Capitã Marvel

Otavio Almeida 8 de março de 2019 2
Capitã Marvel

O filme que ousa dizer o quanto meros mortais são mais fortes que os deuses

Por Otávio Almeida

O verdadeiro poder da Capitã Marvel (Captain Marvel, 2019) não vem de sua viagem ao infinito e além. Mas sim a partir do momento em que ela se reconecta com suas origens e prova a si mesma que é humana acima de tudo. Em outras palavras, a personagem mais forte do Universo Cinematográfico Marvel não alcança tal condição por ser uma super-heroína, mas por ser mulher.

Qual é o nexo dessa história de força interior? What the hell, estamos num filme de fantasia, mas ao contrário dos poderes de outros heróis dessa saga, que precisam sofrer consequências de uma reviravolta extraordinária em suas vidas, essa é uma mensagem importante em um mundo dominado por homens tanto para meninas e meninos que se inspiram nesse tipo de produção quanto para quem pensa que filme de super-herói é vazio e escapismo alienado. A cena incrível em que ela se levanta após cair em diferentes fases de sua vida é a catarse que o filme precisava para dar seu recado.

Um conceito representado com louvor pela figura imponente da vencedora do Oscar Brie Larson, feminista dentro e fora das telas, além de uma grande atriz intuitiva que consegue revelar as características e os sentimentos de sua protagonista através de camadas. Um talento que atrai nossa atenção com um brilho próprio colossal iluminando todas as cenas em que aparece. Isso, senhoras e senhores, é o que chamo de estrela.

Logo de cara, pode parecer estranho o filme optar por um início com Carol Danvers (Brie Larson) já em suas aventuras espaciais antes de contar sobre suas raízes na Terra. Isso realmente prejudica o filme e deixa o espectador patinando sem identificação alguma com o que está vendo no primeiro ato. Mas, ok, não demora muito para compreendermos as reais intenções de Anna Boden e Ryan Fleck, cineastas mais acostumados com filmes independentes como Half Nelson. E só bons contadores de histórias seriam capazes de narrar a clássica fórmula do filme de origem às avessas. Assim como Brie Larson compõe a heroína, os diretores de Capitã Marvel apostam numa trama desfiada em camadas, levando uma deusa da perfeição às falhas; ou seja, à sua humanidade (e não o contrário como estamos habituados). Podemos dizer que Anna e Ryan não são exímios diretores de cenas de ação como os irmãos Anthony e Joe Russo da mesma forma que não possuem o dom de James Gunn para aliar música pop com a arte em movimento. Só que eu gosto como preferem conduzir Capitã Marvel muito mais como um estudo de uma personagem com a justiça impregnada em sua alma e pronta não para a guerra, mas para decretar a paz. Mesmo que precise dar uns socos e pontapés aqui e ali, ela é guiada pelo intimismo. O filme poderia ter uma trilha instrumental mais marcante e ser (bem) mais caprichado no visual, mas também não fica atrás nesse quesito de Capitão América: Guerra Civil ou Homem-Formiga, vai. Porém, não tinha como fugir muito disso sabendo que os diretores decidiram priorizar o ecossistema grunge da década de 90 à grandiosidade tradicional de um épico de fantasia.

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Portanto, não espere a megalomania justificada de um Vingadores: Guerra Infinita ou a extravagância sem cérebro de um Aquaman. Menos é mais em Capitã Marvel e valorizo uma aventura marcada pela simplicidade, termo que soa esquisito dentro desse universo, mas é verdade; o que é até ousado para o patamar alcançado pela Marvel Studios. Algo que dá personalidade suficiente à produção para garantir seu espaço e não se contentar em ser apenas uma ponte entre Vingadores: Guerra Infinita e Vingadores: Ultimato.

Ah, sim, seja como filme de super-heróis ou ficção científica, Capitã Marvel é um prato cheio. Além de um gato que merece o Oscar (e o título de bichano mais icônico do cinema), o filme apresenta uma raça alienígena para lá de interessante (os Skrulls) que fez minha memória esbarrar em momentos gloriosos de Star Trek. Com a realidade em que vivemos, Capitã Marvel dialoga com a urgência do empoderamento feminino de maneira impactante sem parecer propaganda e ainda traz inspiração na crise dos refugiados na hora em que a trama coloca para valer suas cartas na mesa, conexão relevante com a atualidade que é herança de Pantera Negra, produção que provou ao mundo que o “gênero” pode ter algo importante a dizer. Para cinéfilos e saudosistas, o filme ainda é um deleite como reconstituição dos anos 90 e também quando se agarra a referências; por exemplo ao mostrar Carol Danvers segurando um VHS de Os Eleitos, o melhor filme de 1983, que é sobre o início da corrida espacial em que pilotos audaciosos se tornam os primeiros astronautas, o que traça um paralelo com sua própria jornada.

Uma última coisa impressionante: Capitã Marvel segue os passos ensaiados pelos magos dos efeitos visuais de rejuvenescimento de atores. Vimos alguns segundos de Michael Douglas em Homem-Formiga e Robert Downey Jr em Capitão América: Guerra Civil em versões mais jovens. Mas a confiança agora é tanta que Samuel L. Jackson (um super trunfo do filme), como Nick Fury, e Clark Gregg, como o Agente Coulson, aparecem em diversas cenas com rostos 20 anos mais novos (principalmente Sam Jackson). Portanto, não é exagero cravar que a combinação entre CGI e efeitos práticos de maquiagem marcou aqui uma virada de página na história do cinema.

VEJA O TRAILER:

Capitã Marvel (Captain Marvel, 2019)
Direção: Anna Boden e Ryan Fleck
Roteiro: Anna Boden, Ryan Fleck e Geneva Robertson-Dworet
Elenco: Brie Larson, Samuel L. Jackson, Jude Law, Annette Bening, Ben Mendelsohn, Lashana Lynch, Lee Pace, Djimon Hounsou, Clark Gregg, Gemma Chan
Duração: 2h08
Distribuição: Disney

2 Comentários »

  1. Kamila Azevedo 10 de março de 2019 às 10:03 AM -

    Infelizmente, ainda não assisti, mas tenho lido críticas nada entusiasmadas sobre este filme. Bom que já o assistirei sem muitas expectativas.

  2. Otavio Almeida 12 de março de 2019 às 12:57 PM -

    Gosto do filme. E da Brie Larson. E do gatinho. E do Nick Fury :)

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