“Vingança” | Crítica

Otavio Almeida 18 de junho de 2018 1
“Vingança” | Crítica

Vingança é um prato que se come quente e com muito sangue

Por Otávio Almeida

Estreia da diretora francesa Coralie Fargeat, “Vingança” (Revenge, 2017) será lembrado como um expoente forte no cinema dessa década que destaca a mulher no comando. A cineasta se esforça tanto para achar um novo olhar dentro de dois temas (1- a mulher sobrevivendo em um mundo dominado por homens e 2- o filme de vingança) que aposta quase todas as fichas nos truques básicos (e às vezes esquecidos pela maioria) que fizeram a história da sétima arte e representam meio caminho andado para o sucesso: a harmonia sensorial e visceral entre imagem, som e trilha.

O roteiro é bem simples. Mas não precisa mais que uma diretora com um bom olhar para retirar da mente e do papel as cenas de visuais ricos que ela mesma imaginou. Apuro visual que não diria muita coisa sem dialogar com os significados do que se passa dentro da protagonista. Em primeiro lugar, o filme fala sobre misoginia, machismo, estupro; temas abordados aqui por uma mulher na direção, representada por sua heroína, a bela e jovem Jen (a italiana Matilda Lutz), que perde a alegria, a inocência e sua honra ao ser violentada e quase morta por homens que acham que podem fazer o que quiser com ela. Mas Jen retorna como uma força da natureza. Sem dizer uma palavra, mas repleta de atitudes contra homens que tentam se impor através da brutalidade física e verbal.

Tem gente lembrando do terror “Doce Vingança”, mas o filme de Coralie Fargeat não é do gênero. Diria que flerta muito mais com o western, porém da era moderna de “Onde os Fracos Não Têm Vez” e “A Qualquer Custo”. Enfim, Jen está longe de ser sobrenatural. É real e não pode ser derrubada, mesmo que caia inúmeras vezes, ela levanta e segue em frente. Sangra, logo é real. E “Vingança” é o tipo de filme que, de alguma forma, você viu antes, mas sua imersão completa tornará impossível identificar imitações ao longo da projeção. Influências sim, cópias nunca.

Quando a vingança do título teve início, eu esperava algo próximo de “Kill Bill”, porém a inspiração está mais para “O Regresso”. Tirando neve, acrescentando uma variedade interessante de cores vivas e estouradas graças ao deserto e ao sol escaldante. E essa mudança de clima faz toda a diferença no ritmo muito mais acelerado, exagerado, por vezes alucinógeno que o utilizado no filme de Alejandro González Iñárritu. Porque o calor enlouquece e as feridas são temporariamente esquecidas, enquanto o frio torna as dores maiores.

Sai Leonardo DiCaprio, entra Matilda Lutz. Ambos com atuações silenciosas, demonstrando suas forças e dores através do olhar e se tornando partes da natureza. Mas em “Vingança” há menos comunhão espiritual como num filme de Terrence Malick. É mais pé no chão, carne, sangue, poeira e suor de um mundo de George Miller, o diretor de “Mad Max”. O que torna Jen uma guerreira desse plano, abençoada pela terra, enquanto Hugh Glass, o herói de “O Regresso”, é um soldado que ganha força de seres que já partiram. E por ser menos contemplativo, “Vingança” é um filme bem mais curto e direto ao ponto.

Ainda me lembrou da violência explícita de um filme do último ano, que também foi dirigido por uma francesa, Julia Ducournau. Falo de “Raw”, um dos melhores filmes de 2017, que é sobre uma menina descobrindo, digamos, que os verdadeiros laços são feitos de carne e sangue. No caso de Jen, em “Vingança”, ela entende que não alcançará a vitória sem lutar com todas as forças até o último segundo. Apesar do banho de sangue (literalmente) em seu caminho, a mensagem é positiva, afinal demonstra aos inimigos que está em pé de igualdade e deve ser temida. Coralie Fargeat nunca caracteriza Jen como superior aos homens do filme. Mas foca em sua coragem, determinação e no quanto seus algozes enfraquecem ao subestimá-la. Imagine, agora, o que essa diretora ainda pode fazer pelo cinema.

VEJA O TRAILER:

Vingança (Revenge, 2017)
Direção e roteiro: Coralie Fargeat
Elenco: Matilda Lutz, Kevin Janssens, Vincent Colombe, Guillaume Bouchède
Duração: 1h48
Distribuição: Fênix Filmes

One Comment »

  1. Paulo Ricardo 20 de junho de 2018 às 4:39 PM -

    Coralie Fargeat é uma autora que merece nossa atenção.O olhar dela é bem original em relação ao poder da mulher.Como você disse,ela dá um novo olhar a dois temas batidos(sobrevivência e vingança).Muito bom fazer parte de uma geração que busca dar o merecido reconhecimento as mulheres.O início(nessa década) foi com a saga “Jogos Vorazes”,resultando na “Mulher Maravilha” de Patty Jenkins e nesse exemplar francês.

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