Homem-Aranha no Aranhaverso | Crítica

Otavio Almeida 14 de janeiro de 2019 1
Homem-Aranha no Aranhaverso | Crítica

Todo mundo ama o Homem-Aranha e qualquer um pode usar a máscara

Por Otávio Almeida

Nada de fase emo, dancinhas ridículas ou tramas esquecíveis após duas horas no cinema. Homem-Aranha no Aranhaverso (Spider-Man: Into the Spider-Verse, 2018) é uma explosão de criatividade em todos os quesitos para quem achava que filme de super-herói já esgotou uma fórmula que dizem existir por aí, mas que nem sei qual é. Ah, sim, esse é o melhor filme solo do herói em 15 anos. Pois é, faz tanto tempo assim que Sam Raimi entregou Homem-Aranha 2.

Bom, Aranhaverso é uma animação, certo? Mas fora das características visuais que Pixar, Disney Animation Studios e DreamWorks padronizaram e acostumaram o mundo inteiro. Mistura com maestria animação tradicional, digital, 3D e o escambau. Mais que isso: traduzindo a linguagem dos quadrinhos para a tela de maneira revolucionária, visceral, porém orgânica, sem jamais distrair o espectador da história para a perfumaria exalada pelo formato. Algo que Zack Snyder tentou, mas não conseguiu em 300 e Watchmen, assim como Warren Beaty em Dick Tracy e Ang Lee em Hulk. Mas você só vai acreditar em mim quando assistir a Homem-Aranha no Aranhaverso e seus rabiscos tomando forma, cores e movimento. Como gerações acreditaram nos próprios olhos quando viram Steamboat Willie, Branca de Neve e os Sete AnõesFantasia,  AkiraToy Story.

É o tradicional filme de origem virado do avesso. Como diz o título, Homem-Aranha no Aranhaverso tem um roteiro loucão que aposta na abertura de infinitas possibilidades, com dimensões ou realidades paralelas, colidindo na reunião improvável de diferentes versões do Amigo da Vizinhança. Para embarcar e acreditar nessa viagem, que fica cada vez mais brisada, graças principalmente às cabeças piradas de Phil Lord e Chris Miller, o filme confia em duas certezas básicas que sempre foram reais, mas tem gente que não enxerga: todo mundo ama o Homem-Aranha e qualquer um pode usar a máscara.

Não importa cor da pele, classe social, nacionalidade, forma física, idade, gênero ou orientação sexual, o Homem-Aranha do novo século abraça diversidade e representatividade, que sempre estiveram enraizadas no conceito de Stan Lee sobre seus super-heróis: ser diferente é normal e legal demais.

Aranhaverso2

Homem-Aranha no Aranhaverso é uma homenagem sem precedentes ao personagem em diversas mídias e segmentos, afinal não esquece das piadinhas e referências ao merchandising. Inclui ainda referências que devem ser degustadas com moderação, assim como reverências a Stan Lee e Steve Ditko, os criadores do herói. E a presença dessa animação no cenário pop é merecidamente tão forte que a Sony (em associação com a Marvel) não somente abriu portas para uma nova franquia com inegável apelo popular, mas também colocou pressão para cima da concorrência (Pixar, DreamWorks) e dos próprios filmes do Homem-Aranha pela Marvel Studios.

É dirigido por Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman, mas quero ressaltar a importância criativa de Phil Lord e Chris Miller, jovens talentos de Tá Chovendo Hamburguer, Anjos da Lei e Uma Aventura Lego, que tentam levar frescor a qualquer coisa que assinam. Arriscaram também em Han Solo: Uma História Star Wars, mas foram demitidos pela Lucasfilm, porque foram ousadinhos demais. O filme acabou esquecido após uma direção burocrática de Ron Howard em nome da amizade com a presidente do estúdio, Kathleen Kennedy, enquanto Homem-Aranha no Aranhaverso apenas começou sua jornada no imaginário coletivo e nos corações de quem adora o Aranha, quadrinhos, filmes e cultura pop em geral. Essa é a doce vingança da dupla.

Para terminar, uma reflexão com spoiler (pare aqui se você não viu o filme).

Ok, lá vou eu: para mim, o Homem-Aranha clássico de Peter Parker é o que visita Miles Morales depois da cena mais dramática do filme. Mais velho, barrigudo, com a barba por fazer, mas sempre Peter Parker. Ou seja, ele segue a vida, mas em outra dimensão, porque a realidade de Miles que acompanhamos durante todo o filme não é a que estamos acostumados desde que fomos apresentados ao Homem-Aranha nos quadrinhos, cinema, games ou desenhos da TV. E tenho duas observações simples para mostrar que essa teoria pode ser levada em consideração: o Peter Parker da dimensão de Miles é loiro e Octopus é uma mulher. Mind-blowing.

VEJA O TRAILER:

Homem-Aranha no Aranhaverso (Spider-Man: Into the Spider-Verse, 2018)
Direção: Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman
Roteiro: Phil Lord e Rodney Rothman
Com as vozes de Shameik Moore, Jake Johnson, Hailee Steinfeld, Mahershala Ali, Brian Tyree Henry, Lily Tomlin, Nicolas Cage, John Mulaney, Kathryn Hahn, Live Schreiber e Chris Pine
Duração: 1h57
Distribuição: Sony

One Comment »

  1. Ariel Lucca 14 de janeiro de 2019 às 8:40 PM -

    “Como uma geração acreditou nos próprios olhos quando viu Fantasia, enquanto a posterior ficou de queixo caído com Akira e, mais tarde, Toy Story.”

    Isso sim é colocar o filme num grande patamar!

    Gosto muito do trabalho do Phil Lord e Chris Miller em “Uma Aventura LEGO” e o Aranha é meu favorito da Marvel. Espero gostar do filme também.

    Abraços!

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