Os 10 anos de “Batman: O Cavaleiro das Trevas”

Otavio Almeida 18 de julho de 2018 0
Os 10 anos de “Batman: O Cavaleiro das Trevas”

Melhor filme de super-herói? Não, não foi só isso. Entenda como Christopher Nolan fez de “Batman: O Cavaleiro das Trevas” o melhor filme policial dos últimos 10 anos.

Por Otávio Almeida

Dentro de uma sociedade, em qualquer época, heróis e vilões ajudam a escrever a História. Homens loucos, gananciosos, corajosos ou perversos desenham cenários dignos de lendas ou mitos. Sempre foi assim. O que poucos param pra pensar é que o homem que se torna lenda é um sujeito de carne e osso, um fruto da sociedade na qual ele vive. Para quem ouve as histórias, no entanto, o que importa é somente a lenda. Ou o mito. Não interessa se o conto é inteiramente verdadeiro ou não. As pessoas precisam de lendas e mitos de heróis e vilões em suas vidas.

Para chegar a tal conclusão, o diretor Christopher Nolan fez de “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (The Dark Knight, 2008) não exatamente uma sequência de “Batman Begins”, mas seu complemento. A primeira parte não deixa de ser um “filme de super-herói”, mas antes de Nolan reinventar o Homem-Morcego, o cinema jamais havia mostrado um filme do gênero com os (dois) pés no chão; com uma trama tão enraizada dentro de nossa realidade que ela poderia perfeitamente acontecer na rua mais próxima da sua casa.

Com o sucesso de “Batman Begins”, ele ganhou mais liberdade para tomar decisões e atravessou os limites da fórmula “filme-baseado-em-quadrinhos”. Se “O Cavaleiro das Trevas” pode ser definido por um gênero, não me diga que temos aqui mais um “filme de super-herói”. A estética visual e o conteúdo vêm do cinema brutal e político dos anos 70. Como consequência, Nolan fez um épico policial moderno e intimista com mocinhos e bandidos verossímeis, que reagem à violência e ao caos de seus tempos – mesmo que o tira em questão utilize uma fantasia de morcego.

Mas o gênero policial é apenas o território e a estrutura. O que Nolan quer dizer é algo muito maior. Em um típico “filme de super-herói”, como “Homem-Aranha”, “Superman” e até “Batman Begins”, o herói triunfa sobre o ambiente desenvolvido pelas falhas do governo e suas consequências na sociedade. Com uma análise mais profunda do que podemos ver na Hollywood de hoje sobre as origens do bem e do mal, Nolan vai além em sua alegoria política e social. No estudo proposto pelo diretor em “O Cavaleiro das Trevas”, heróis e vilões são derrotados. Todos perdem, mas o ambiente permanece. Resta o mito ou a lenda. As histórias vivem para sempre em contos, livros e canções. Para Chris Nolan, o bem não existe sem o mal. E vice-versa. Um completa o outro. Essa é a forte conexão entre o Batman e o Coringa.

Na mitologia de Gotham, o herói nasce do caos. Os criminosos querendo arrancar dinheiro e poder à força não são páreos para o Batman. Mas como tudo é parte de um ciclo, o perfil do Coringa é o resultado inevitável e previsível da gênese do Homem-Morcego. Ambos nasceram do mesmo caos. Porém, a evolução do tipo de vilão rompe com qualquer regra ou objetivo. Com isso, o herói não consegue compreender seu inimigo. Então, como derrotá-lo? Adepto máximo da anarquia, o Coringa de Heath Ledger é um psicopata, um agente do caos. Ele quer mostrar que qualquer um é capaz de roubar, matar, mentir ou agredir quando a lei e a ordem desaparecem. Infelizmente, não importa se você concorda ou não, o Coringa tem razão. Ou, pelo menos, Heath Ledger prova que sim. Enfim, apenas dilemas e conceitos do mundo real.

Para pegar o Coringa, que inspira o mal e a histeria coletiva, o incorruptível Batman questiona se ele deverá ou não quebrar as regras do jogo. Antes de chegar neste ponto, o herói pensa em se aposentar e acredita que a esperança de Gotham reside na figura do promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart), um justiceiro que, ao contrário dele, mostra seu verdadeiro rosto ao povo. Mas numa sociedade à beira da barbárie, como diz o promotor a Bruce Wayne/Batman (Christian Bale), “ou você morre como um herói, ou vive tempo suficiente para se tornar o vilão.” Por isso, Harvey Dent é o mediador de todos os conflitos do filme – o bem e o mal, a ordem e a anarquia, Batman e o Coringa.

Dentro desta análise aparentemente louca, a base do roteiro de Christopher Nolan (e seu irmão Jonathan Nolan) não é o Batman clássico dos quadrinhos. Para chegar à conclusão de que tudo passa, mas a lenda permanece, “O Cavaleiro das Trevas” desconstroi heróis e vilões de forma niilista num filme policial violento cheio de camadas complexas e surpreendentes – algumas visíveis aos olhos do espectador, enquanto outras nem tanto.

Pensando assim, seria injusto com Aaron Eckhart se todos resumissem o filme somente à atuação “possuída” de Heath Ledger, que desaparece para dar lugar ao Coringa. Seria injusto com Gary Oldman, perfeito como o contido e correto Comissário Gordon. É ele quem “vive” para contar a história e divulgar a lenda. Seria injusto com o ótimo trabalho de direção de Chris Nolan – ele é talentoso ao orquestrar ação, tensão, drama e diálogos memoráveis, além de ser extremamente competente na hora de arrancar o máximo de seus atores. Nolan também lembra como a trilha sonora é importante num filme. Composta por James Newton Howard e Hans Zimmer, a música é aproveitada de maneira clássica pelo diretor – ela empolga nas atitudes heróicas do Batman, emociona quando o drama é exigido e coloca os nervos da plateia à flor da pele com um ruído irritante que antecipa a entrada do Coringa em cena. O “Palhaço do Crime” está magnífico, você sabe, porém, o mais impressionante, ao compreender as intenções do filme, é constatar que a atuação de Heath Ledger é apenas parte de um plano comandado pelo diretor.

No fim, “Batman Begins” e “O Cavaleiro das Trevas” formam um filme completo, como “O Poderoso Chefão” e “O Poderoso Chefão: Parte II”. Vejo a saga do Batman de Chris Nolan como um ciclo. Embora o final emocionante, poético e inesperado seja um gancho perfeito para a terceira parte, “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge” conclui a trilogia de forma espetacular, nunca se repete, segue em frente, troca o gênero policial pela guerra e é uma história desesperadora que só deixa o espectador respirar no minuto final, porém não chega aos pés do segundo episódio.

“O Cavaleiro das Trevas” pode ser o melhor filme desse universo de heróis, mas por atingir um nível definitivo, Nolan acabou com tudo que viria a seguir relacionado a esses personagens, inclusive a sequência que ele mesmo dirigiu. Tanto que a DC/Warner não ousou arriscar e mudou o tom quando o cineasta deixou a franquia, buscando assim abraçar a fantasia para encarar a concorrência avassaladora da Marvel Studios. Não importa se os filmes são bons ou ruins para você. Pelo menos, entenderam que era preciso fazer diferente.

Para terminar, um grande filme não se prende a um gênero só, mas se você insiste que Christopher Nolan fez mais um “filme de super-herói”, então existe o antes e o depois de “O Cavaleiro das Trevas”, o filme que viverá para sempre. Visão exposta pelo próprio Coringa, que diz ao Batman no final que ambos estão destinados a uma luta eterna.

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