Velvet Buzzsaw | Quando a arte não é trash. É lixo mesmo.

Otavio Almeida 6 de fevereiro de 2019 4
Velvet Buzzsaw | Quando a arte não é trash. É lixo mesmo.

Tem certeza que Dan Gilroy é um diretor para ficar de olho? Não sou da turma que acha O Abutre uma maravilha, embora considere um bom filme principalmente pela atuação de Jake Gyllenhaal e o trabalho do diretor de fotografia Robert Elswit. Seu trabalho seguinte, Roman J. Israel, tem um Denzel Washington pegando fogo, mas que não consegue incendiar um filme bem morno. Por isso, o resultado final de Velvet Buzzsaw (2019) não me surpreende.

Gilroy parece aquele cara que finge entender de tudo para entrar numa discussão, mas não demoramos muito para perceber que ele apenas… finge. Porém é democrático. Retrata os segmentos abordados em O Abutre e Roman J. Israel com a mesma superficialidade que expõe, satiriza e critica os bastidores das galerias de artes em Los Angeles em seu pior filme.

Quero dizer, ele começa com essa proposta e com a câmera ocupada em dividir espaço entre diversos atores desfilando em meio a vernissages. O que me levou a cometer o ledo engano inicial de pensar que Dan Gilroy tentaria andar nas pegadas de um diretor como Robert Altman, que sabia perfeitamente como aproveitar um elenco grandioso e transitar entre gêneros em nome da sátira.

Mas não Dan Gilroy, que logo admite sua verdadeira intenção. Ele insinua que arte, vícios e prepotência absorvem, consomem e podem matar. Mas isso fica subentendido logo nos minutos iniciais quando acompanhamos diversos personagens inescrupulosos erguendo esse circo e fazendo o capital girar de preferência para dentro de seus bolsos. Velvet Buzzsaw pensa que provoca, mas é vazio, pois Gilroy desligou de vez o senso do ridículo, afinal não dá para provocar com piadinha ultrapassada de lixo confundido com arte, como numa cena patética entre John Malkovich e Tom Sturridge.  Enfim, mesmo equivocado, o filme não precisava de sua outra metade ainda mais desastrosa.

Acima de tudo, Velvet Buzzsaw quer ser um filme de horror gore (juro!), mas com ótimos atores caros e (novamente) a fotografia fina do lorde Robert Elswit, vencedor do Oscar por Sangue Negro. Ou seja, vamos admitir que dificilmente é possível juntar esses mundos e uma produção com um budget generoso não pode escancarar soluções criativas de filme B. Pode usar influências, como Quentin Tarantino, mas nunca fazer de conta que a situação é limitada. Já que meteram sangue e escatologia no meio de Velvet Buzzsaw, faltou caprichar no clima. Terror também é arte, mas desta vez não combinou.

Enfim, os 2 filmes em 1 não conversam entre si, Dan Gilroy falha miseravelmente em ambos e na intenção de uni-los. Também não rolou casar trilhazinha de comédia com podreira. Sem falar na opção de vez em quando por uma estética envelhecida e bastante comum na TV americana do século passado, incluindo uma abertura mais com cara de sitcom que filme antigo.

Também não sei se Gilroy queria arrancar risadas da gente com um tipo de terror que costuma apostar nisso. Só que nem temos direito a esse prazer, pois a incompatibilidade entre os diferentes estilos acaba deslocando o espectador e sua atenção para fora do filme diversas vezes.

Não é culpa nossa, porque é perfeitamente normal mostrar interesse num filme como esse. Gilroy volta a dirigir Jake Gyllenhaal, que vive um crítico de arte obviamente temido e afetado (certo, Hollywood?), mas o ator divide seu tempo em cena irmãmente com Rene Russo, que também estava em O Abutre, Toni Collette, Tom Sturridge, Natalia Dyer e um pobre John Malkovich desperdiçado, mas que precisa pagar contas. Gyllenhaal é de longe o grande destaque com seu personagem que alterna muito bem entre a simpatia e a repulsa. Gosto também de Natalia Dyer, de Stranger Things, como uma assistente lidando com uma curiosa maldição pessoal, que poderia ser melhor explorada. Em resumo, Gilroy não acerta nem o roteiro, que parece representar sua verdadeira vocação, assim como a de seu irmão, Tony. Conclusões que vem à mente graças ao tempo, o maior de todos os críticos.

Mas não preciso esperar muito para garantir que Velvet Buzzsaw é tão ruim que será lembrado como o filme em que Jake Gyllenhaal deixou o notebook em cima do saco.

VEJA O TRAILER:

Velvet Buzzsaw (2019)
Direção e roteiro: Dan Gilroy
Elenco: Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Zawe Ashton, Toni Collette, Daveed Diggs, John Malkovich, Natalia Dyer, Tom Sturridge
Duração: 1h42
Distribuição: Netflix

4 Comentários »

  1. Fábio Rocket bach 7 de fevereiro de 2019 às 7:39 AM -

    Aí, passei meia aula analisando opções de som, mise-en-scene, enquadramento e profundidsde de campo como elementos narrativos no Abutre. É um filmaço. Mas esse eu nem me inspiro a ver, não sei porquê.

  2. Otavio Almeida 7 de fevereiro de 2019 às 10:27 AM -

    Bom, meu amigo, acho que boa parte do que você disse aí é mérito de Robert Elswit, exímio diretor de fotografia. É claro que nossos olhos brilham para o diretor quando notamos soluções visuais, narrativas e técnicas se encontrando em tamanha harmonia. Só que os filmes seguintes de Dan Gilroy provaram que o verdadeiro mestre é Robert Elswit. A vocação de Dan talvez seja o roteiro, assim como seu irmão Tony. O tempo é o maior crítico de todos.

  3. Kamila Azevedo 8 de fevereiro de 2019 às 8:26 AM -

    Não conhecia esse filme e, a julgar pela sua crítica, melhor continuar sem conhecer! rsrsrs

  4. Otávio Almeida 12 de fevereiro de 2019 às 1:25 PM -

    Hahahaha… é tosco demais.

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