Não subestime os idiotas. Eles também votam.

Otavio Almeida 6 de junho de 2018 0
Não subestime os idiotas. Eles também votam.

“That’s how we’re going to win. Not fighting what we hate, saving what we love.”

A fala foi criada pelo diretor e roteirista Rian Johnson para Rose, personagem que saiu de sua mente para as telas e ganhou a representação da atriz Kelly Marie Tran em “Star Wars: Os Últimos Jedi”. Em sua primeira grande chance no cinema, Kelly dividiu a maior parte de seu tempo em cena com o ator John Boyega que hoje é mais conhecido como Finn. Mas, fora das telas, a atriz precisou dividir seu tempo com agressões, acusações e ameaças de idiotas que se dizem fãs de “Star Wars”.

Boyega também sofreu com declarações racistas, enquanto o diretor Rian Johnson foi até ameaçado de morte por ousar só um pouquinho em “Os Últimos Jedi” para tirar “Star Wars” do mais do mesmo. Mas acontece que os dois são homens. O que ambos sofreram principalmente nas redes sociais não se compara ao desrespeito que a atriz Daisy Ridley, a Rey de “O Despertar da Força” e “Os Últimos Jedi”, teve de lidar e suportar. Até abandonar as redes sociais. A história se repete com Kelly Marie Tran, que pronunciou a fala que abriu esse texto e sintetiza muito do que vimos em “Star Wars”, afinal se apoia no conceito que Anakin Skywalker não entendeu até a redenção diante do filho Luke, que, por sua vez, reaprende isso e fica em paz no final de “Os Últimos Jedi”.

Mesmo assim, ela foi alvo de imbecis mimados que denigrem a imagem de “Star Wars” e se acham donos da franquia. É como comparar com brigas entre torcidas de times de futebol, porque esses trogloditas não são torcedores. São bandidos, torturadores ou com vocação para uma coisa ou outra. São pessoas vazias que se escondem covardemente atrás de um monitor e um teclado, que possuem o mesmo caráter de quem censura artistas e pede intervenção militar. A diferença para quem executa é que essa parcela de idiotas não tem poder.

Só não subestime esse perfil, porque essas pessoas podem ser atrasadas, mas ao contrário de Darth Vader e Kylo Ren, elas existem, votam e são capazes de eleger Trump e Bolsonaro.

Há uma sabedoria implacável nas redes sociais conhecida como “não alimente os trolls”. No entanto, precisamos entender que esses seres são reais para que façam parte do nosso processo de evolução, afinal estamos aprendendo todos os dias e não conseguimos avançar sem colocar na balança dois lados da mesma moeda. Mesmo que a outra metade esteja cagada, ela está lá para um propósito: mostrar que você está do lado certo e que manifestações de ódio não devem ser confundidas com opiniões.

Serve para reconhecer o misógino, homofóbico, xenófobo, racista e intolerante que se recusa a sair da Idade Média. Serve para que a gente intensifique o diálogo com quem sabe realmente conversar e estabelecer uma troca de conhecimentos. Serve para deletar da rotina quem vive de verdades absolutas. Se eles falam o que pensam, inclusive nas redes sociais, devemos falar mais, melhor e ainda mais alto (não com os trolls, mas com os alvos certos). Serve para Kathleen Kennedy e a Lucasfilm não desistirem de suas visões. Que sigam apostando na diversidade que esses indivíduos tanto odeiam. “Star Wars” e todas as histórias devem ser para todos. Repito o que disse no texto sobre o fracasso de “Han Solo” (leia aqui): os velhos fãs estão morrendo, e muitos deles são bem bacanas, mas sabemos que a saga ficará para uma nova geração. Digo o mesmo para quem curte Marvel, DC, “Harry Potter”, Tolkien etc e tal. Essa nova geração viverá num futuro onde todo mundo pode ter rede social e fazer o que gosta.

Um mundo com fãs de verdade, que apoiam e se unem em torno de uma paixão. Não que eles sejam obrigados a gostar de todos os filmes e das direções tomadas pelas histórias, mas estão sempre lá. Para assistir, torcer, rir e chorar. São aqueles que pagam para ver “Han Solo”, mesmo debaixo de críticas negativas; aqueles que decoram falas de heróis e vilões, e tiram o que há de bom como inspiração para a vida e apresentam esse amor à geração seguinte.

Deixe seu comentário »