Green Book | Peter Farrelly troca a grosseria pela finesse

Otavio Almeida 24 de janeiro de 2019 2
Green Book | Peter Farrelly troca a grosseria pela finesse

Green Book (2018) é o primeiro filme, vamos dizer assim, sério do diretor Peter Farrelly. Sim, a outra metade dos Irmãos Farrelly (Bobby não dirigiu, mas apoiou o projeto do início ao fim). Você pode acusar a produção de ser à moda antiga ou de entrar para a lista daqueles tradicionais filmes de Oscar, certinhos, mainstream, by the book, que Hollywood faz de montão, mas que surgem com muita força, no mínimo, uma vez por década, como Kramer vs Kramer, Conduzindo Miss Daisy, Rain Man e Uma Mente Brilhante. Mas não pode acusar Green Book de má intenção. Peter Farrelly cometeu erros grotescos nos bastidores de outros filmes e o roteirista Nick Vallelonga falou merda no Twitter, mas conseguiram sentar, discutir e executar um filme que, queira você ou não, será lembrado por muito tempo. Não contratem mais os dois se não quiserem. Mas, agora, Green Book está aí e precisamos lidar com ele.

É o primeiro drama de Peter, embora tenhas seus momentos de humor, claro. Mas, no fundo, segue a cartilha dos filmes dos Irmãos Farrelly. Sai a comédia, entra o drama; sai a grosseria para dar lugar à finesse. Mas é a velha história de amizade entre homens num road movie (Debi & Loide, Kingpin) em que a jornada evolui seus protagonistas como seres humanos. E isso também está inserido de alguma forma em Quem Vai Ficar com Mary?.

Porém, destaco um ponto que poucos observaram, porque não dá para exigir que um autor entre em conflito com suas convicções por mais que elas sejam de gosto duvidoso: em Green Book, pode parecer que não, mas acredito que a finesse em um tema abordado em um período e cenário tão contundentes seja a grosseria habitual de Peter Farrelly, diretor que não esconde a verdadeira natureza humana, mas que acredita em sua superação. Explico melhor abaixo.

A VINGANÇA DOS IRMÃOS FARRELLY

Sei que o filme é acusado de amenizar os fatos. Mas é Hollywood sendo Hollywood e é mais ou menos assim: Tony Lip (Viggo Mortensen) é um leão de chácara bruto, grosso, descendente de italianos, falastrão e racista. Ou seja, começando por ele, temos Peter Farrelly, como sempre, cultivando estereótipos. Com a grana curta, ele aceita trabalhar como motorista (e segurança) de um pianista de jazz, ninguém menos que o Dr. Don Shirley (Mahershala Ali), durante dois meses na estrada para cumprir a agenda de uma turnê do músico pelo sul dos Estados Unidos, o território mais preconceituoso de um país que estava pegando fogo. E ainda pega. Juntos, eles seguem um guia tão absurdo quanto verídico, o tal Green Book, um livro que mostra os hotéis e locais que negros podem frequentar. Em resumo, a viagem não foi nada fácil, mas deve ter sido muito, muito mais dura na vida real. E essa passagem de pano em nome do buddy movie é 100% discutível, assim como a ousadia de jogar na cara que todos são preconceituosos (negros e brancos), mas, até aqui, nenhuma surpresa quando se trata de um filme dos irmãos Farrelly. A armadilha que Peter preparou e capturou muita gente é que, desta vez, ele trocou a comédia pelo drama e convidou você não somente para se divertir, mas para amar seu filme. Talvez até a chorar por causa dele. E essa foi a vingança dos Farrelly contra seus maiores detratores, a patrulha do politicamente correto. Ao invés de ódio, responderam com amor.

Eu jamais poderia me colocar no lugar de um espectador negro. Nem teria essa pretensão. Portanto, qualquer reclamação em torno de Green Book não pode ser menosprezada e deve ser respeitada. Fora que ninguém vê arte com os mesmos olhos de outra pessoa. Mas encaro Green Book como uma tentativa de Peter Farrelly em dizer o que sempre quis dizer no final de seus filmes, porém com um discurso mais polido.

Green Book__

DOIS ATORES NO ÁPICE DE SUAS CARREIRAS

Tony e Shirley dizem coisas terríveis um ao outro, mas Farrelly passa um verniz dramático que só contadores de histórias acostumados com comédias sabem dosar. Tudo para, no final, eles se completarem. Ou seja, Farrelly não trai seu cinema e a transição consegue a proeza de ser sutil. Querendo ou não, enganou muitas pessoas e ainda ganhou prêmios por isso. Claro que ajuda muito contar com um roteiro muito bem escrito pelo próprio Farrelly, além de Brian Currie e Nick Vallelonga (filho de Tony), e, mais que tudo, atores no topo de suas capacidades artísticas.

Concorde ou não com o cinema dos Farrelly, seja em comédia ou drama, eles nunca tiveram uma dupla tão competente de porta-vozes, como Viggo Mortensen e Mahershala Ali, a inesperada dupla perfeita, o Odd Couple de 2018/2019.

Vi Mortensen em filmes antes de O Senhor dos Anéis, mas a trilogia de Peter Jackson marcou sua virada. Não em fama necessariamente, porque Mortensen nunca quis ser reconhecido somente como Aragorn, mesmo que sua atuação seja incrível. E é um dos poucos nomes em Hollywood que conseguiram se livrar da sina de um só papel após a incursão por um gigante da cultura pop. É um ator de verdade e preocupado em construir essa imagem. Já vimos outros grandes momentos de Mortensen em Senhores do Crime e Capitão Fantástico, mas em Green Book você esquece que está vendo Viggo Mortensen. Tony Lip (ou Vallelonga) tem postura de mafioso, machão clichê, mas é da massa e tem coração mole. Parece conter emoções, mas não esconde que sempre coloca tudo para fora. Acredito que seja seu trabalho mais genial como ator e um dos melhores profissionais da categoria em atividade para ficar ao lado de grandes como Al Pacino, Jack Nicholson, Denzel Washington ou Dustin Hoffman.

Já Mahershala Ali, que ganhou um Oscar por Moonlight, deve repetir a dose merecidamente com Green Book. Seu Dr. Shirley é o oposto de Tony (e o contraponto para a atuação de Viggo). Introvertido, reprimido, por motivos óbvios e compreensíveis, que prefere falar através de sua arte. A cena perto do final em que ele se solta no piano do bar é a purificação de sua alma. E Mahershala entrega. Ainda tem muito par fazer em Hollywood, mas é desde já um dos grandes como Al Pacino, Jack Nicholson, Denzel Washington ou Dustin Hoffman.

VEJA O TRAILER:

Green Book: O Guia (Green Book, 2018)
Direção: Peter Farrelly
Roteiro: Peter Farrelly, Brian Currie e Nick Vallelonga
Elenco: Viggo Mortensen, Mahershala Ali, Linda Cardellini
Duração: 2h10
Distribuição: Diamond Films

2 Comentários »

  1. Kamila Azevedo 27 de janeiro de 2019 às 9:49 AM -

    Assisti ontem a “Green Book: O Guia”. O filme faz rir, emociona, causa uma empatia enorme com a gente. Gostei da progressão da história e da dinâmica entre os dois personagens centrais. Entretanto, achei muito barulho por nada. Não sei se o que “Green Book” apresenta é o suficiente para ser considerado como o favorito para o Oscar de Melhor Filme. Dentro da filmografia de Peter Farrelly, com certeza, vai se destacar como um dos pontos altos da carreira dele, sem dúvida!

  2. Otávio Almeida 28 de janeiro de 2019 às 4:11 PM -

    Acho que teria muito mais força na temporada de prêmios nos anos 80, 90 ou, até mesmo, na década passada.

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