“O Resgate do Soldado Ryan”, um dos filmes mais influentes dos últimos 20 anos

Otavio Almeida 26 de julho de 2018 0
“O Resgate do Soldado Ryan”, um dos filmes mais influentes dos últimos 20 anos

Quando “O Resgate do Soldado Ryan” saiu em 1998, muita gente disse que o filme valia a pena somente pelos seus incríveis 25 minutos iniciais. Não foi uma declaração pobre, porque a abertura que mostra soldados aliados da Segunda Guerra Mundial desembarcando na praia de Omaha, na Normandia, realmente impressiona e choca até hoje pela experiência visceral. E isso quer dizer a sensação que emana da mistura entre a crueza da violência, a proximidade do desespero no rosto dos soldados, a câmera quase documental na altura dos olhos de quem está na areia molhada de água e sangue em uma das apresentações de personagens principais mais visuais e criativas dos últimos tempos. Tudo devidamente contextualizado.

Steven Spielberg começou “O Resgate do Soldado Ryan” chutando a porta e socando o estômago do espectador. Nunca antes um filme de guerra mostrou como mortes em conflitos como a Segunda Guerra Mundial são tão feias e nada gloriosas. O cinema deixa tudo mais dramático e poético, mas o cineasta quis falar sério sobre como poucas coisas são tão horríveis quanto uma bala atravessando uma parte do corpo humano e destroçando pele e carne.

Mas sobre o que é o filme mesmo? Ah, sim. O resgate do soldado Ryan. E que história é essa? Bom, é o que Spielberg faz depois dos 25 minutos iniciais: contar essa história.

E como ele é um habilidoso contador de histórias, as falas dos soldados são muito mais saudosistas que sobre o terror do que está diante de seus olhos. Ancorado pelo belíssimo roteiro de Robert Rodat, Spielberg humaniza os personagens apesar do início contundente. É o que traz o espectador para dentro do filme. A abertura tem sua atenção, mas a trama ganha seu coração.

“O Resgate do Soldado Ryan” assume a partir daqui sua natureza de filme de travessia, aquele que raramente dá errado. É quando o pelotão do Capitão John Miller (Tom Hanks em uma de suas performances mais emocionantes) é obrigado a aceitar uma missão de relações públicas: encontrar e levar de volta para casa o único filho ainda vivo de uma mãe que perdeu os outros herdeiros na mesma guerra, o tal Ryan do título. Nessa viagem, caminhando por paisagens a la John Ford e David Lean, influências eternas no cinema de Spielberg, mais que resgatar Ryan, cada soldado acaba encontrando a si próprio, o lado humano dentro da máquina que foi treinado para ser. Enfim, o filme de travessia, como “O Senhor dos Anéis”, que pega os personagens do ponto A de um mapa e acompanha essa jornada até o ponto B. No meio disso tudo está tudo que importa, mais que o começo e o fim, embora Spielberg inicie e termine o filme com uma energia infernal. E com uma crítica à pátria norte-americana. A primeira cena é a bandeira dos EUA tremulando e o indício de que veremos mais um filme patriota. Mas a última cena traz de volta a mesma bandeira, porém com outro significado: o da tristeza pelos que se sacrificaram injustamente, enquanto o general de dez estrelas fica atrás da mesa com o cu na mão.

Há ainda um elemento ligeiramente fantástico que ajuda a levar a narrativa adiante com certa curiosidade: seria a carta do personagem de Vin Diesel (sim, o astro foi revelado por Spielberg) uma espécie de maldição? Repare, porque cada portador da carta acaba morrendo. Seu conteúdo pode representar a casa, uma vida que não existe naquele cenário de horror. Então, eles estão carregando um papel que significa uma realidade que já morreu. Ou pode ser absolutamente nada.

Mas eu sei que vocês querem é falar sobre a parte técnica de “O Resgate do Soldado Ryan”. Então, vamos lá. Spielberg já comentou que optou por um visual antigo, de montagem real de documentário de guerra da época ou fotografias de máquinas dos anos 40, como os clássicos registros de Robert Capa sobre o Dia D; em suas palavras, como se ele tivesse derrubado café no filme no processo de montagem. Edição (de Michael Kahn) que é uma aula de cinema na mesma proporção de importância da fotografia (de Janusz Kaminski).

Tanto que praticamente todos os filmes de guerra lançados posteriormente “imitaram” visual e ritmo de “O Resgate do Soldado Ryan”, um dos filmes mais influentes dos anos 90. E podemos ver isso, por exemplo, em “Somos Heróis”, de Randal Wallace, e “Falcão Negro em Perigo”. Aliás, o filme dirigido por Ridley Scott em 2001 tentou capturar 90% o clima da abertura e do final de “O Resgate do Soldado Ryan”, mas é pouco lembrado por ter priorizado o espetáculo e deixado o aspecto humano em segundo plano (ao contrário do filme de Spielberg, o de Scott dá uma pausa na correria somente no começo e no final). Ok, então esqueça os filmes de guerra. Se você observar com atenção, notará tiques de “O Resgate do Soldado Ryan” em dezenas de filmes em suas cenas de ação que saíram nas últimas duas décadas. Ecos de sua câmera enlouquecida podem ser notados até mesmo em comédias e exemplares de terror. Além disso, a parceria entre Spielberg e Hanks gerou duas minisséries de TV na mesma vibe, “Band of Brothers” e “The Pacific”.

É por isso que os filmes de guerra que mais se destacaram recentemente se prepararam antes através de um processo de desintoxicação da escola de “O Resgate do Soldado Ryan”. É o caso de “Guerra ao Terror”, de Kathryn Bigelow, “Até o Último Homem, de Mel Gibson, e “Dunkirk”, de Cheistopher Nolan, que podem ganhar diversas comparações, menos com “O Resgate do Soldado Ryan”, que é um dos filmes mais influentes dos últimos 20 anos.

Talvez não seja tão apreciado pelos cinéfilos quanto “A Lista de Schindler”, que Steven Spielberg filmou cinco anos antes, mas certamente “O Resgate do Soldado Ryan” é o filme “sério” mais influente da carreira do diretor. Na minha opinião, o maior filme já feito sobre a Segunda Guerra e o melhor trabalho de Spielberg de 1998 até aqui.

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