“Ilha dos Cachorros” | Crítica

Otavio Almeida 20 de julho de 2018 2
“Ilha dos Cachorros” | Crítica

Wes Anderson homenageia o Japão com os olhos de quem aprendeu tudo sobre cultura oriental através do cinema

Por Otávio Almeida

“Ilha dos Cachorros” (Isle of Dogs, 2018) é uma daquelas loucuras relevantes que surgem de vez em quando e só podemos ver no cinema para acreditar. Uma loucura que não vem de qualquer um, mas de um dos maiores cineastas do século, Wes Anderson, que escreve aqui mais uma página brilhante de sua história.

Pela segunda vez se arriscando pela animação em stop-motion (a primeira foi em “O Fantástico Sr. Raposo”), o diretor americano ousa se aventurar pelo Japão. Não como Sofia Coppola filmou “Encontros e Desencontros” com olhar de turista deslocada nem como Martin Scorsese com seu coração católico perdido em um lugar que recusa Deus em “Silêncio”. Em “Ilha dos Cachorros”, Wes Anderson segue imprimindo sua assinatura inconfundível, obcecado por personagens peculiares, cores abundantes e planos exageradamente simétricos. Está tudo lá, mas Anderson imprime seu estilo como se fosse um cineasta da melhor escola japonesa, estudioso da cultura local, incluindo suas lendas, porém não guiado pela personalidade de quem foi educado na terra do sol nascente. Mas por quem cresceu de longe vendo os filmes dos maiores mestres japoneses, como Kurosawa e Ozu.

Então, esqueça esse papo bizarro que acusa Wes Anderson de apropriação cultural. “Ilha dos Cachorros” é uma declaração de amor ao stop-motion e ao cinema japonês feita por um homem que faz filmes direto de outro planeta. Ponto.

Wes Anderson não vive na Terra e contar a trama de “Ilha dos Cachorros” é reduzir a proposta sensorial que ele sonha fazer a plateia embarcar de corpo e alma. E seria o tradicional filme de travessia se não fosse esse diretor por trás das câmeras. Você só precisa saber que é sobre a paixão local por gatos (sabendo que veio de lá a história do cachorro Hachiko), governos autoritários, exclusão social, ciência, além de características que descrevem o melhor amigo do homem, como amizade, lealdade e amor; tudo num cenário em que adultos falam japonês (e têm uma genial tradução simultânea), enquanto cães falam inglês.

Uma curiosidade antes de continuar: fiquei com a impressão que os cachorros de Wes Anderson não latem. Talvez somente nas cenas em que brigam. Não sei, mas preciso ver de novo para crer.

Enfim, ainda sobre o roteiro, o resto é uma viagem total que arrisca ver o dedo do espectador acusando uma trama que se perde de vez em quando. Mas, na verdade, Wes Anderson não está interessado na habitual narrativa ocidental. A cabeça aqui está voltada para o oriente, com desdobramentos fantásticos que jamais teriam saído da critividade americana. É diferente, mas seria aprovado por Hayao Miyazaki, o mago das animações japonesas, que fez maravilhas como “A Viagem de Chihiro” e “Meu Amigo Totoro”.

Como Miyazaki, Anderson sabe que só os recursos da animação seriam capazes de ilustrar as verdadeiras intenções de seu roteiro. É como inserir num sonho suas ideias e discussões importantes. Por exemplo, esse é o filme mais político de Wes Anderson, que por debater temas como os que descrevi no parágrafo acima faz do diretor uma voz ousada e corajosa contra a opressão numa era em que crianças são separadas de seus pais e pautas como preconceito e igualdade de gênero estão cada vez mais fortes. Mas Anderson é habilidoso ao expôr suas opiniões, assim como Chico Buarque disfarçou em suas letras críticas à ditadura. Pois é, “Ilha dos Cachorros” pode se fingir de alienado por causa do tom poker face do diretor, só que é mais relevante que você pensa.

Mas, não se preocupe, também é divertido e emocionante sem que a veia política deixe o filme sisudo e não se apega à quase regra de que um cachorro precisa morrer no final. Aliás, Wes Anderson até brinca com esse clichê nos últimos segundos. Sem falar que, numa época em que o digital reina, a animação tradicional (e em stop-motion) consegue ser um banquete visual e um desafio para cinéfilos que irão amar a beleza de cada frame e a coceira para decifrar os segredos sobre como Anderson tornou real cada cena. Inclusive, fique atento ao poder dos olhares e como humanos e cachorros têm suas particularidades de expressão com os olhos. Como do lado de cá da tela.

Conta muito também para Wes Anderson a trilha sonora inspiradíssima de Alexandre Desplat e a precisão cirúrgica na escolha de quem dubla qual personagem. Seu time de sempre, com Edward Norton, Jeff Goldblum, Bill Murray, Tilda Swinton, ganha o reforço impactante do vozeirão de Bryan Cranston para desenvolver o arco do verdadeiro protagonista da trama, que, aos poucos, vai se revelando.

É tudo isso mesmo, gente. “Ilha dos Cachorros” é um milagre do cinema e está no hall dos melhores filmes do diretor ao lado de “Os Excêntricos Tenenbaums”, “Moonrise Kingdom”e “O Grande Hotel Budapeste”. E, sim, o melhor filme de cachorro de todos os tempos.

VEJA O TRAILER:

Ilha dos Cachorros (Isle of Dogs, 2018)
Direção e roteiro: Wes Anderson
Com as vozes de Bryan Cranston, Koyu Rankin, Edward Norton, Bob Balaban, Bill Murray, Jeff Goldblum, Greta Gerwig, Kunichi Nomura, Scarlett Johansson, Tilda Swinton, Akira Ito
Duração: 1h41
Distribuição: Fox

2 Comentários »

  1. Paulo Ricardo 20 de julho de 2018 às 10:51 PM -

    Ótima crítica! Só discordo da afirmação que esse é o melhor filme de cachorro:esse posto pertence a “Sempre ao Seu Lado” de Lasse Hallström.

  2. Otavio Almeida 21 de julho de 2018 às 2:39 PM -

    Obrigado! Mas gosta assim de “Sempre ao seu Lado”? Abs

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