“Sierra Burgess é uma Loser” | Crítica

Otavio Almeida 21 de setembro de 2018 0
“Sierra Burgess é uma Loser” | Crítica

Alguns filmes não podem mais existir em pleno século 21

Por Otávio Almeida

Há uma razão para afirmar que “Sierra Burgess é uma Loser” nasceu velho. Não por se entregar aos clichês da comédia romântica adolescente e de escolinha, mas principalmente por confiar em conceitos que falavam com a sociedade de quase 40 anos atrás, mas que hoje soam como retrógrados e, mesmo que originados das boas intenções, resultam como equivocados ou, diria eu, preconceituosos.

O filme colhe sua inspiração de “Cyrano de Bergerac”, peça clássica de 1897. Já vimos diversos filmes adaptados da obra de Edmond Rostand e não é a primeira vez que os figurinos de época são deixados no armário e substituídos por roupas do período em que a produção foi rodada, como “Roxanne”, de 1987, com Steve Martin e Daryl Hannah. Apesar do título, o filme de Fred Schepisi não é contado do ponto de vista da personagem título interpretada por Daryl Hannah, mas pelo Cyrano narigudo de Steve Martin que tem outro nome que ninguém lembra, embora faça referência ao protagonista da obra clássica.

Só que as pessoas lembrarão do nome de Sierra Burgess, que não é nariguda, mas gorda. Por que uso esse termo? Ora, o filme segue o ponto de vista de Sierra, mas passa a impressão de ter sido feito por quem não cresceu enfrentando seus problemas, incluindo a baixa autoestima. Parece um filme realizado por quem tem ou teve a personalidade de Roxanne. Ou, melhor, pelo tipo de Roxanne que cometia bulliyng e, agora, quer fazer o bem, mas não tem a mínima ideia de como as vítimas se sentiam.

Uma visão artística mais team Veronica (Kristine Froseth) que team Sierra (Shannon Purser). Não por acaso, a amiga da protagonista possui um arco dramático muito mais completo e redentor. Além de bonita (e exemplo de beleza vendido para a sociedade), ela termina o filme bem mais inteligente e um doce de pessoa, ao contrário da monstra apresentada no início. Ok, podemos mudar o mundo e ajudar qualquer um a melhorar como pessoa. Mas não quando comparamos uma coadjuvante com o arco da protagonista e concluímos que o final foi idealizado para ser feliz.

Bom, mais ou menos assim, Sierra é uma adolescente intelectual, que sofre bullying das meninas populares da escola, como a líder de torcida Veronica, que apronta essa aqui: ao invés de dar o número de seu celular para o ingênuo Jamey (Noah Centineo), ela passa o de Sierra para humilhar ainda mais a coitada, que acaba se apaixonando pelo rapaz via mensagens de texto (!). Mas olha o problemão, gente. Sierra se acha feia, e como Veronica deve uma a ela por causa da cachorrada, pede ajuda a ex-inimiga, que deverá se passar por ela quando tiver de encontrar o cara ao vivo. Em troca, dará aulas de verdade à Veronica, que pode ser popular, mas tira zero nas provas. Ufa. Entendeu? É como Cyrano, mas invertendo os papéis para avacalhar com o sexo oposto.

Sei que também lembra John Hughes e nostalgia é uma sensação indescritível de tão boa. Só que Hughes foi marcado pelos anos 80, muitos pensamentos envelheceram e lá se vão quase 4 décadas, não? É preciso atualizar alguns conceitos, afinal certas soluções não podem mais funcionar em 2018. Eu já disse isso, certo? Mas acho que é preciso reforçar; ainda mais que sabemos muito bem o quanto existem pessoas que querem voltar a viver como no século passado.

Talvez eu esteja enganado, mas também não é possível encarar alguns filmes de Hughes hoje em dia sem notar que muitos pontos estão datados. Ficam os clássicos irretocáveis e atemporais, como “Clube dos Cinco” e “Curtindo a Vida Adoidado”. Mas veja “Gatinhas e Gatões” agora e tente não ficar indignado. Pior que isso é constatar, em 2018, que “Sierra Burgess é uma Loser” realmente conclui que a protagonista é feia, embora pondere de maneira hipócrita que, mesmo assim, devemos olhar para sua inteligência acima da média e a beleza interior. Além disso, recupera a amiga lindona, que termina o filme, digamos, com um saldo de empatia muito mais elevado que a verdadeira protagonista da história. De novo, acho necessário repetir alguns pontos para deixar claro que não vivemos mais na época de nossos pais ou avós. Quem sabe, assim, não fazem mais filmes como “Sierra Burgess é uma Loser”?

Vale apenas para rever ídolos dos jovens dos anos 80, como Lea Thompson, que esteve em “De Volta para o Futuro”, e Alan Ruck, de “Curtindo a Vida Adoidado”. E funciona como laboratório para a talentosa Shannon Purser, a Barb de “Stranger Things”, e essa descoberta impressionante que rouba todas as cenas, Kristine Froseth.

VEJA O TRAILER:

Sierra Burgess é uma Loser (Sierra Burgess is a Loser, 2018)
Direção: Ian Samuels
Roteiro: Lindsey Beer
Elenco: Shannon Purser, Kristine Froseth, Noah Centineo, RJ Cyler, Lea Thmpson, Alan Ruck, Loretta Devine
Distribuição: Netflix
Duração: 1h45

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