“O Primeiro Homem” | Crítica

Otavio Almeida 26 de outubro de 2018 0
“O Primeiro Homem” | Crítica

Ser astronauta é uma profissão como outra qualquer na versão fria de Damien Chazelle para um evento histórico da humanidade

Por Otávio Almeida

Depois de “Whiplash” e “La La Land” não há como negar o talento do diretor Damien Chazelle e seu domínio da linguagem cinematográfica. Nada contra ele se arriscar por territórios diferentes, mas ao contrário dos filmes anteriores, seu coração definitivamente não estava em “O Primeiro Homem” (First Man, 2018). É o cara certo no lugar errado; como Messi jogando pela seleção argentina. Ou como aquele trabalho que você topa pela boa grana, mas que, aos poucos, demonstra que não trará felicidade. Um desperdício para a arte, como David Fincher fazendo “O Curioso Caso de Benjamin Button”.

Chazelle até tentou algo novo ao filmar o interior de cápsulas e foguetes como se estivesse trancado em um submarino sem muito o que ver lá fora. Ou, melhor, uma lata de sardinha prestes a ser destruída. Mas desperdiçar a imensidão do espaço sideral é como fazer um faroeste sem bang bang. Soa como solução criativa para driblar restrições orçamentárias, embora a gente saiba que não foi bem isso, afinal é filme de grande estúdio que tem Steven Spielberg como produtor executivo. Acontece que Chazelle se esforçou tanto para fazer uma biografia de Neil Armstrong longe do convencional, focando 100% no homem e 0% no mito, que acabou transformando os astronautas e toda a jornada à Lua num trabalho como outro qualquer.

Essa obsessão de Chazelle em ser realista leva a outro ponto questionável. Ele buscou claramente um olhar documentarista, mas quem disse que documentários são rodados com câmeras com Mal de Parkinson? Existem casos e casos, mas é possível utilizar tal influência numa obra de ficção. Só que os melhores exemplos não negam fogo nem a grandiosidade do cinema quando o gênero assim exige. Como Steven Spielberg e Paul Greengrass, que geraram tendências respectivamente para os filmes de guerra e ação com “O Resgate do Soldado Ryan” e “A Supremacia/O Ultimato Bourne”.

first man 2

“O Primeiro Homem” não vai gerar tendência alguma, porque, em primeiro lugar, não é um trabalho autoral. Não somente por ser o primeiro filme que não leva seu nome no roteiro, que é de Josh Singer (Spotlight, The Post), mas Chazelle transparece que está anos-luz distante de sua verdadeira paixão, que é o mundo da música. Fica a impressão que é um trabalho encomendado no pior sentido da expressão. Lógico que ele não está proibido de explorar, mas “O Primeiro Homem” não fará a mínima diferença para o cinema quando sabemos que “Os Eleitos”, de 1983, ainda é o filme definitivo sobre astronautas reais e continuará sendo assim por muito tempo. Além disso, vivemos num século em que Alfonso Cuarón desenvolveu proezas técnicas até então inéditas em “Gravidade”. Já “O Primeiro Homem” não traz uma cena sequer que fique na memória após o término da sessão (a mais impressionante, que abre o primeiro trailer nem está no corte final). Muito menos deixa qualquer margem para discussão intrigante pós-filme que não seja a de alguns americanos revoltados com o sumiço da bandeira dos EUA fincada na Lua. Embora aqui o motivo seja óbvio e, digamos, devidamente atual: Chazelle quis falar sobre o homem, não o herói patriota.

E é neste ponto, o de adaptar a atmosfera do filme à personalidade introvertida de Neil Armstrong, que Chazelle mata “O Primeiro Homem”. Mesmo que o cineasta faça de cada filme o reflexo de seus protagonistas, dava para abordar um sujeito difícil sem sacrificar o tom de “O Primeiro Homem” e transformá-lo em algo enfadonho como o Armstrong de carne e osso, que é técnico, o profissional exemplar full time, que responde as perguntas dos filhos como se estivesse numa coletiva de imprensa. Um homem que convive de perto com a morte só tem duas saídas: ser frio e enfiar a cara no trabalho. Ok, mas o filme não precisava ser assim.

Para não dizer que fiquei indiferente a tudo, como Chazelle na direção e a personalidade de Neil Armstrong após a morte da filha caçula logo no começo deixando o filme com cara de Ryan Gosling, “O Primeiro Homem” vale alguma coisa graças à bela trilha sonora com espírito de ficção científica de Justin Hurwitz, e a atuação de Claire Foy, como Janet Armstrong, que é a única emoção palpável em cena para lidar com todos os homens mimados (adultos e crianças) ao seu redor.

Fora isso, o resultado geral é um filme com medo demais de esbarrar na emoção; o avesso do espetáculo, voltado para dentro, porém vazio, gelado como o espaço, sem reflexões do fundo da alma e que treme a câmera de forma inconsequente para gerar ação e tensão (mesmo quando não precisa). É o “Guerra ao Terror” dos filmes de astronautas. Tem gente que gosta.

VEJA O TRAILER:

O Primeiro Homem (First Man, 2018)
Direção: Damien Chazelle
Roteiro: Josh Singer
Elenco: Ryan Gosling, Claire Foy, Corey Stoll, Kyle Chandler, Jason Clarke, Patrick Fugit, Ciáran Hinds, Shea Whigham
Duração: 2h25
Distribuição: Universal

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