Se a Rua Beale Falasse | Crítica

Otavio Almeida 18 de fevereiro de 2019 0
Se a Rua Beale Falasse | Crítica

Barry Jenkins e sua poesia do amor contra o ódio

Por Otávio Almeida

O cinema poucas vezes neste século soube traduzir o amor em imagens tão belas que conseguiram deixar a palavra “brega” bem longe da minha cabeça. Terrence Malick tentou abraçar o sentimento de todas as formas em A Árvore da Vida e Amor Pleno, mas acertou no primeiro, enquanto falhou miseravelmente no segundo. E o quê mais? Meu cérebro quer resgatar Amor à Flor da Pele, de Wong Kar Wai, mas esse saiu em 2000 e envolve traição. Não falo de palavras, como Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças ou Ela, que são especialistas nesses quesitos, mas me refiro a imagens. E música. Tudo misturado e lindo de morrer. Como em Se a Rua Beale Falasse (If Beale Street Could Talk, 2018), filme seguinte de Barry Jenkins ao Oscar recebido por Moonlight. Pois vou polemizar e afirmar sem medo de ser feliz que ele se superou.

Adaptado do livro homônimo, Barry Jenkins faz por imagens e música o que o autor James Baldwin faz por palavras: pura poesia.

Mas há uma razão para o filme ser tão belo. Jenkins quer que o amor vença a dureza da realidade, os preconceitos e o racismo nojento que destroi sonhos. Como os do jovem casal Tish (a estreante KiKi Layne) e Fonny (Stephan James), que cresceram juntos e se apaixonaram nos anos dourados da juventude. Mas antes de entrarem na complexidade da vida adulta e em entre as quatro paredes que testam a força de qualquer relacionamento, ela engravida e Fonny é preso injustamente. A acusação é estupro, mas estamos falando de uma sentença decretada pela cor da pele. Se hoje seria missão impossível para um inocente sair da cadeia com esse peso nas costas, imagine para um homem negro em plena década de 70.

É natural pensar que, a partir deste ponto, Se a Rua Beale Falasse ganhará status de novelão, mas Barry Jenkins não quer saber de melodrama. Também não quer transformar a prisão de Fonny em justiça a qualquer preço ou fazer do personagem um mártir. O diretor e roteirista está interessado em contrastes, embora deixe clara sua intenção de preferir o amor ao discurso político e social, tarefa que cabe a quem assiste ao filme.

Para cada sorriso, uma lágrima. Para cada cena feliz, uma tristeza chega repentinamente para equilibrar o tom. O sonho cai e se machuca feio na realidade. Por exemplo, repare na cena em que os pais de Tish convidam a família de Fonny para o anúncio da gravidez da menina. A alegria logo dá lugar a um estressante desentendimento, carregado de mágoa, como uma reviravolta que acontece no meio de encontros casuais nas melhores famílias. Em outra cena, Fonny e um amigo dividem uma cervejinha (eu acho), mas o papo descontraído é substituído pela melancolia e o medo causado pelo racismo. Existem outras cenas que revelam essa dualidade, como a abertura do filme, com Tish e Fonny caminhando juntos para Barry Jenkins mostrá-los logo depois separados por um vidro, e também destaco a parte em que ambos procuram um apartamento e preenchem o vazio do cenário com uma mobília imaginária.

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Mas não pense que o choro sempre interrompe um sorriso, porque Barry Jenkins se recusa a abraçar a tragédia mesmo nos momentos mais difíceis para o casal. O cineasta nunca esconde a existência do ódio e a ameaça dos brancos racistas aos negros, mas também não é panfletário e coloca o amor acima de tudo. Quando não há mais esperança, ele tem a ousadia de entregar uma cena de parto natural, que representa um novo começo e é uma das coisas mais maravilhosas que eu vi no cinema recente. Onde Barry Jenkins e o diretor de fotografia James Laxton colocaram a maldita câmera nesta cena? Teria sido um truque de CGI e edição imperceptível como fez Alejandro González Iñárritu ao longo de Birdman? Não sei, não quero saber; viva a magia do cinema.

Jenkins ainda é jovem tem muito para dar à sétima arte. Mas ele está no controle de seu ofício em Se a Rua Beale Falasse. Só um diretor experiente deixaria a trama fluir  sem ruídos na narrativa ao entrelaçar seu filme com idas e vindas entre passado e presente. A montagem se confunde na linha temporal, mas se organiza facilmente na mente do espectador embriagado com tanta beleza. Mas não vejo a intenção de Barry Jenkins como contemplativa. Se a Rua Beale Falasse não se rende à fantasia nem à adoração de uma força maior na Terra. É um filme muito mais preocupado com uma celebração real do amor, como a sensação de andar nas nuvens e a vontade de sair correndo pelas ruas gritando o quanto amamos alguém. É lírico, mas não existencialista como o olhar de Terrence Malick. Sua sintonia profunda com a música belíssima de Nicholas Britell é o cinema dizendo que a vida tem trilha sonora. E é curioso que Jenkins abra o filme contando o elo do jazz e Louis Armstrong com a Rua Beale, em New Orleans, mas jamais mostre músicos exercendo suas profissões. Temos discos tocando e é só. É como se a música tocasse para valer apenas nas mentes de Tish e Fonny.

E é tudo muito honesto e intimista, porque temos personagens excessivamente em closes, olhando para dentro de nossos olhos. O racismo é real e você precisa ver que ele está lá. Mas também precisa ter esperança e se agarrar ao que faz você feliz.

Queria destacar ainda a bravura de Regina King, como a mãe de Tish, que coloca o amor pela filha acima de sua própria vida. Um sacrifício que compramos e não existe só na iluminada, colorida e jazzística Rua Beale de James Baldwin e, agora, de Barry Jenkins. A Rua Beale de todos nós.

VEJA O TRAILER:

Se a Rua Beale Falasse (If Beale Street Could Talk, 2018)
Direção e roteiro: Barry Jenkins
Elenco: KiKi Layne, Stephan James, Regina King, Colman Domingo, Teyonah Parris, Michael Beach, Ed Skrein, Finn Wittrock, Ebony Obsidian, Aunjanue Ellis, Diego Luna
Duração: 1h59
Distribuição: Sony

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