A guerra infinita que a Academia bancou

Otavio Almeida 27 de fevereiro de 2019 0
A guerra infinita que a Academia bancou

Não estou aqui para analisar Green Book, o mais novo vencedor do Oscar de Melhor Filme. Muito menos para falar sobre questões que não cabem a mim destrinchar, portanto fica aqui o respeito pelas opiniões contrárias ao longa de Peter Farrelly (foto) e tudo que ele representa (ou falha em representar) além do que vemos na tela. Nem quero bater na tecla do “impossível agradar todo mundo”. Combinado?

Pois bem, o ponto é que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas sabia que uma guerra estava se aproximando e, mesmo assim, resolveu comprá-la. Para muita gente explodir de raiva, bastava ganhar um único filme entre todos os oito indicados a Melhor Filme. E não deu outra. A internet, então, está em polvorosa. Não estou dizendo que eles foram pegos de surpresa. Se eu sabia, os votantes também sabiam da rejeição à Green Book.

Em um cenário ideal, acho que a Academia deveria fazer um esforço tremendo para prever os filmes capazes de influenciar essa e as próximas gerações dentro e fora das salas de cinema. Se é uma “Academia”, seus responsáveis deveriam ser especialistas, não? Escolhendo aqueles filmes que garantem com louvor e instantaneamente seus lugares na cultura e no imaginário coletivo; a arte inspirando nossas vidas pessoais e profissionais. Mas não é bem assim que funciona.

Por um lado, o Oscar mostrou mais uma vez que representa uma indústria conservadora. Sua renovação ao longo dos anos abriu portas para integrantes de mentes, digamos, mais esclarecidas ou avançadas. Só que ainda não é um número suficiente o bastante para derrubar a escrita de 91 anos premiando somente filmes de língua inglesa na categoria principal. De vez em quando, a Academia faz aquela média para manter a paz e o equilíbrio (Moonlight, Midnight Cowboy), mas imediatamente volta às suas origens abraçando o filme mais redondinho. Por outro lado, a Academia demonstra o quanto é fiel às suas preferências mesmo que costume remar contra o zeitgeist. Ao menos, o Oscar não engana ninguém e só se engana quem quer.

O problema é que somos todos sonhadores e é por isso que, ano após ano, cobramos o maior dos símbolos da temporada de prêmios e dispensamos o uso de equivalente poder de fogo para cima do Globo de Ouro, Critics Choice, entre outros prêmios. Da Academia, esperamos melhorias e a chance de caminhar juntos rumo a um futuro mais digno para todos, afinal é a marca mais forte e impactante. E nosso papel é importante, pois moldamos essa indústria, que atende aos nossos gostos entregando os filmes (comerciais) que queremos ver durante o ano. Portanto, na hora das premiações, torcemos por escolhas justas, porque somos mimados por Hollywood. Mas é justamente nesse momento que eles dão uma banana para o público e impõem o que, de fato, consideram como o Melhor Filme. E o recado é claro: o Oscar não é do povo. É da indústria. Eis o atrito que dura para sempre.

Mas a Academia sabe agora de sua obrigação em engolir as críticas por um bom tempo. E a voz do fã de Green Book foi momentaneamente silenciada. Menos por medo, mais pela compreensão de que o filme não merece uma defesa tão intensa que faça o desgaste com seus detratores valer a pena. Talvez nem seja uma discussão que possa enriquecer a troca de conhecimento sobre o filme e o cinema em geral. Mas a Academia tem um problema e a estrada para a festa do ano que vem se transformou numa panela de pressão desde já. O lado positivo é que o Oscar costuma ouvir muitos de seus clientes insatisfeitos nessa fase e considera a possibilidade um Brokeback Mountain derrotar um Crash da vida no ano seguinte. Mas é um ponto raro na composição de um ciclo que se repete. Não foi a primeira nem será a última vez. Portanto, bola para frente. Chegou a hora de desapegar da festa de 2019 e exigir um cinema superior até 2020.

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