Roma | Crítica

Otavio Almeida 21 de dezembro de 2018 3
Roma | Crítica

ALFONSO CUARÓN TRANSFORMA O TAL FILME DE ARTE EM UM PRODUTO DO SÉCULO 21

Por Otávio Almeida

Embora arte e comercial não consigam uma separação convincente, pois acredito que os dois termos andam de mãos dadas, “Roma” é o que costumávamos chamar de filme de arte no século passado. Tem inspiração no neorrealismo italiano, não tem trilha sonora, e é rodado em preto e branco pelo cineasta Alfonso Cuarón (“Gravidade”, “Filhos da Esperança”), que relembra sua infância e, principalmente, das mulheres responsáveis por sua educação em Roma (não aquela da Itália, mas o bairro da Cidade do México). O que Cuarón faz aqui é transformar o tal filme de arte em um produto (Netflix) do século 21.

Também encarregado da fotografia do filme, o diretor picota o longa em recortes quase sempre isolados do cotidiano, sem as costuras do storytelling tradicional. É como se fossem flashes de memórias do diretor jogadas na tela, como um adulto se esforçando para se lembrar de passagens marcantes de sua época de criança. Todas elas de alguma forma contam com a presença da verdadeira protagonista da história, a jovem trabalhadora doméstica Cleo (a sensacional Yalitza Aparicio), que dita o ponto de vista único do filme.

Como pano de fundo, o momento político, econômico e social conturbado dos anos 70 no México, mas os olhos de Cuarón estão voltados para Cleo, o coração de uma família em frangalhos. Ela percorre uma ladeira emocional abaixo com a patroa e os filhos dela. Mas, aos poucos, entende que é mais que a mulher que cuida da casa. É a que cuida de todos e é o alicerce mais poderoso dessa que é, no fim das contas, sua verdadeira família. E quando sua ficha cai na lindíssima cena da praia, quem não sentir um nó na garganta precisa urgentemente ir ao médico.

Hoje em dia, um filme com esse roteiro costuma ser feito nas coxas, com câmera tremendo, fotografia desleixada e se o cenário é o México, então, dá-lhe cores estouradas com preferência pelo amarelo do sol castigando tudo e todos. No caso de “Roma”, além de apostar no preto e branco mais elegante que você viu nos últimos anos, Cuarón não balança a câmera, busca enquadramentos não menos que perfeitos e tira beleza de qualquer momento do cotidiano. Captura imagens e sentimentos de uma selva de pedra como se estivesse filmando um épico. Aliás, Cuarón prefere mais imagens que palavras, seguindo orientações de como o cinema veio ao mundo. Para você ter uma ideia, ele começa o filme com água e sabão abrindo uma janela no céu.

Impossível ser mais evidente que isso para deixar clara sua intenção logo nos minutos iniciais. Cuarón quer abrir não somente a janela para suas memórias, mas também a do público. E de qualquer nacionalidade. Não importa a língua falada no filme, pois em pouquíssimo tempo, todos nós falamos o mesmo idioma, porque as lembranças de Cuarón se tornam nossas próprias lembranças, afinal quase todo mundo passou por experiências similares.

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E para ajudar a moldar essa experiência, há uma relação muito profunda entre o que você vê em primeiro plano e o que está em segundo plano no frame. Às vezes exalando contradição, outras atuando como complemento. Mas dissecar aqui o que está em cada cena é atrapalhar o prazer para os sentidos que é descobrir e redescobrir “Roma”. Posso sintetizar essa relação com exemplos fora do filme que dialogam sim com o que está na tela: Quantas vezes na vida você estava triste e alguém próximo estava feliz? Ou vice-versa. Quantas vezes num momento de angústia, você seria capaz de imaginar que acontecia algo ao redor ou existia uma pessoa capaz de mudar aquela sua sensação desoladora de uma hora para outra? Quantas vezes não enxergamos uma oportunidade debaixo de nossos narizes?

É verdade que Cuarón poderia criticar muito mais a relação entre patrões e seus empregados ou discutir com mais contundência a tensão política no México, mas não é o filme que ele quis fazer. Portanto, esses pontos ficam em segundo plano, como eu disse acima. É no fator humano e em sua sensibilidade engajadora e universal que reside o segredo da grandeza de “Roma”. É sobre mulheres.

Isso não quer dizer que esses pontos não sirvam de apoio para contribuir na evolução de Cleo. Mesmo que fique em silêncio muitas vezes, Cleo não é tão passiva, estagnada e parada no tempo quanto aparenta (o avião que abre e fecha o filme não está lá por acaso, pois indica passagem de tempo). A relação entre chefes e seus subordinados não é tão simples assim e muitas vezes aceitamos coisas que vão contra nossos princípios. Mas note como a própria personagem é a mais equilibrada do filme (literalmente, como mostrado na cena daquele artista excêntrico colocando todo mundo num pé só). Em constante movimento evolutivo, Cleo ainda tem seu inesperado segundo de catarse no clímax de “Roma”. Em outras palavras, Cleo caminha para frente sim em sua jornada; ainda que ela demonstre humildade em um mundo injusto e entenda que seu lugar é ao lado daquela família. Existe algo mais épico que o sentimento humano?

É por isso que, quando uma grandiosidade contida ameaça estourar na tela, seja na dualidade entre primeiro e segundo plano, ou quando Cuarón arrisca sequências sem cortes, “Roma” é baseado em sutilezas. Você pode lembrar de semelhanças com o cinema de Fellini, Visconti ou De Sica, mas isso aqui é Cuarón mesmo.

VEJA O TRAILER:

Roma (2018)
Direção e roteiro: Alfonso Cuarón
Elenco: Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Diego Cortina, Carlos Peralta, Marco Graf, Daniela Demesa, Nancy García García e Verónica García
Duração: 2h15
Distribuição: Netflix

3 Comentários »

  1. Paulo Ricardo 22 de dezembro de 2018 às 8:04 PM -

    Concordo contigo em relação a separação entre cinema comercial e arte(uma bobagem sem tamanho),cinema é cinema e ponto final.”Batman-O Cavaleiro das Trevas” é uma superprodução que falou muito das angústias do nosso tempo que muitos filmes de baixo orçamento(ou vai lá de…”arte”),que não conseguem transmitir seu recado.”Roma” é um dos filmes mais lindos de 2018 de um cineasta no auge da sua forma(não tenho dúvidas de cravar que Cuáron será lembrado como um dos grandes diretores de todos os tempos).Tudo em “Roma” é lindo,desde do P&B,até as atuações e o final acachapante.Adorei a participação de Clooney.Assim como em “Gravidade” Cuáron termina “Roma” em uma praia e alguma coisa me diz que o bebê morto de Cleo é a criança de “Filhos da Esperança”.Na última cena em que todos se abraçam eu não controlei o choro.Abraço!

  2. Kamila Azevedo 28 de dezembro de 2018 às 11:03 AM -

    Infelizmente, ainda não conferi “Roma”, mas espero conseguir corrigir isso em breve.

  3. Otavio Almeida 31 de dezembro de 2018 às 10:30 AM -

    PAULO: Adorei o que escreveu. Feliz Ano Novo para você, meu caro. Abs

    KAMILA: Saudades… Veja que vc vai gostar. Feliz Ano Novo! Bj

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