A Favorita | O roteiro de “A Malvada” possuído pelos espíritos debochados de “Barry Lyndon” e “Amadeus”

Otavio Almeida 29 de janeiro de 2019 0
A Favorita | O roteiro de “A Malvada” possuído pelos espíritos debochados de “Barry Lyndon” e “Amadeus”

Dramas de época situados 90% do tempo dentro de casarões e palácios costumam ser lentos, cheios de diálogos, muita formalidade, educação e personagens pensando mais em casamento que guerra e política. Imagina, então, quando entra a realeza em cena. Mas não A Favorita (The Favourite, 2018), o parente boca suja, inconformado com o sistema, que chega chutando a porta, batendo na mesa e falando alto numa comparação ao tipo de filme convencional descrito acima.

É inspirado em fatos reais, mas sem o menor respeito pela corte inglesa do século 18. A Favorita está no título – com a rainha Anne (Olivia Colman) insegura e encarando uma saúde debilitada, sua amizade e confiança são disputadas até as últimas consequências pela duquesa Sarah Churchill (Rachel Weisz) e sua prima pobre, Abigail Masham (Emma Stone), que arquiteta um jogo de vingança com muita paciência e crueldade. Mas você julgaria Abigail? Por que Sarah nunca a ajudou?

Enfim, dizer que o filme não tem respeito pelos bastidores do Palácio de Buckingham foi um elogio, porque a ironia tão engraçada quanto devastadora reina absoluta do começo ao fim. Se você por acaso se emocionar terá vontade de rir imediatamente em cima disso. E vice-versa. Só vendo para entender (e sentir) o teor dessa farsa insana que encontra paralelos em outras três produções imortais da sétima arte. Em forma e conteúdo.

Dirigido com maestria e ferocidade pelo diabólico cineasta grego Yorgos Lanthimos (dos também esquisitaços e brilhantes O Lagosta e O Sacrifício do Cervo Sagrado), A Favorita não teria acontecido sem as influências de Barry Lyndon, Amadeus e A Malvada. É o roteiro do clássico estrelado por Bette Davis e Anne Baxter possuído pelos espíritos debochados das obras-primas de Stanley Kubrick e Milos Forman.

Emma Stone The Favourite

INFLUÊNCIAS QUE MOLDAM UM FILME ÚNICO

Sobre A Malvada, falo da base do roteiro, porque não é um filme de época como sempre rotulamos. Temos uma briga entre duas atrizes. Uma consagrada, outra iniciante. Só que a novata não é tão inocente quanto aparenta no início e traça um plano par destruir sua rival, enquanto sobre os degraus da fama em Hollywood. Mais ou menos como Sarah vs Abigail.

Barry Lyndon sim é o tal filme de época, que ensaiou a avacalhação contra suas tradições. Mas com extrema elegância. Foi a primeira vez que vi um filme oficialmente tido como drama de época tirar sarro dos bastidores de um cenário que costuma ser tratado com classe. Com a pompa de uma cinebiografia, mas contando a ascensão e a queda de um personagem fictício desprezível que finge ser bonzinho. Como Abigail e Sarah, em A Favorita, Barry não se vê como vilão. Ele pensa realmente que merece o status que faz de tudo para alcançar. Já em Amadeus, Milos Forman certamente ama o filme de Kubrick, porém foi muito mais extrovertido ao colocar para fora toda a ironia reprimida em Barry Lyndon. Foi uma evolução natural, mas em uma biografia legítima, embora contada de maneira tão livre quanto escrachada. Tanto que alguns críticos reconheceram o filme de Forman como “Mozart para roqueiros”. E penso que A Favorita é o capítulo seguinte, pois bebe da contracultura de Amadeus e do cinema em geral de Milos Forman.

Em Amadeus, a inveja de Salieri e suas investidas contra Mozart não trouxeram exatamente a glória que ele imaginou, mas decadence avec elegance, uma vida longa como artista fadado ao esquecimento e escravo dessa realidade até o dia de sua morte. A Favorita troca a arte pela servitude, mas a inspiração é a mesma. O prêmio para o jogo de gato e rato entre Abigail e Sarah não pode ser o sucesso que as duas imaginam.

A CÂMERA VICIADA EM SUAS ATRIZES

Tecnicamente, A Favorita também honra Barry Lyndon e Amadeus, filmes que não se repetiram nesse aspecto, mas que exercitaram olhares criativos e fugiram do padrão. A Favorita também aposta em luz natural, como Barry Lyndon, mas é inquieto ao buscar novos ângulos para ilustrar o passado. A impecável direção de Yorgos Lanthimos não se aplica somente ao excepcional trio de atrizes principais nem apenas à condução de uma história incomum dentro do que é visto como comum. Mas em como observa os exageros contidos por pessoas que insistem em estar acima de tudo e todos, com muita classe, claro, para dar o exemplo ao povo. Quando, na verdade, estão em ponto de ebulição. E isso está representado sim nas atuações explosivas de Olivia Colman, Rachel Weisz e Emma Stone, mas também no excesso de closes, na centralização da imagem e na curiosa utilização do olho de peixe. Tudo isso para subverter regras e demonstrar um vício incurável pelas estrelas do filme e ilustrar o que se passa em suas mentes.

Só que Olivia, Rachel e Emma precisaram abraçar essa loucura e o palácio em forma de prisão para A Favorita dar certo. Elas mandam, homens podem até tentar, mas obedecem. Cada cena em que elas aparecem é um convite para o espectador ver algo que não estava esperando. O imprevisível move cada olhar, palavra, gesto ou respiração dessas atrizes que ajudam a moldar o filme perfeito. Se o mundo fosse justo, dariam todos os prêmios às três no ápice de suas carreiras.

Influências auxiliam na construção dos filmes, mas somente os melhores saem dessa mistura marcados por seus caráteres únicos. E ninguém precisa ver Barry Lyndon ou Amadeus para entender que A Favorita é, assim, como seus antecessores, uma obra-prima.

VEJA O TRAILER:

A Favorita (The Favourite, 2018)
Direção: Yorgos Lanthimos
Roteiro: Deborah Davis e Tony McNamara
Elenco: Olivia Colman, Rachel Weisz, Emma Stone, Nicholas Hoult, Joe Alwyn, Mark Gatiss e James Smith
Duração: 1h59
Distribuição: Fox

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