Alita: Anjo de Combate | Crítica

Otavio Almeida 18 de fevereiro de 2019 1
Alita: Anjo de Combate | Crítica

Alita reafirmou seu lugar na cultura pop, mas o filme bateu na trave

Por Otávio Almeida

Após duas décadas existindo como filme apenas na cabeça de James Cameron, o mangá cyberpunk Alita: Anjo de Combate (Alita: Battle Angel, 2019), de Yukito Kishiro, finalmente ganhou a adaptação hollywoodiana que o diretor visionário tanto sonhou. Mesmo assim, Robert Rodriguez ofereceu ajuda e pediu ao cineasta para não arquivar o projeto pela milésima vez, afinal Cameron está mais preocupado com as sequências de Avatar. Pois bem, Cameron aceitou; produziu e escreveu o roteiro para Rodriguez dirigir. O resultado (ainda bem) tem muito mais a cara do cineasta de produções monumentais como Titanic, Avatar e O Exterminador do Futuro que a do diretor de filmes feitos sem um tostão como El Mariachi, Pequenos Espiões, Sharkboy e Lavagirl, Machete e Sin City. Ainda bem.

Além do mais, Rodriguez nunca escondeu que estava fazendo um filme de James Cameron; uma verdade que podemos vislumbrar na megalomania impressa da primeira à última cena. De Cameron podemos esperar um espetáculo em escala gigantesca que mantém o espectador preso e com uma execução mais empolgante que muitos blockbusters, incluindo dezenas de filmes da Marvel e DC, que dominam o cenário atual. E Alita entrega.

A premissa é básica, a trama soa familiar, mas o mérito de Cameron e Rodriguez como contadores de histórias é nunca deixar o filme esquecer como se envolve o espectador. Não fazem isso obviamente com o roteiro, que jamais foi o forte de Cameron, que adora diálogos ralos e bregas (I’d give you my heart?), nem somente com os efeitos digitais da turma de Peter Jackson, que são realmente impressionantes (a parte do Motorball é um espanto), nem apenas com as cenas de ação. Pausa aqui: elas começam tímidas demais, filmadas muito de perto, mas aos poucos tornam-se maiores e mais intensas, ganhando em qualidade quando lembram em certos momentos o James Cameron dos anos 80 e início dos 90, época em que usou e abusou da violência gráfica. E eu diria que Alita voa alto quando abraça mais a brutalidade inspirada em Cameron (e Paul Verhoeven, vai) que o tradicional blockbuster para toda a família. Quando atinge esse nível, Alita enche os olhos e nos perguntamos o que leva Hollywood engavetar outros roteiros e investir com mais voracidade em filmes de super-heróis. Pena que a indústria não coloque dinheiro hoje em filmes com a pegada vista em longas como RoboCop, O Vingador do Futuro e O Exterminador do Futuro. Mas OK.

Alita não tem só uma trama imersiva, os efeitos e a ação. Tudo isso ganha credibilidade devido ao carisma de Rosa Salazar como a personagem principal. Mesmo emprestando seus dotes físicos e artísticos para a gloriosa captura de movimento dar vida à adorável ciborgue, não há a menor dúvida que atores seguem necessários. Nós nos importamos com Alita; rimos e nos emocionamos com suas descobertas, ora felizes, ora dolorosas de um mundo que ela esqueceu e onde possui um papel definitivo que jamais imaginou.

Isso desde que o momento em que teve seus pedaços encontrados e reconstruídos por um cientista (Christoph Waltz finalmente encontrando um lugar para chamar de seu longe da aba de Tarantino).

Gosto como a zoiudinha Alita representa os nossos olhos, mas isso funciona porque acreditamos que a garota é real. E Rosa Salazar merece todo o reconhecimento, pois o filme é dela e o brilho é tanto que não importa se Jennifer Connelly e Mahershala Ali estão em segundo plano.

É por isso que digo que Alita renovou seu lugar cativo na cultura pop do século 21 com muito louvor. Porém, por mais que seja um espetáculo legítimo, a tentativa de entregar um filme à altura da personagem bateu na trave.

Alita Battle Angel

Você nota a ambição de Alita: Anjo de Combate em cada segundo. Mas também o quanto é apenas mais um e não um inventor da roda, como Jurassic Park, O Senhor dos Anéis, Avatar, Matrix e Star Wars, que determinaram tendências ou um antes e um depois para o cinema em diferentes aspectos. Do jeito que está, tenho certeza que Alita ditaria regras se tivesse saído há cerca de 15 ou 20 anos, exatamente quando James Cameron começou a idealizar a adaptação. Mas esse ainda é o menor dos problemas, porque existem filmes muito legais por aí, como Jogador Nº 1, por exemplo, que sozinhos representam diversões incríveis numa sala de cinema capazes de honrar o legado dos clássicos e não devem nada aos seus antecessores que marcaram viradas de páginas na história do cinema.

O maior problema de Alita está relacionado à recusa de uma verdade absoluta: menos é mais. E dou um exemplo mesmo dentro da megalomania habitual do cinema de James Cameron. Avatar terá várias sequências, como sabemos, mas o diretor fez do original em 2009 um filme certinho, fechado, completo. É gigantesco tanto na ambição quanto na execução, mas vai direto ao ponto. Como arrebentou nas bilheterias, Cameron teve o sinal verde que queria para continuar a saga. Se tivesse naufragado, goste ou não, Avatar continuaria sendo um filme único. Como George Lucas fez com o Star Wars de 1977, que deu certo e conhecemos bem o resto da história.

Em Alita, seria melhor se Cameron e Rodriguez tentassem abraçar menos o mundo e estabelecessem um propósito bem desenvolvido para a fase de renascimento da protagonista. Como espectadores, uma vez satisfeitos com o arco e o espetáculo completos, teríamos o direito de imaginar possíveis sequências, afinal a grandeza do universo de Yukito Kishiro permite isso. A exceção é quando um projeto é realizado numa tacada só, mas com suas datas de estreia divididas, como aconteceu com a trilogia O Senhor dos Anéis, De Volta para o Futuro II e III, Matrix Reloaded e Matrix Revolutions, Kill Bill I e II, além de Vingadores: Guerra Infinita e Vingadores: Ultimato.

Mas não é o caso de Alita que, até o ato final, não sabe exatamente com quem deve lutar. E a trama, digamos assim, parece ainda estar na metade quando rolam os créditos finais. O que me leva a concluir que o filme inteiro é equivocadamente incompleto e preocupado acima de tudo em preparar o público para as continuações. E isso é de uma irresponsabilidade absurda já que a decisão criativa depende do sucesso de bilheteria, além do fato de que a venda da Fox para a Disney deixa incerto um futuro para a franquia. Alita é bem melhor que Warcraft e John Carter, mas pode ter o mesmo triste fim. Uma pena, afinal Cameron é poderoso o bastante para peitar o estúdio, trabalhar com essa cautela e criar uma conclusão digna para uma personagem tão fantástica. Portanto, resta a torcida e um pedido: pessoas, por favor, vejam Alita: Anjo de Combate para que eu possa ganhar minha sequência.

Obs: Se confirmarem a continuação com James Cameron envolvido de alguma forma, eu volto aqui e dou mais uma estrela.

VEJA O TRAILER:

Alita: Anjo de Combate (Alita: Battle Angel, 2019)
Direção: Robert Rodriguez
Roteiro: James Cameron e Laeta Kalogridis
Elenco: Rosa Salazar, Christoph Waltz, Mahershala Ali, Jennifer Connelly, Ed Skrein, Eiza Gonzalez, Keean Johnson, Lana Condor, Jackie Earle Haley, Casper Van Dien, Derek Mears
Duração: 2h02
Distribuição: Fox

One Comment »

  1. Ariel Lucca 18 de fevereiro de 2019 às 10:12 PM -

    Adorei o filme! Foi uma experiência bem divertida e os personagens são bem carismáticos. Também quero continuação pois estão me devendo um final.

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