Disney é Fox. Fox é Disney. Disney é Hollywood.

Otavio Almeida 1 de agosto de 2018 0
Disney é Fox. Fox é Disney. Disney é Hollywood.

A notícia mais importante da indústria do cinema americano na semana passada – e talvez de todo o mês de julho – envolve o império criado por Walt Disney. Não, não estou falando da demissão do diretor James Gunn de “Guardiões da Galáxia Vol. 3”, mas da aprovação de acionistas da Fox e da Disney quanto à compra de um dos maiores estúdios de Hollywood.

Infelizmente, ninguém falará sobre funcionários perdendo seus empregos nessa fase de transição e o que eles podem fazer para dar a volta por cima. É assim em todos os segmentos e a guilhotina arranca a cabeça dos menos privilegiados. Mas sem fugir do assunto, o show precisa continuar e muitos querem saber mesmo é dos Vingadores encontrando os X-Men e o Quarteto Fantástico. Então, vamos lá: a Fox também tem “Alien”, “Predador”, “24 Horas” (na TV), entre outras franquias/séries com potencial para durar eternamente. Mas não se trata somente de Marvel, “Star Wars”, “Indiana Jones”, e animações da Disney e Pixar. A discussão importante do ponto de vista da arte e o entretenimento é que a Fox é um estúdio consagrado e histórico, que obviamente não deixou um legado tão influente apenas com filmes voltados para a diversão das massas.

Quando a Disney comprou a Lucasfilm, muitos pensaram que “Star Wars” não tomaria decisões narrativas ousadas, mas não foi bem isso que vimos em “O Despertar da Força”, “Os Últimos Jedi” e “Rogue One”. Sobre a Marvel, quando você imaginou que veria um final como o de “Vingadores: Guerra Infinita”? Mesmo assim, o conservadorismo faz parte da história da Disney, então manobras arriscadas devem permanecer raras e não como regra. Até porque estamos falando de produtos feitos para faturar alto e quando um público conservador notar que o filme diante de seus olhos está saidinho demais, a bilheteria já foi lá em cima e a Disney pode vir com dois, três ou quatro produções by the book na sequência para apaziguar os ânimos e manter o equilíbrio.

Mas e quanto a filmes ditos mais sérios? A Disney teria coragem de aprovar e bancar? Quantas vezes veremos daqui para frente diretores fora da caixa como Yorgos Lanthimos, Nicolas Winding Refn ou David Fincher colocando seus dedos nas feridas com a marca Fox sob o comando do estúdio do Mickey? A resposta pode ser a mesma para os blockbusters. A cada “Clube da Luta”, podemos ter dois ou três filmes como “Casamento Grego”. É o que faz Hollywood e o que a Disney pode fazer com os lançamentos via Fox.

Dizem que é ruim não ter concorrência, que ela é necessária, e que se a Disney comprar todos os estúdios (ou os mais importantes), não haverá pressão de um oponente para que todos melhorem ainda mais seja para correr atrás do prejuízo ou se manter na frente. Mas e se a Disney estiver se transformando na nova Hollywood? O que vai mudar? É esperar para ver, mas acho que continuaríamos elogiando raridades e reclamando que a maioria dos budgets são investidos em blockbusters.

Não estamos falando exclusivamente de cinema, mas também de televisão. No Brasil, a Disney afirmou que a compra da Fox não diminuirá a concorrência no setor e qualquer sugestão de monopólio aqui ou lá fora não passa de intriga ou fofoca. Se a compra for confirmada, como se espera, a empresa inclusive controlará dois canais esportivos, a ESPN Brasil e o Fox Sports, os grandes concorrentes do SporTV, da Globo. Além disso, a compra da Fox amplia o VOD da Disney para atacar a Netflix e o Hulu.

Será que Walt Disney sonhou que seu império cresceria tanto assim? Seu estúdio e sua marca já nasceram fortes, mas embora seu criador fosse sinônimo de entretenimento, talvez ninguém imaginasse na época que a Disney caminharia a passos largos para se tornar a própria Hollywood, mesmo que isso se consolidasse no século seguinte. E eu diria que a dominação não está começando; ela está em andamento.

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