“Você Nunca Esteve Realmente Aqui” | Crítica

Otavio Almeida 13 de agosto de 2018 0
“Você Nunca Esteve Realmente Aqui” | Crítica

NEM JOAQUIN PHOENIX SALVA

Por Otávio Almeida

Quando você faz um filme em que o visual é tão ou mais importante que os diálogos para movimentar a narrativa, cara, vamos combinar que é preciso caprichar. Ninguém aqui está pedindo algo próximo às referências máximas de “2001” e “Blade Runner”, porque seria exigir demais. Também não há a obrigação de ser tão bom quanto exemplos recentes que valorizam o poder da imagem, como “Blade Runner 2049”, “Mad Max: Estrada da Fúria”, “Gravidade” e “Dunkirk”. Mas em “Você Nunca Esteve Realmente Aqui” (You Were Never Really Here, 2018), a diretora Lynne Ramsay não está interessada em encher os olhos do espectador, mas tragar suas entranhas para a sujeira, a podridão das ruas. Nenhum problema quanto a isso, porque Martin Scorsese foi por esse caminho em “Taxi Driver”. Ramsay certamente se inspirou neste outro filme em que o ambiente é praticamente um personagem e ajuda a desenvolver o protagonista interpretado por Robert De Niro e levar a história adiante. Mas é claro que isso aqui não é “Taxi Driver” nem tem a petulância de ser.

Não é abusar do feio ou o bonito que importa. O que não pode é a direção se perder na função prioritária, que é contar uma história. E Lynne Ramsay entra de cabeça nos tormentos do protagonista para sair apenas nos segundos finais. Através de flashes da memória louca de Joe (um desperdício de Joaquin Phoenix), suspeitamos que ele sofreu nas mãos do pai e é veterano de guerra. Suspeitamos, porque ninguém fala sobre isso e as imagens nunca ficam claras. Não seria um problema se a jornada real de Joe funcionasse como uma purificação, não como mais um trabalho, e Joaquin Phoenix colocasse isso para fora de algum modo. Se não com palavras, que tal gestos e olhares capazes de sugerir alguma coisa diferente de um estado inerente de passividade?

Pois é. Tem gente confundindo o personagem como um homem perturbado, porém com bom coração. Mas esquecem que ele é pago para exercer seu cargo de justiceiro. Quando Joe topa um novo job, ele precisa resgatar a filha de um político, sequestrada para servir a uma rede de prostituição. Mas não se engane. Joe está nessa pelo dinheiro; não porque quer preservar a inocência da menina e, de alguma forma, restaurar esse mundo caótico. Pode até ser na mente de Lynne Ramsay ou nas páginas do livro homônimo de Jonathan Ames. Mas com o filme como meu único guia, eu não sei. Joe pode ser um idiota, um assassino perturbado que matou mulheres e crianças na guerra e não dê a mínima para ninguém, exceto sua mãe. Vai saber. O que acontece no decorrer do filme é que ele perde tudo e, então, resta somente a vingança. A conclusão, no entanto, propõe uma segunda chance para Joe. Mas será que ele merece? Definitivamente não sei dizer e não me importo, afinal o estilo desleixado e presunçoso de Lynne Ramsay, visto inclusive em “Precisamos Falar Sobre Kevin”, mostra que ela também não liga para seu público.

Em “Taxi Driver”, Scorsese dá voz e um olhar expressivo à Travis (De Niro), então sabemos o que ele sente. Yorgos Lanthimos, por exemplo, não está nem aí se a gente gosta ou não de “O Lagosta” ou “O Sacrifício do Cervo Sagrado”. Mas é um diretor que sabe conduzir o espectador por seus estranhos pesadelos e extrair dele as sensações planejadas. Ramsay é fria e indiferente para não dizer passiva.

No fim, não é tão fácil assim fazer um filme em que as imagens falam mais que as palavras, porque periga cair no rótulo vazio do “mais estilo, menos substância”. E, infelizmente, é o caso de “Você Nunca Esteve Realmente Aqui”.

VEJA O TRAILER:

Você Nunca Esteve Realmente Aqui (You Were Never Really Here, 2017)
Direção e roteiro: Lynne Ramsay
Elenco: Joaquin Phoenix, Ekaterina Samsonov, Alessandro Nivola
Duração: 1h25
Distribuição: Supo Mungam Films

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