O Globo de Ouro não é mais a grande prévia do Oscar

Otavio Almeida 7 de janeiro de 2019 5
O Globo de Ouro não é mais a grande prévia do Oscar

Ainda questionando o resultado do Globo de Ouro? Ou ficou feliz com “o filme do Queen”? Calma, porque o prêmio da Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood não é mais “a maior prévia do Oscar” como adoravam rotular. Na verdade, faz tempo que não é. Você quer fazer suas apostas? Então saiba que o bicho começa a pegar mesmo a partir deste domingo, quando rola o Critics Choice Awards.

Vamos voltar um pouco. Por um bom tempo, durante a era analógica e o início da popularização das redes sociais, o Globo de Ouro era considerado como o segundo maior prêmio do cinema (o Oscar sempre foi o 1º) e da TV (perdendo só para o Emmy). Mas com a velocidade da informação e a consolidação do Critics’ Choice Awards e do SAG Awards dentro da indústria ao longo de cerca de 25 anos de existência, o Globo de Ouro se esforçou para não ser levado à sério e até mesmo ganhar status de piada ao valorizar cada vez mais a noite da festa como um show apelativo para arrebatar audiências de todo o planeta. Afinal, fatores como a concorrência de diversas mídias e premiações, além da disputa insana pela atenção do público e a tentativa de se manter relevante levaram à banalização. E números comprovam que a estratégia não tem sido bem feita, pois de acordo com um levantamento inicial da Variety, a transmissão conseguiu 12,7 pontos de audiência nos Estados Unidos; uma queda de 5% em comparação aos 13,3 pontos em 2018. Então, calma, não é preciso gastar tanta energia assim com esse prêmio se você desaprovou mais uma vez a lista de vencedores.

Isso não quer dizer que o Globo só dê bola fora. Sair antes dos resultados dos prêmios dos sindicatos, Critics’ Choice, Bafta e, óbvio, o Oscar é um ponto importante que deveria ser mais bem planejado e valorizado pela organização, pois o Globo de Ouro teria tudo para enriquecer em autenticidade; concorde você ou não com suas escolhas. Ou será que alguém imagina “Bohemian Rhapsody” ganhando o Oscar de Melhor Filme? Lembram quando “Avatar” foi o principal vencedor em um ano que “Guerra ao Terror”, o grande vencedor das outras premiações, sequer foi indicado a Melhor Filme? O Globo de Ouro deu essa mesma estatueta a “Babel”, “Três Anúncios para um Crime”, “Boyhood” e “Brokeback Mountain”, filmes derrotados no Oscar. Como você pode ver, o Globo de Ouro não tem muito como ser influenciado, um problema que assola seus concorrentes. O que a premiação precisa é repensar tanto seu formato quanto sua relevância.

E como ficam agora as previsões para o maior prêmio do cinema hollywoodiano com os vencedores do Globo de Ouro 2019 revelados? Não muda muita coisa. Como nos últimos anos, o cenário do Oscar começa realmente a ser desenhado após o Critics’ Choice Awards (13 de janeiro) e o SAG (27 de janeiro).

É claro que saímos do zero e algumas polarizações foram estabelecidas, como Glenn Close (A Esposa) vs Olivia Colman (A Favorita) em Melhor Atriz, com Lady Gaga (Nasce uma Estrela) correndo por fora, e Rami Malek (Bohemian Rhapsody) vs Christian Bale (Vice) em Melhor Ator, mas seguidos de perto por Bradley Cooper (Nasce uma Estrela) e Viggo Mortensen (Green Book).

Aliás, “Green Book” o filme “sério” de Peter Farrelly (“Debi & Loide”, “Quem Vai Ficar com Mary?”) parece ser aquele tradicional filme de Oscar, como “Conduzindo Miss Daisy” e “Rain Man”, que fisga a Academia de tempos em tempos (e não estou falando mal). Com ou sem Globo de Ouro, “Green Book” entraria forte no Oscar, com provavelmente “A Favorita”, de Yorgos Lanthimos, liderando as indicações. Mas, para mim, neste momento, “Green Book” é o filme a ser batido. Da mesma forma que Alfonso Cuarón e “Roma” em Melhor Diretor e Melhor Filme Estrangeiro respectivamente. É curioso constatar que, em um mundo em constante evolução, a Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood ainda não permita filmes de língua não inglesa indicados na categoria principal quando entram em Melhor Filme Estrangeiro. Mas essa é uma outra discussão.

Outro que confirmou seu favoritismo foi “Homem-Aranha no Aranhaverso” em Melhor Animação, embora eu ainda queira ver para crer sua indicação ao Oscar, até porque a dupla Phil Lord e Chris Miller foi excluída da festa há alguns anos com “Uma Aventura Lego”, quando 90% das previsões davam como certa sua presença. Mas foi uma vitória e tanto para Lord e Miller, demitidos de “Han Solo: Uma História Star Wars” em 2018, mas que entraram em 2019 ganhando o Globo de Ouro e, provavelmente, o Oscar. Mais que isso, pela Sony, desbancaram não uma, mas duas sequências da Disney (dona da Lucasfilm) indicadas na categoria, “Os Incríveis 2” e “WiFi Ralph”, o que dá a esse Globo de Ouro um gostinho todo especial.

Porém, não existe Oscar mais certo que o de Melhor Canção para “Shallow”, de “Nasce uma Estrela”, ironicamente o filme mais derrotado da noite. Tudo bem que “Vice” tinha mais indicações, só que levou a estatueta de Melhor Ator, que tem um peso muito maior que o de Melhor Canção, correto? Mesmo assim, nada que mude o quadro quanto às indicações, porque “Nasce uma Estrela” (em filme), Bradley Cooper (como ator e diretor) e Lady Gaga (como atriz) estarão no Oscar.

Voltando a “Bohemian Rhapsody”, pode ser sim que o filme esteja no Oscar em várias categorias, além da indicação de Rami Malek como Melhor Ator. É um filme amado até por aqueles que torceram o nariz e isso também faz parte do papel da arte, pois transcende explicações e a catarse muitas vezes fala mais alto que o senso crítico. Mas “Bohemian Rhapsody” é um case. Todos aqui sabem que o diretor Bryan Singer foi demitido poucas semanas antes do fim das filmagens e isso é algo que costuma decretar a morte de um longa, como aconteceu com muitos outros, incluindo o recente e já citado “Han Solo”. Ausente da festa, e com acusações de assédio e pedofilia nas costas, Singer não recebeu agradecimentos dos vencedores por “Bohemian Rhapsody”, inclusive de seu grande desafeto nas filmagens, Rami Malek. Mas o filme foi mais longe que o esperado devido ao amor e aos esforços dos demais envolvidos. Ou seja, um trabalho colaborativo como deve ser. O que me faz lembrar dos primórdios de Hollywood, quando os grandes nomes por trás dos filmes eram os produtores e não os diretores. Portanto, podemos afirmar que “Bohemian Rhapsody” foi um resultado recente que seguiu esse mandamento.

Quanto aos coadjuvantes premiados no Globo de Ouro, Mahershala Ali (Green Book) e Regina King (If Beale Street Could Talk) precisam confirmar seus favoritismos nos próximos prêmios para chegarem ao Oscar com tal status. Assim como Justin Hurwitz, vencedor do Globo de Ouro de Melhor Trilha Sonora, a melhor coisa de “O Primeiro Homem”.

O jogo continua neste domingo. Mas quanto ao Globo de Ouro, o primeiro passo para corrigir erros é detectá-los. Qualquer crítica pode ser corrigida no ano que vem, incluindo as piadas sem inspiração dos apresentadores e a longa e eterna duração da festa. É um prêmio que não chegou até aqui após 76 anos sem construir uma história de respeito. Basta entender que passou da hora de virar a página e evoluir para valer.

5 Comentários »

  1. Vinícius 7 de janeiro de 2019 às 7:43 PM -

    Ver um Farrelly premiado me deixa muito, muito feliz, Otávio. Melhor coisa da noite.

  2. Otavio Almeida 8 de janeiro de 2019 às 12:03 PM -

    Sempre foram gênios. A gente já sabia disso e estão entendendo somente agora. Abs

  3. Paulo Ricardo 8 de janeiro de 2019 às 12:37 PM -

    “Bohemian Rhaspody” melhor filme Drama foi demais…até pq nas regras malucas do Globo de Ouro esse filme e “Nasce Uma Estrela” ficariam relegados a Comédia/Musical.Melhor filme drama pra mim é “Roma”,mas a associação de imprensa estrangeira não pode nomear um filme estrangeiro na categoria filme drama.Vai entender…

  4. Otavio Almeida 8 de janeiro de 2019 às 1:41 PM -

    Pois é. Como fã do Queen, “Bohemian Rhapsody” me divertiu e emocionou muito. Mas sei que é um filme cheio de falhas, embora Rami Malek saia ileso e soberano com todos os méritos.

    Para mim, fica difícil dizer algo quando ainda não vi todos os indicados. Mas posso afirmar que “Nasce uma Estrela” é um filme superior, assim como “Pantera Negra”.

  5. Otavio Almeida 8 de janeiro de 2019 às 1:42 PM -

    Mas, estranhamente, afirmo que “Bohemian Rhapsody” será lembrado em 20 anos, assim como os filmes que citei acima. Estranho, não? Mas uma obra pode se tornar eterna quando acerta o público em cheio. Também é uma das propostas da arte.

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