High Flying Bird | Crítica

Otavio Almeida 15 de fevereiro de 2019 0
High Flying Bird | Crítica

Steven Soderbergh arremessa e faz cesta de 3 pontos

Por Otávio Almeida

O cineasta Steven Soderbergh segue desdobrando novos capítulos de sua jornada experimental pela sétima arte iniciada com Sexo, Mentiras e Videotape. Enquanto a forma não for mais importante que o conteúdo, eu voto pela garantia de liberdade artística para Soderbergh. Além do mais, filmar com iPhone é uma maneira de inspirar jovens fãs de cinema a correrem atrás de seus sonhos. Ora, por que não? Afinal, isso não muda o fato de High Flying Bird (2019) ser um belo filme.

Se Soderbergh busca a ruptura de uma estética convencional (iPhone), assim como do ponto de vista dos negócios e os meios tradicionais de distribuição (Netflix), ele camufla seu olhar crítico, porém inovador, em relação à indústria cinematográfica para falar sobre esportes. No caso de High Flying Bird, o basquete americano dominado pela NBA. E, como ele deixa claro, as grandes marcas, incluindo as emissoras de TV que detêm os direitos de transmissão.

Bom, não sou um homem de negócios, mas acho que Soderbergh atira para todos os lados e acerta. Acredito ainda que é possível usar High Flying Bird como case para entender melhor como a sociedade capitalista negocia estrategicamente pelos bastidores, enquanto nós ficamos confortáveis na arquibancada ou na frente da televisão acompanhando os jogos. Ou consumindo qualquer outro produto cobiçado.

Nosso guia pelo circo é o agente de atletas novatos Ray Burke (André Holland, de Moonlight, dando seus primeiros passos para figurar entre os grandes atores). Durante um lockout de mais de 20 dias da NBA, ele luta por seus interesses, assim como os da empresa que o contratou e de seus próprios clientes, como o novato Erick Scott (Melvin Gregg). Poucos o ajudam nessa corrida contra o tempo para não perder o atleta, o emprego e ser engolido pelo sistema. Entre eles, um carismático treinador de jovens sonhadores (Bill Duke) e uma ex-assistente (Zazie Beetz, um estouro).

High Flying Bird_2

Mas não espere a pegada emocional de um Jerry Maguire, porque Soderbergh pretende entregar um filme de impecáveis diálogos hiperverbais 90% das vezes disparados em cenas internas. Teria cara de peça adaptada para o cinema (como O Sucesso a Qualquer Preço) se esse diretor com mais de 30 anos de carreira não pensasse em filmes acima de tudo com a vitalidade de um jovem promissor em Hollywood. Provas: a velocidade de uma locação para outra transmitindo “cheiros” e ambientações orgânicas e distintas de Nova York – seja quando Ray Burke caminha pensativo pelas ruas ao som do blues de Richie Havens que dá título ao filme ou quando ele para em algum lugar para tomar um café -; os enquadramentos, movimentos de câmera; toda a linguagem remete à sétima arte e não importa a lente que está sendo usada. É o estilo de Soderbergh impregnado em todos os frames, inclusive com um ritmo de filme de assalto.

Também não espere ver partidas de basquete (apenas uma delas tem uma breve introdução), porque o foco de High Flying Bird não é o esporte, mas os negócios e, neste ponto, temos o jogo dos bastidores. E, ei, estamos no lockout. Soderbergh também não quer dizer necessariamente que odeia a NBA ou que sonha acabar com ela. Mas com o excelente roteiro de Tarell Alvin McCraney (Moonlight) como aliado, o diretor discute racismo, forma de controle, capitalismo e opções que podem levar a uma divisão mais justa que beneficie os atletas. Ok, patrocinadores e redes de TV podem fazer vista grossa para o filme, mas estão cientes da ascensão meteórica do Facebook e os serviços de streaming, que já estão “roubando” boas fatias de seus produtos favoritos. Acontece que os jogadores talvez não tenham a noção exata do quanto são importantes dentro das engrenagens dessa máquina, assim como o torcedor ainda não compreendeu como pode mudar esse jogo escolhendo onde, e em que tela, quer ver as partidas. Eles são os alvos visíveis de Soderbergh.

Mas existem outros alvos com quem o cineasta pretende dialogar. Basta esquecer NBA e esporte e pensar em Hollywood e filmes. É a indireta de Soderbergh para convencer profissionais que trabalham nos filmes que eles deveriam escolher onde e como exibir seus filmes. Em cima disso, gosto particularmente de um ponto: fazer dinheiro e preservar o lado humano são dois corpos que não costumam compartilhar o mesmo espaço. Soderbergh discorda e tece seu plano para provar sua teoria ao mundo usando os olhos do personagem de André Holland. Por isso mesmo, soa estranho ver o cineasta abordando o racismo na indústria do esporte numa primeira impressão, mas quando sabemos que é um projeto colaborativo entre o diretor, o roteirista e o ator principal, a proposta se torna honesta até quando lança um bordão contra a escravidão. O que de certa forma tem tudo a ver com uma trama ousada o bastante tanto ao pregar que a NBA aprisiona os jogadores negros quanto em demonstrar soluções otimistas para o sistema; mesmo quando o inovador está cercado por abutres sobrevoando a carniça. No fim, você acreditará no plano de Steven Soderbergh. Ele não inventou a pólvora, mas trabalha aqui numa jogada muito mais moderna, consistente, relevante e convincente que vários outros dramas badalados que acabam na temporada de prêmios.

VEJA O TRAILER:

High Flying Bird (2019)
Direção: Steven Soderbergh
Roteiro: Tarell Alvin McCraney
Elenco: André Holland, Zazie Beetz, Melvin Gregg, Sonja Sohn, Zachary Quinto, Kyle MacLachlan, Bill Duke
Duração: 1h30
Distribuição: Netflix

Deixe seu comentário »