A eterna luta de Spielberg contra o cinema em casa

Otavio Almeida 7 de março de 2019 0
A eterna luta de Spielberg contra o cinema em casa

Steven Spielberg, o nome mais poderoso da indústria, quer evitar novos filmes da Netflix concorrendo ao Oscar. Pelo menos, enquanto a plataforma de streaming não respeitar a janela de 90 dias entre a estreia no cinema e o lançamento em home vídeo, além dos títulos estarem disponíveis em 190 países, 24 horas por dia, sete dias por semana.

Todo mundo entende que Spielberg luta pela valorização da experiência cinematográfica, só que nem todos os cineastas conseguem um selo capaz de bancar e distribuir seus projetos. Sem falar que Roma teria fracassado se dependesse somente de sua exibição nos cinemas. Além disso, Martin Scorsese, amigo de Spielberg, lança O Irlandês este ano pela Netflix. Imaginem a treta! Enfim, não é qualquer coisa, mas também não devemos ignorar quando alguém como Steven Spielberg tem algo a dizer.

Sei que já falamos sobre isso aqui e essa discussão está apenas começando. Não gosto, no entanto, que falem besteira sobre a filmografia e a importância de Spielberg por causa de sua “cruzada” (certa ou errada) contra o streaming, porque uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Neste texto, porém, mesmo dentro do contexto, quero falar mais sobre mim. Apesar do conforto e toda a tecnologia que podemos ter em casa para assistir a um filme, concordo que não há lugar com imersão mais eficiente que uma sala de cinema. Portanto, torço para que essa opção de lazer (ou esse templo sagrado) jamais morra. Por outro lado, aprendi a amar os filmes em casa. Ironicamente, graças ao cinema dirigido e produzido por Steven Spielberg (nos melhores anos desse acervo).

Cresci educado por fitas de vídeo de Os Caçadores da Arca Perdida, Indiana Jones e o Templo da Perdição, Tubarão, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, E.T.: O Extraterrestre, Gremlins, De Volta para o Futuro, Os Goonies, Viagem Insólita, Império do Sol, entre outros. Foi assim que corri atrás de outros filmes, diretores e atores. Foi assim que desenvolvi uma paixão pelas grandes produções de Hollywood e, por isso, tenho um carinho especial por blockbusters até hoje.

Não tive idade para ver esses filmes no cinema e ainda bem que pude vê-los em casa. Mas, obviamente, não estou sozinho. A maioria dos cinéfilos que conheço nasceu vendo filmes em casa; não no cinema. Nem por isso, cresceram vendo filmes somente em casa.

Mas eu e esses amigos cinéfilos tivemos a sorte de viver em um ambiente onde o acesso aos filmes fez parte de nossas realidades. E quanto àqueles que não tem mais de 20 ou 30 Reais para uma ou duas idas ao cinema por mês, mas possuem o suficiente para uma assinatura da Netflix? Serviço que, aliás, poderia aumentar a qualidade de seu acervo, incluindo urgentemente clássicos obrigatórios para começar. Mas as coisas devem melhorar em relação à líder do segmento, afinal a concorrência aumentará muito em breve com a entrada da Disney no ramo.

Opa, estamos falando de uma gigante como a Disney agora? Pois é, essa conversa está apenas começando, Spielberg, meu ídolo. Repito, a questão está longe de ser simples.

Para terminar, quero lembrar que Steven Spielberg impediu o lançamento de E.T.: O Extraterrestre em VHS por um bom tempo.  Ele alegava que a magia de seu filme só poderia ser devidamente aproveitada e compreendida numa tela de cinema. Mesmo com tantos outros filmes populares aderindo ao formato após o encerramento de suas carreiras no cinema, Spielberg resistiu por muitos anos. Mas, depois de um tempo, ele cedeu. Eu pude ver E.T., assim como uma geração inteira que aprendeu a amar cinema.

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