tem culpa se pediram (e o pagaram) para ele filmar um roteiro tão tosco. Fardo que também não deve cair em cima de Chris Pratt e Bryce Dallas Howard, que apresentam seus personagens de forma mais humana e vulnerável neste longa. Outras coisas boas: o tema de John Williams é lindo, embora toque com vontade mesmo só nos créditos finais e conduzido aqui pelo mestre Michael Giacchino; os efeitos visuais e sonoros continuam incríveis, mas isso tudo o mundo inteiro sabe desde o início dos anos 90. A verdade é que “Jurassic Park” não nasceu para ser uma cinessérie. Ok, dava para aproveitar mais um ou dois filmes no máximo e chega. Como “Alien” e “O Exterminador do Futuro”, a franquia está à beira da extinção e os envolvidos não se tocaram disso. Parafraseando o saudoso John Hammond (Richard Attenborough): “Bem-vindos ao pior filme da série”.

VEJA O TRAILER:

Jurassic World: Reino Ameaçado (Jurassic World: Fallen Kingdom, 2018)
Direção: J.A. Bayona
Roteiro: Derek Connolly e Colin Trevorrow
Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Rafe Spall, Justice Smith, Daniella Pineda, Jeff Goldblum, Toby Jones, James Cromwell, Isabella Sermon, Geraldine Chaplin, BD Wong
Duração: 2h08
Distribuição: Universal

One Comment »

  1. Paulo Ricardo 20 de junho de 2018 às 4:42 PM -

    O curioso é que quando Juan Antonio Bayona dirigiu “O Impossível” ele foi acusado de ser “sentimentalista como Spielberg” rsrsrs.Ainda não conferi,mas não ando lendo coisas boas sobre esse filme.Amanhã encaro a sessão e volto aqui.

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