“Nasce uma Estrela” | Crítica

Otavio Almeida 15 de outubro de 2018 2
“Nasce uma Estrela” | Crítica

Cover de Bradley Cooper e Lady Gaga é cinema para os ouvidos e música para os olhos

Por Otávio Almeida

“Música é, essencialmente, 12 notas entre qualquer oitava. 12 notas e a oitava repete. É a mesma história sendo contada de novo e de novo. Tudo o que um artista pode oferecer ao mundo é como ele enxerga essas 12 notas.”

Com essa fala dita no final da quarta versão para o cinema de “Nasce uma Estrela” (A Star is Born, 2018), o ator e (agora) diretor Bradley Cooper (com pinta de cineasta dos anos 70) não está comentando sobre música ou músicos. Além de ser a concretização da mensagem para que sua musa inspiradora vivida por Lady Gaga seja ela mesma, o astro justifica os roteiros contados diversas vezes por Hollywood, incluindo belas histórias de amor e, claro, seu próprio remake. A diferença está na interpretação do artista.

Diferentes gerações tiveram seu “Nasce uma Estrela” e, por isso, é quase um milagre que um diretor de primeira viagem não ofereça o previsível mais do mesmo. Pelo contrário, conta essa versão com tanta paixão que a torna relevante para os tempos atuais extremamente carentes de boas histórias que exalem valores básicos da humanidade, como amizade, amor, bondade, coisas que perdemos pelo caminho. E o filme de Bradley Cooper não tem medo de ser feliz ao abraçar seu romantismo exacerbado e por vezes brega. Ora, existe sentimento mais brega que o amor? Cooper não tem a mínima vergonha disso e se aproveita do momento cínico que o mundo vive para emprestar um pouco de frescor a uma fórmula tão desgastada. Entrega, assim, um filme emocionante e que vicia, porque gruda como chiclete da mesma forma que um belo refrão.

Mas nada disso seria possível sem uma musa inspiradora. Como disse, neste caso, Lady Gaga, que é sim boa atriz e, mais que isso, entrega talvez a melhor performance de uma cantora famosa se arriscando pelo cinema desde Cher em “Feitiço da Lua”, de 1987. E o melhor elogio que posso fazer nem é esse. É que eu esqueci em cinco minutos ou menos que estava vendo Lady Gaga. Até mesmo quando ela começa a ficar famosa.

Nasce uma Estrela_2

Acho que você conhece a trama de “Nasce uma Estrela”, não? Músico decadente e alcoolatra (Jackson Maine) ganha uma segunda chance não na carreira, mas na vida ao abrir as portas do show business para uma cantora amadora, porém promissora (Ally).

Gosto como Bradley Cooper fala e canta (muito bem) pra dentro, o que tem tudo a ver com Jackson Maine, personagem reprimido e autodestrutivo. Não por acaso recebeu conselhos de Eddie Vedder para cantar, embora mantenha um estilo mais Chris Cornell no quesito comportamento. E é interessante como o ator engrossa a voz para revelar a surpreendente opção pela técnica: seu personagem é irmão de Sam Elliott com seu melhor papel em anos e dono de um dos vozeirões mais imponentes e inconfundíveis de Hollywood. É visível a evolução de Cooper como ator e dá pra cravar que ele nunca esteve tão bem quanto em “Nasce uma Estrela”. Mas o que nasce de verdade aqui  é um novo diretor americano talentoso, que ainda pode dar muitas alegrias para o cinema, pois mostrou dominar algo que Hollywood valoriza muito: o equilíbrio entre integridade artística e viés comercial (um recado nas entrelinhas do próprio roteiro que bate sutilmente na indústria fonográfica). Sobretudo, Cooper sabe contar uma história, mesmo que dê uma acelerada aqui e ali no processo, como um noivado que vira casamento da noite para o dia e a estreia nos palcos da personagem de Lady Gaga num piscar de olhos, que é a melhor cena do filme ao som da melhor canção feita para o cinema nos últimos anos, “Shallow”, embora tenhamos também as ótimas “Maybe It’s Time”, “I’ll Never Love Again” e “Black Eyes”. Outro momento acelerado é quando o empresário de Ally fala algumas verdades e ele toma uma decisão polêmica sem pensar muito ou discutir com a moça a respeito das consequências.

Mas ao invés de criticar Bradley Cooper é aconselhável a tentativa de se colocar no lugar do artista, que costuma ser intenso e levar tudo à flor da pele. Por exemplo, os olhares que brilham quando Jackson e Ally se encontram no início do filme. E se você prefere a primeira metade de “Nasce uma Estrela” é porque o amor é lindo e você foi fisgado. Se a segunda metade é mais pesada é porque a vida não é fácil e a realidade, mais cedo ou mais tarde, bate à nossa porta. Imagine, então, quando essa história é sobre artistas que transparecem mil vezes mais sensibilidade em relação a um mero mortal. Lembrou de “La La Land”? Não foi coincidência, afinal o filmaço de Damien Chazelle não esconde que também se inspirou nas versões anteriores de “Nasce uma Estrela”.

No filme de Bradley Cooper, essa linha tênue entre estar nas nuvens ou no inferno é refletida quando as lentes do diretor de fotografia Matthew Libatique estão seguindo Ally e Jackson, principalmente nos palcos, e se perdem entre flashes e sombras. Gosto, particularmente como Cooper e Libatique preferem deixar os rostos dos atores bem próximos à câmera, como se ela quisesse olhar dentro deles para tentar entender o que estão pensando seus personagens. Veja como o filme abre com Jackson de costas, cabisbaixo, rasgando sua guitarra, envolto pela penumbra de vez em quando cortada pelas luzes, enquanto o final é dominado por cores fortes e Ally cantando como nunca cantou antes, sendo que o último frame traz Lady Gaga olhando para frente; na verdade para vocês, espectadores, que assistiram ao show. Com o diferencial que ela agora está decidida, pronta para ser quem realmente é. Ou seja, o momento em que nasce uma estrela.

VEJA O TRAILER:

Nasce uma Estrela (A Star is Born, 2018)
Direção: Bradley Cooper
Roteiro: Bradley Cooper, Eric Roth e Will Fetters
Elenco: Lady Gaga, Bradley Cooper, Sam Elliott, Anthony Ramos, Shangela, Willam Belli, Rafi Gavron
Duração: 2h15
Distribuição: Warner

2 Comentários »

  1. Ravi N. B. 22 de outubro de 2018 às 2:42 PM -

    Você parou de dar nota?

  2. Otavio Almeida 26 de outubro de 2018 às 11:18 AM -

    Pensei em parar. Você gosta de notas?

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