Vice | The Christian Bale Show

Otavio Almeida 4 de fevereiro de 2019 2
Vice | The Christian Bale Show

Cinema não precisa necessariamente assumir um compromisso com a realidade. O que importa é contar uma história que envolva o espectador de alguma forma, fazendo com que ele entre naquele mundo e saia apenas quando as luzes da sala acenderem. Não importa se a inspiração vem da vida real ou não. E, particularmente, gosto quando o cinema cria seu próprio mundo e não dá a mínima para os fatos nem se dá ao trabalho de investigar profundamente os detalhes do que aconteceu. Portanto, receber nos minutos iniciais um aviso debochado nos moldes do “não foi exatamente assim, mas nos esforçamos” fizeram com que Vice (2018) capturasse minha atenção e funcionasse como o convite para que eu embarcasse na brincadeira.

E o que se vê a seguir, jamais trai essa proposta, mesmo quando o filme se leva mais a sério do que deveria em alguns momentos (vou falar sobre isso adiante).

Bom, Vice fala sobre o infame Dick Cheney, provavelmente o vice-presidente norte americano mais poderoso da história. Dirigido e escrito por Adam McKay, em seu trabalho seguinte ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por A Grande Aposta, o filme é mais um capítulo da jornada do cineasta dissecando a sujeira jogada embaixo dos tapetes americanos. Em A Grande Aposta, olhou para os podres de Wall Street na época da crise econômica e, agora, a hora e a vez da era Dick Cheney e George W. Bush. Só um diretor especializado em comédias, gênero que marcou o início de sua carreira e que, mesmo escrachando o humor, já contava com uma visão para o lado obscuro da América, como mostrado em O Âncora, McKay sabe como transitar entre o humor e o drama com perfeição. Sabe jogar tudo no liquidificar e extrair molho que alterna entre o ácido e o amargo numa mesma garfada.

Isso está na própria concepção de Vice. Afinal, para quem esse filme foi feito? Democratas, republicanos, esquerda, direita, não importa. Se seu olhar para o filme foi estritamente político, você vai amar e odiar Vice em diferentes degustações até os créditos finais rolarem. Mas se sabe que isso é cinema e quer tirar sarro da política e de como todos nós somos responsáveis por quem chega ao poder, Vice é uma biografia que procura fugir do tradicional, olhando para o futuro da arte e feita mais para incomodar quem vota (e não vota) do que para retratar Cheney como um monstro.

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Segundo o filme, ele foi. Mas enquanto trabalhava. Como um Don Corleone, preocupado e amoroso com a família, mas direto, persuasivo e com o dor para liderar. Exercendo seu papel de americano de extrema direita para o povo, mas cedendo a atitudes de esquerda vez ou outra quando suas filhas e esposa precisam, sem que isso vaze para o mundo lá fora. E entendemos cada uma de suas reações, pois Adam McKay constroi um estudo de personagem bastante convincente desde suas bebedeiras na época da faculdade, passando pela entrada na Casa Branca na era Nixon e sua saída ao término da gestão Bush (filho). Isso passando pelos bastidores de sua vida pessoal, que tem em Lynne Cheney (a maravilhosa Amy Adams) a verdadeira voz que ergue, inspira e desenvolve Dick Cheney através dos anos.

Vice ainda tem a ousadia de afirmar o que todo mundo suspeitava: Dick Cheney manipulou todo o governo e usou como fantoche um inexperiente George W. Bush (numa caracterização imatura, porém notável de Sam Rockwell). McKay ainda usa de sua ironia para Cheney justificar e legitimar suas ações polêmicas pós-11 de setembro. É horrível e divertido ao mesmo tempo.

O FILME TENTA, CHEGA PERTO, MAS NÃO ALCANÇA A GENIALIDADE DE SEU ATOR

E é aqui onde eu queria chegar. Vice poderia manter do início ao fim sua veia cômica. McKay pode seguir os passos de Oliver Stone, mas seu coração tende para a comédia e ele não pode fugir disso nunca. Deveria fazer mais como ousou em um final falso lá pela metade, quebra de quarta parede na última cena, Steve Carell como Donald Rumsfeld ensaiando uma dancinha na Casa Branca, diálogos shakesperianos em determinado momento (é sério); coisas assim. Soube até que McKay deixou uma cena musical na sala de edição. Pena, porque Vice perde fôlego quando da metade para o final lida com um pouco mais de seriedade, afinal o protocolo assim exige quando tocamos no assunto 11 de setembro e, claro, isso é esperado em qualquer filme. Mas quando surpreende e quebra paradigmas, mesmo colocando o dedo na ferida, Vice brilha. Faltou esse tantinho para ficar registrado na história do cinema como um filme genial e para a eternidade.

Mas genial mesmo é Christian Bale. Muitos notaram seu talento tarde demais. Eu não. Sabia disso desde que ele era um menininho no estupendo Império do Sol, de Steven Spielberg. Mas, de fato, o ator encontra seu ápice como Dick Cheney. Engordou e suou debaixo de quilos de maquiagem para encarnar as motivações de Cheney, seu jeito de olhar, andar e falar praticamente em um tom só quando quer ser caridoso ou quando quer ser ameaçador. Bale é um gênio que Vice tentou acompanhar e não conseguiu. Mas chegou perto.

VEJA O TRAILER:

Vice (2018)
Direção e roteiro:
 Adam McKay
Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Steve Carell, Sam Rockwell, Jesse Plemons, Lily Rabe, Alison Pill
Duração: 2h12
Distribuição: Imagem Filmes

2 Comentários »

  1. Kamila Azevedo 6 de fevereiro de 2019 às 1:53 PM -

    Otavio, gostei muito de “Vice”. Gostei da linguagem adotada pelo Adam McKay, da ironia, da edição arrojada. Mas o show mesmo é de Christian Bale e de Amy Adams. Os dois estão sensacionais!

  2. Otavio Almeida 6 de fevereiro de 2019 às 3:21 PM -

    Sim, Amy Adams também. Será que o Oscar dela virá pelo conjunto da obra? Como Glenn Close em “A Esposa”?

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