“Missão: Impossível – Efeito Fallout” | Crítica

Otavio Almeida 27 de julho de 2018 0
“Missão: Impossível – Efeito Fallout” | Crítica

SÉRIE SE SUPERA DE NOVO AO COMPLEMENTAR FILME ANTERIOR COM UM BANQUETE ESPETACULAR E INSANO DE AÇÃO

Por Otávio Almeida

Quando penso que já vi de tudo no cinema, vem um filme como “Missão: Impossível – Efeito Fallout” (Mission: Impossible – Fallout, 2018) e cala minha boca. Essa franquia protagonizada desde 1996 por Tom Cruise não para de surpreender e entrega um sexto episódio que é um banquete, um espetáculo insano de ação ininterrupta. Junto com o anterior, “Nação Secreta”, forma um extraordinário, longo e definitivo “Missão Impossível” de mais de 4 horas de duração e confirma o diretor e roteirista Christopher McQuarrie (quem diria?) como um mestre do cinema de ação contemporâneo.

Vamos admitir: a trilogia com subtítulos é melhor que a trilogia com números. O 1, o 2 e o 3 viraram parques temáticos dos estilos de seus diretores – respectivamente Brian De Palma, John Woo e J.J. Abrams – sob o comando da rédea curta do produtor Tom Cruise. Mas, então, em 2011, o astro confiou a produção e o processo criativo a J.J. Abrams, que contou com Brad Bird para dirigir mais uma reinvenção de “Missão: Impossível” (foi série de TV se você não lembra). “Protocolo Fantasma” resolveu de uma vez por todas padronizar tom, ritmo e visual com duas diferenças: Ethan Hunt, o agente infalível vivido por Cruise, agora tinha um bom desenvolvimento a respeito de seu passado e personalidade. Finalmente, um ser humano. A outra diferença foi tirar o foco exclusivo de Cruise e dar o merecido destaque à ótima equipe de coadjuvantes com Simon Pegg, Ving Rhames, Rebecca Ferguson, Alec Baldwin e Jeremy Renner, que não está no novo filme.

Padrão estabelecido, J.J. Abrams mais poderoso na indústria, Cruise com o ego em segundo plano e o convite para Christopher McQuarrie se exercitar como diretor depois do ruim “Operação Valquíria” e o Oscar de Roteiro Original por “Os Suspeitos” levaram à “Nação Secreta”. Habilidoso como roteirista, McQuarrie entendeu que não precisava mudar de novo e apenas lapidou o que estava certo em “Protocolo Fantasma”. Se não tinha essa destreza como diretor, bastou seguir o conselho de Clint Eastwood: confiar num bom roteiro, um bom elenco e numa boa montagem, porque o diretor precisa ser muito incompetente para estragar tudo.


CHRISTOPHER McQUARRIE, MESTRE DO CINEMA DE AÇÃO MODERNO

Mesmo assim, McQuarrie se saiu melhor que o esperado, trouxe o suspense de volta à série, como não víamos desde o primeiro filme, mas o equilibrou perfeitamente com o festival de ação que Ethan Hunt e seu time merecem. Além disso, revelou a colossal Rebecca Ferguson e fez de Sean Harris um vilão memorável.

Tudo isso e todo mundo de volta em “Efeito Fallout”, que age como um complemento aos eventos narrados em “Nação Secreta”. McQuarrie de novo eleva o nível sem mudar o jogo, apenas aperfeiçoa sua tática. E o que se vê na tela é quase nenhum segundo deixado para o espectador respirar. Diria que o novo filme é levemente superior ao anterior por causa da intensidade absurda de suas cenas de ação que, muitas vezes, desafiam a mente humana a tentar descobrir onde McQuarrie e seu diretor de fotografia (Rob Hardy, o mesmo de “Aniquilação”) esconderam as drogas das câmeras. Há uma sequência em queda livre no meio de uma tempestade em formação que, confesso, nunca vi algo assim antes. Tem uma luta dentro um banheiro que é porrada física e crua e aposto que alguém se machucou de verdade em algum momento. Duas correrias também tiram o fôlego: uma de moto pelas ruas de Paris e outra com um Tom Cruise de 56 anos com mais fôlego e raça que muito jogador de futebol colocando sebo nas canelas no meio de Londres.

Mas nada preparou você para o duelo de helicópteros no final. Se ninguém morreu ali na vida real é porque o filme merece o Oscar de Melhores Efeitos Visuais. Aliás, nem quero saber como essa sequência e todas as outras foram feitas para não amenizar a magia que me deixa com a sensação de que estou vivo, passando bem e sonhando acordado. ISSO é filme de ação, o resto é patético.

“Efeito Fallout” tem clichê sim em tudo que você leu acima, inclusive referente à ameaça (bomba nuclear, né) e à atualização da discussão sobre salvar uma vida ser mais importante que salvar bilhões (e no finalzinho você tem a resposta), mas é tudo tão rápido que nem dá tempo de raciocinar. Só que não tem problema, porque o blá-blá-blá e suas reviravoltas representam as iscas perfeitas para confundir o espectador, prendê-lo no anzol e arremessá-lo sem dó no que mais importa: a narrativa pautada pela ação. E Christopher McQuarrie, com seu olho apurado para detalhes, imprime uma avassaladora pegada visceral e emocional ao filme que é difícil largar da imersão.

ETHAN HUNT > JAMES BOND

O que me leva a dois pontos. Um é como o retorno dos efeitos práticos a Hollywood vem garantindo os espetáculos mais impressionantes do cinema atual. Vide “Mad Max: Estrada da Fúria” e “Dunkirk”. O segundo é ninguém menos que Tom Cruise, esse astro monstruoso que sustenta o status de ser o maior de todos há pelo menos duas décadas. Eu confio, aplaudo e torço toda vez que ele aparece na tela. Posso dizer? Chegamos numa era em que não tenho medo de cravar que Ethan Hunt é maior que James Bond. Admitam, seus filmes são mais divertidos e relevantes que os de James Bond no século 21. Que homem, gente.

Mais três coisinhas: Henry Cavill, aqui vai meu pedido de desculpas. Você evoluiu como ator e contou com o suporte precioso de Cruise e McQuarrie. Guarde esses amigos para sempre, ok? E, Lorne Balfe, você fez o melhor uso da trilha clássica de “Missão: Impossível” que minhas orelhas testemunharam. A última é um recado aos envolvidos, afinal missão impossível é superar esse filme. Então, boa sorte no próximo episódio e também para quem quiser fazer filmes de ação daqui para frente. Vocês vão precisar.

VEJA O TRAILER:

Missão: Impossível – Efeito Fallout (Mission: Impossible – Fallout, 2018)
Direção e roteiro: Christopher McQuarrie
Elenco: Tom Cruise, Rebecca Ferguson, Simon Pegg, Henry Cavill, Angela Basset, Ving Rhames, Sean Harris, Michelle Monaghan, Alec Baldwin, Wes Bentley, Vanessa Kirby
Duração: 2h27
Distribuição: Paramount

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