“Os Incríveis 2” | Crítica

Otavio Almeida 3 de julho de 2018 0
“Os Incríveis 2” | Crítica

Sequência é divertida, mas demorou 14 anos para repetir o que o primeiro filme discutiu de forma muito mais precisa

Por Otávio Almeida

Antes da era Marvel Studios, e até mesmo de Batman Begins, que deu origem à trilogia do Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan, o diretor Brad Bird (revelado por “Gigante de Ferro”, outra animação adorada) fez o melhor filme de super-heróis da história do cinema saído de um roteiro original. Mais que “Corpo Fechado”, vai.

De lá para cá, Brad Bird ficou de saco cheio do excesso de filmes baseados em histórias em quadrinhos e pensou que o público sentiria o mesmo cansaço. Claro que Brad Bird e a própria Pixar estavam enganados e, infelizmente, levaram longos 14 anos para absorver essa certeza para arriscar a tão esperada sequência e a única que os fãs pediram desde então. Nesse período, o estúdio insistiu em duas desnecessárias continuações de “Carros”, embora o 3 seja legal, e um prelúdio de “Monstros S.A.”, o tanto faz “Universidade Monstros”. Ok, “Procurando Dory” é a melhor sequência que “Procurando Nemo” poderia ter, mas não engraxa os chuteiras do original.

Pois bem, parto do princípio de que vemos “Os Incríveis 2” (The Incredibles 2, 2018) para gostar, certo? Afinal, esperamos muito por este filme que finalmente virou realidade. E mais realidade, impossíve, porque inverte os papéis destacando Helena em ação, com Beto cuidando das crianças durante 80% do filme em casa, embora a Mulher Elástica não fique nem 20% do primeiro “Os Incríveis” distante da aventura. Mas no 2, o mesmo serve para a garotada, porque Flecha não tem muito o que fazer, exceto ser o alívio cômico, enquanto Violeta (essa sim pouco aproveitada no original) ganha mais espaço. E o que dizer dos novos personagens? Basta reparar como somente as mulheres não parecem infantis para educadamente não dizer idiotas. Ah, sim, Zezé é menino, mas é bebê e ainda não foi dominado pelo machismo, então não tem culpa. Por isso, ele brilha e rende alguns dos melhores momentos de “Os Incríveis 2”, apesar de ser meio broxante lidar com as explicações do que acontece com o pequenino, quando havia todo um charme em torno de seus misteriosos poderes no longa de 2004.

Duas coisas que você deve ter percebido no meu texto: 1) “Os Incríveis 2” repete a estrutura de roteiro do original, o que é um crime preguiçoso para justificar uma continuação. E 2) A nova história chega, pelo menos, com uns cinco anos de atraso. Explico: Se a estreia tivesse acontecido pouco depois de 2004; ou seja, na carona do sucesso de “Os Incríveis”, ou na época de “Jogos Vorazes” ou “Star Wars: O Despertar da Força”, essa segunda parte seria revolucionária pela ousada “correção de gêneros”. Antes, estaria na vanguarda. Hoje, parece que vem na tendência de Hollywood e é apenas mais um.

Em 2018, para quem acompanha cinemão americano, isso não é mais novidade nem mesmo em animações. Ou ninguém viu “Frozen” ou “Moana”? “Carros 3” criou a personagem Cruz, que deixou McQueen e Mate para trás. Mas esse não é o problema. O maior defeito é “Os Incríveis 2” ser repetitivo, porque Helena nunca ficou em segundo plano no original. Pelo contrário, o primeiro já deixou claro para quem não enxerga apenas cara, mas também coração que sua força e importância são maiores ou tão importantes quanto as de Beto. E não é só isso.

“Os Incríveis 2” se estende demais nos mesmos dilemas que o primeiro filme discutiu de forma muito mais precisa, incluindo a parte política sobre a ausência dos heróis no mundo, assim como o papel da mãe, do pai e como a família descobre ser bem mais forte unida. Enfim, o segundo filme roda, roda para cair no mesmo lugar. Com a desvantagem de que esperamos 14 anos para ver os Incríveis juntos e vestidos de “Os Incríveis” praticamente no finalzinho.

Curiosamente, “Os Incríveis 2” cresce quando deixa os laços de família para trás e se preocupa em ser incrível. Peço perdão pelo trocadilho, mas é verdade. Já conhecemos a família e suas falhas, então é hora de partir para situações que possam ameaçar dramaticamente essa união. E é na ação e sua sensação de perigo que o filme encontra seus melhores momentos, ancorados pela constatação da absurda evolução técnica que a Pixar alcançou de 2004 até aqui. Em certas partes, nossos olhos demoram a se acostumar com a velocidade da ação. E essa rapidez envolve o jogo acirrado entre luzes e sombras, como na luta excepcional entre a Mulher Elástica e o vilão Hipnotizador numa câmara repleta de lâmpadas, que é a minha favorita do filme. Confesso que preciso rever a cena, porque o excesso de luzes fez meus olhos acreditarem que as duas personagens foram concebidas em animação tradicional por alguns segundos.

Aliás, o vilão rende um tom sombrio inédito, mas que não combina muito com o restante do filme. Isso não quer dizer que o Hipnotizador seja um grande vilão, mas fica a sensação de que poderia ser aproveitado com mais eficiência, afinal a rápida revelação de sua identidade, além de previsível, diminui seu impacto na trama.

Não sei, talvez seja hora de mergulhar de cabeça na ação num próximo episódio. Ou se a pegada será sempre o lado humano, uma saída pode ser o envelhecimento dos personagens em “Os Incríveis 3”, assim como arrisca a série “Como Treinar o Seu Dragão”. O segundo filme tem sim diversão garantida, é um entretenimento competente, mas chegou a hora de sair do território seguro. Ou, ao menos, da atual fase vivida pela família, porque essa página já foi virada em 2004.

VEJA O TRAILER:

Os Incríveis 2 (Incredibles 2, 2018)
Direção e roteiro: Brad Bird
Com as vozes de Craig T. Nelson, Holly Hunter, Samuel L. Jackson, Bob Odenkirk, Catherine Keener, Sarah Vowell, Huck Milner, Eli Fucile, Sophia Bush, Isabella Rossellini, Jonathan Banks, John Ratzenberg, Brad Bird
Duração: 1h58
Distribuição: Disney

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