O Oscar só prova que o Oscar não prova nada

Otavio Almeida 10 de agosto de 2018 1
O Oscar só prova que o Oscar não prova nada

Na Era Donald Trump, a Academia separa o que deveria unir de uma vez por todas. Agora é Oscar de filme popular e Oscar de filme sério. Então, quer dizer que, hoje, “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei” jamais ganharia a estatueta principal? Pois é, gente. A grande discussão da semana girou em torno da infeliz decisão da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciando a criação dessa categoria nada popular: a de Melhor Filme Popular.

Na verdade, o Oscar sempre fez questão de escancarar seu preconceito contra produções de aventura, terror, ficção científica; em outras palavras, a boa e velha fantasia. Mas não exatamente contra filmes populares, até porque “E o Vento Levou” e “Titanic” são sucessos absolutos de bilheteria e vencedores do Oscar. Por outro lado, somente dois filmes de fantasia (o popular “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei”, de 2003, e o pouco popular “A Forma da Água”, de 2017) levaram a estatueta principal em quase 100 anos de um prêmio que se orgulha do cheiro de mofo e de ser uma festa para gente rica se elogiar. O problema é que esse grupo elitista está preocupado com os índices cada vez mais baixos de audiência durante as transmissões da ABC, rede da dona do mundo, a Disney.

Em um ato desesperado, executivos em seus brainstorms regados a cafezinho e pão de queijo decidiram criar esse Oscar de Filme Popular e diminuir a duração da festa para 3 horas (ei, eu pensava que já demorava tudo isso), como se a garotada de hoje tivesse a intenção de esperar até o fim para ver um filme da Marvel ser premiado numa categoria importante. Ok, eu não quis dizer com todas as letras que a Disney causou essa confusão toda. Mas é o ano do hype em torno de “Pantera Negra”, que, cá entre nós, conseguiria entrar fácil na categoria principal, pois abriram de cinco a dez indicados desde o dia em que “Batman: O Cavaleiro das Trevas” ficou de fora para “Quem Quer Ser um Milionário?” sair da festa com o Oscar de Melhor Filme. Mas é aquela coisa: “Pantera Negra” não vai levar.

Como o povo (popular, não o erudito) não é bobo, essa estratégia para fisgar o telespectador não vingou, porque a Academia metida a intelectual, que não passa de conservadora, é incapaz de reconhecer a qualidade de um “Mad Max: Estrada da Fúria”. Eles deixam o filme de George Miller petiscar um Oscar técnico atrás do outro para você permanecer acordado até o Oscar de Melhor Filme só para ver “Spotlight” vencer. Ou seja, a galera não é trouxa, porque não adianta a Academia disparar contra Donald Trump, abraçar o #MeToo e premiar “Moonlight” para rechaçar o #OscarSoWhite quando a instituição é preconceituosa por natureza.

As regras do tal filme popular ainda serão divulgadas, mas a gente pensa aqui: Downloads são populares, não? A Netflix é popular! Está bem, sério agora. Vale popularidade mundial ou só nos cinemas americanos? Por exemplo, “Straight Outta Compton” foi bem nos EUA, mas quase ninguém viu no Brasil. Ou querem dizer popular = blockbuster = filme de fantasia? Novamente, “A Forma da Água” é fantasia, mas não é blockbuster.

A verdade é que filmes como “Vingadores: Guerra Infinita”, “Pantera Negra”, “Jogador Nº 1” e “Missão: Impossível – Efeito Fallout”, os melhores blockbusters do ano, não precisam dessa compaixão, porque serão lembrados eternamente pelo público, enquanto ninguém lembra de “Conduzindo Miss Daisy” e “Crash”. Não é o Melhor Filme Popular que obrigará o público a apoiar uma indústria hipócrita que investe uma grana preta em superproduções o ano inteiro e, no fim, quer fingir para o mundo que faz “filme sério” premiando o que ninguém vê. Ok, o que poucos veem.

Para entrar no time popular da escola, a Academia precisa mesmo evoluir, acompanhar as mudanças. Mas que tal começar reconhecendo de verdade os grandes filmes que conquistam plateias do mundo inteiro independente do gênero da produção? Em resumo, “Vingadores: Guerra Infinita” não deixa de ser um drama. “Pantera Negra” também. E, convenhamos, foi um ótimo ano para os blockbusters. Que tal a Academia premiar elencos, dublês e atuações de captura de performance? Ou, melhor, que tal começar essa mudança ao entregar o Oscar aos melhores e não aos mais prestigiados em Hollywood naquele ano?

One Comment »

  1. Paulo Ricardo 10 de agosto de 2018 às 3:57 PM -

    Essa decisão da academia não tem sentido.O negócio é premiar “filme popular” em uma categoria separada dos filmes “sérios”? O Retorno do rei seria nomeado em qual categoria? Qual critério para um filme ser elegível na categoria popular? Cara…essa decisão é ridícula! Uma baita bola fora da academia.

Deixe seu comentário »