“Oito Mulheres e um Segredo” | Crítica

Otavio Almeida 9 de junho de 2018 0
“Oito Mulheres e um Segredo” | Crítica

Mais uma continuação disfarçada de reboot ou vice-versa

Por Otávio Almeida

Quem gosta de “Onze Homens e um Segredo” tem tudo para apreciar Sandra Bullock (como Debbie, a irmã do Danny Ocean de George Clooney), Cate Blanchett, Anne Hathaway, Sarah Paulson, Rihanna, Helena Bonham Carter, Mindy Kaling e Awkwafina em “Oito Mulheres e um Segredo” (Ocean’s 8, 2018). Quem acha um porre e se diverte bem menos que os astros e as estrelas da tela, desperdiçará quase duas horas da vida. Eu me encaixo no segundo grupo, porque não aprecio esse tipo de diversão travada, blasé e apoiada num festival de mise-en-scène.

No entanto, pensei que a proposta de trocar os homens pelas mulheres seria uma motivação para mostrar a Steven Soderbergh, George Clooney & Cia que um filme de entretenimento pode ser mais envolvente que um reality de astros e estrelas desfilando por cenários da alta sociedade. Sem falar que o tradicional filme de assalto precisa urgentemente de uma repaginada e Soderbergh teve sua responsabilidade com as desnecessárias continuações ajudando a desgastar esse subgênero.

Mas eu estava errado, porque a intenção de “Oito Mulheres e um Segredo” foi mesmo trazer de volta a atmosfera de “Onze Homens e um Segredo, mas com um excepcional elenco feminino, que não deixará os fãs com a mínima saudade de Clooney e sua turma. Faz parte da tendência hollywoodiana das continuações disfarçadas de reboots (ou vice-versa), como “Star Wars: O Despertar da Força” e “Jurassic World”, que mais ou menos repetem as estruturas consagradas dos roteiros originais, mas apresentando uma nova geração para um novo público. Eu só não tinha a menor no noção de que “Onze Homens e um Segredo” estava tão enraizado assim na cultura pop. Afinal, “Oito Mulheres” tem até mesmo sua cota de referências e participações especiais.

Mas vamos lá, porque o que eu não gosto também é motivo de alegria para quem realmente é fã. Está tudo em seu devido lugar de novo e outra vez: nesses filmes, os planos das “criminosas” não devem ser levados a sério, embora sejam minuciosamente detalhados, mesmo que, sinceramente, pareçam não fazer o menor sentido para quem está do lado de cá da tela. Enquanto personagens, falam, pensam, falam e pensam, o que importa para o espectador é encarar como espetáculo o banquete visual que consiste na observação de olhares, sorrisos, narizes empinados e como essas pessoas andam com estilo, se vestem bem, e se comunicam de maneira esnobe.


NARIZ EMPINADO 

Um adendo aqui: cara, por que os elencos desses filmes precisam falar quase que obrigatoriamente com empáfia? Será que o charme exala antipatia quando caminhamos entre checkpoints grã-finos como galerias de arte, cassinos ou o Met Gala?

Me parece muito mais humano quando vemos Helena Bonham Carter quebrando esse padrão ao demonstrar insegurança, vulnerabilidade e um humor tão discreto quanto imprevisível. O mesmo serve para a sedução provocada por Anne Hathaway, com sua personagem que quer ser linda como uma Barbie, mas é, no fundo, uma menina mimada e ingênua. São as duas melhores atuações… até Anne ceder ao nariz empinado no finalzinho. Logo, minha vencedora é Helena Bonham Carter. Porque as líderes Sandra Bullock e Cate Blanchett, que são sempre extraordinárias, limitam-se aqui a evocar o perfil egocêntrico e “comigo ninguém pode” de George Clooney nos filmes de Soderbergh. Na minha linguagem, nariz empinado.

FALTA PERSONALIDADE

Como nos longas anteriores, “Oito Mulheres e um Segredo” também não apresenta conflitos grandiosos nem muitos perigos para o elenco principal ou reviravoltas surpreendentes. Espera. Até temos uma reviravolta. Mas ela não é memorável, pois só acontece quando, digamos, o filme esquece que havia terminado, preferindo se estender num incômodo e arrastado anti-clímax, algo que costuma significar a sentença de morte de um produto estritamente comercial.

E há o problema da direção que não decola. Gary Ross é um cineasta que entrega o que seus roteiros pedem. Acerta quando não se envolve com franquias lucrativas, como “Jogos Vorazes” e “Onze Homens e um Segredo”. Seu talento aparece mais quando revisita o cinema clássico, mesmo que seja para atualizá-lo, como fez nos belos “Pleasantville” e “Seabiscuit”. Mas aqui, sua dedicação é tão impessoal que ele se esforça para ser Steven Soderbergh. Não acho que um diretor tenha a obrigação de emular o autor da história original, até porque eu mesmo estava esquecendo que Soderbergh não criou “Onze Homens e um Segredo”, um roteiro que ganhou as telas pela primeira vez em 1960 como veículo para Frank Sinatra, Dean Martin e Sammy Davis Jr brilharem. Ok, confesso que o filme com George Clooney, Brad Pitt, Matt Damon e Andy Garcia é melhor (as continuações são horrorosas). Mas o ponto é que Ross não tinha a necessidade de reproduzir os tiques de Soderbergh, que nem estava em sua praia indie quando topou entrar na brincadeira de “Onze Homens e um Segredo” com seus amigos. Ali, todos ganharam para se divertir. Da mesma forma que as atrizes deste filme. Mas se queriam cutucar a indústria, por que não contaram com uma mulher na direção para a piada sobre isso nos minutos finais soar mais pessoal e com personalidade?

Mas tudo bem, afinal isso pode ser corrigido numa sequência, não? Se Soderbergh fez 11, 12 e 13, também podemos ver Sandra, Cate, Anne e novas integrantes no 8, 9 e 10. Os números bateriam, certo? E elas têm tudo para fazer melhor, agora que já estabeleceram as peças no tabuleiro e podem finalmente deixar os “Onze Homens” para trás e seguir em frente.

VEJA O TRAILER:

Oito Mulheres e um Segredo (Ocean’s 8, 2018)
Direção: Gary Ross
Roteiro: Gary Ross, Olivia Milch
Elenco: Sandra Bullock, Cate Blanchett, Sarah Paulson, Anne Hathaway, Helena Bonham-Carter, Mindy Kaling, Awkwafina, Rihanna
Duração: 1h50
Distribuição: Warner

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