“Homem-Formiga e a Vespa” | Crítica

Otavio Almeida 16 de julho de 2018 0
“Homem-Formiga e a Vespa” | Crítica

Descompromissado como sempre, porém com mais personalidade numa aventura não tão fácil de esquecer quanto a anterior

Por Otávio Almeida

Depois da pesada carga dramática de “Vingadores: Guerra Infinita”, chegou a hora de relaxar e aproveitar a diversão. É o recado da Marvel Studios com “Homem-Formiga e a Vespa” (Ant-Man and The Wasp, 2018).

Realizado sem grandes problemas nos bastidores, como a saída de Edgar Wright e a entrada de Peyton Reed na direção do filme original, a nova aventura do herói é menos fórmula e mais coração. É mais ou menos assim: o primeiro “Homem-Formiga” é legal, mas tão descompromissado que parece um spin-off do Universo Marvel; tanto que o rótulo de “Sessão da Tarde” caiu bem da forma mais pejorativa possível – divertido, correto e inofensivo enquanto dura, porém esquecível minutos depois. Talvez tenha sido a saída encontrada por Reed e o estúdio para “Homem-Formiga” passar bem longe tanto da proposta visual quanto do estilo narrativo de um diretor de assinatura facilmente reconhecida como Edgar Wright.

Já o segundo longa nasceu livre para ser exatamente o que a Marvel queria. Peyton Reed, que concluiu o anterior, pode não ser criativo como Edgar Wright, mas soube encontrar um padrão para as aventuras do Homem-Formiga. Desta vez, a leveza que a história precisava apresentar entre o lado humano e o fantástico, como nos tempos em que nada mais importava que os filmes das férias de julho, não parece forçada. Melhor que isso, consegue adicionar personalidade própria ao filme sem descaradas ligações com os Vingadores. Pelo contrário, sabemos que “Homem-Formiga e a Vespa” está devidamente inserido neste universo, mas sem depender disso para impressionar o público e, com muita garra, reivindica seus status como parte essencial das engrenagens de uma saga gigantesca. Mesmo que tenha um tom completamente diferente e (por que não?) particular.

“Homem-Formiga e a Vespa” também tem o mérito de evoluir questões iniciadas no primeiro – e não se repetir –, como dar o passo seguinte nas discussões da complicada relação entre pais e filhos. Ops, filhas. E temos três núcleos aqui que se complementam, entre ações e reações às consequências físicas e emocionais de seus encontros e desencontros liderados por Scott Lang (Paul Rudd) e Cassie (Abby Ryder Fortson), Hank Pym (Michael Douglas) e Hope (Evangeline Lilly), e Bill Foster (Laurence Fishburne) e Ava (a revelação Hannah John-Kamen, que esteve em outro filme da temporada, “Jogador No 1”). Digo mais: “Homem-Formiga e a Vespa” consegue ser muito mais completo nesse tema que muito filme por aí com rótulo de sério. Além disso, claro, o filme desenvolve muito bem o arco do protagonista iniciado no episódio anterior. Depois de “Homem-Formiga” e “Capitão América: Guerra Civil”, Scott deve não necessariamente vestir seu traje de novo e partir para a próxima aventura, mas entender e aceitar de uma vez por todas a sua verdadeira vocação. Digamos que funciona como um complemento das aparições anteriores do Homem-Formiga e que a jornada inicial do personagem está encerrada. Inicial porque sabemos que Scott se juntará em breve aos Vingadores na sequência de “Guerra Infinita”, mas esse papo fica para depois, inclusive com o gancho da primeira das duas cenas pós-créditos de “Homem-Formiga e a Vespa”. Particularmente, achei uma boa decisão fazer essa ligação com “Vingadores” somente após o fim do filme, porque mantém a identidade própria da produção.

Não é tão melhor assim que o primeiro filme, mas certamente é mais bem construído e equilibrado. Ele simplesmente encontra seu próprio tom. Como “Vingadores: Guerra Infinita” soube muito bem juntar tanta gente e respeitar cada núcleo. Para isso, não só a direção segura de Peyton Reed conta, mas também o comprometimento do elenco. Paul Rudd está muito mais à vontade e com a liberdade para ser o Paul Rudd que queremos ver, mas sua importância não é maior ou menor que a de Evangeline Lilly, que ilumina a tela toda vez que surge. Até os coadjuvantes de luxo brilham, especialmente Michael Peña (engraçadíssimos), Michael Douglas (com mais coisa para fazer que no primeiro longa) e a mulher que não precisa de nada ou ninguém para emitir sua luz natural, Michelle Pfeiffer. Sua presença é como um troféu de recompensa para o espectador. Aliás, uma curiosidade para quem já viu o filme: reparem no que está escrito no troféu da filha de Scott. No fim, não é mera piada, porque seu significado dialoga com a conexão do protagonista com uma certa personagem.

Não sei se foi intencional, mas gosto de pensar que sim, afinal nenhuma piada ou qualquer pista é gerada de forma gratuita. Pode não ser aquele filme que alça voos ousados, mas há uma harmonia incrível entre comédia, ação e efeitos (visuais e sonoros). A sequência que sintetiza essa junção infalível é a perseguição em alta velocidade pelas ruas de São Francisco, que é a melhor do filme, e conclui a aventura como um espetáculo sem compromisso sim. Mas, desta vez, impossível de ser esquecido.

VEJA O TRAILER:

Homem-Formiga e a Vespa (Ant-Man and the Wasp, 2018)
Direção: Peyton Reed
Roteiro: Chris McKenna, Erik Sommers, Paul Rudd, Andrew Barrer e Gabriel Ferrari
Elenco: Paul Rudd, Evangeline Lilly, Michael Douglas, Michelle Pfeiffer, Michael Peña, Laurence Fishburne, Hannah John-Kamen, Walton Goggins, Bobby Cannavale, Judy Greer, Damian Dastmalchian, Randall Park, Abby Ryder Fortson
Duração: 1h58
Distribuição: Disney

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