Disney oficializa compra da Fox

Otavio Almeida 20 de março de 2019 0
Disney oficializa compra da Fox

A situação estava se arrastando desde o ano passado (o Departamento de Justiça dos EUA aprovou o negócio em julho), mas finalmente a transição é oficial. Agora, a Fox pertence à Disney. Não somente o lendário estúdio de cinema, mas também tudo relacionado à TV, FX, National Geographic e grande parte da plataforma de streaming Hulu.

Não é exatamente uma fusão. É uma aquisição. E um dos maiores acordos da história gira em torno de US$ 71 bilhões.

Não estamos falando exclusivamente de cinema, mas também de televisão. No Brasil, a Disney afirmou que a compra da Fox não diminuirá a concorrência no setor e qualquer sugestão de monopólio aqui ou lá fora não passa de intriga ou fofoca. Se a compra for confirmada, como se espera, a empresa inclusive controlará dois canais esportivos, a ESPN Brasil e o Fox Sports, os grandes concorrentes do SporTV, da Globo. Além disso, a compra da Fox amplia o VOD da Disney para atacar a liderança da Netflix. No caso do Fox Sports, as duas companhias alinharam a venda do canal. A exigência é do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), que busca uma competitividade entre os canais esportivos. Como parte da aprovação, a Disney concordou em alienar as 22 redes esportivas regionais da Fox.

Infelizmente, ninguém falará sobre funcionários perdendo seus empregos nessa fase de transição e o que eles podem fazer para dar a volta por cima. É assim em todos os segmentos e a guilhotina arranca a cabeça dos menos privilegiados. Mas sem fugir do assunto, o show precisa continuar e muitos querem saber mesmo é dos Vingadores encontrando os X-Men, Deadpool e o Quarteto Fantástico. Então, vamos lá: a Fox também tem Alien, Predador, Avatar, 24 Horas (na TV), entre outras franquias/séries com potencial para durar eternamente. A discussão importante do ponto de vista da arte e o entretenimento é que a Fox é um estúdio consagrado e histórico, que obviamente não deixou um legado tão influente apenas com filmes voltados para a diversão das massas.

Quando a Disney comprou a Lucasfilm, muitos pensaram que Star Wars não tomaria decisões narrativas ousadas, mas não foi bem isso que vimos em O Despertar da Força, Os Últimos Jedi e Rogue One. Sobre a Marvel, quando você imaginou que veria um filme como Pantera Negra ou um final como o de Vingadores: Guerra Infinita? Mesmo assim, o conservadorismo faz parte da história da Disney. Por isso, imagino que manobras arriscadas devem permanecer raras e não como regra. Até porque estamos falando de produtos feitos para faturar alto. Só que a Disney pode fazer aquela média: quando um público conservador notar que um filme está saidinho demais, a bilheteria já foi lá em cima e o estúdio pode “compensar” com duas, três ou quatro produções by the book na sequência para apaziguar os ânimos e manter o equilíbrio.

Mas e quanto a filmes ditos mais sérios? A Disney teria coragem de aprovar e bancar? Quantas vezes veremos daqui para frente diretores fora da caixa como Yorgos Lanthimos, Nicolas Winding Refn ou David Fincher colocando seus dedos nas feridas com a marca Fox sob o comando do estúdio do Mickey? A resposta pode ser a mesma dos blockbusters. A cada Clube da Luta, podemos ter dois ou três filmes como Casamento Grego. É o que faz Hollywood e o que a Disney pode fazer com os lançamentos via Fox.

Dizem que é ruim não ter concorrência. Ela é realmente necessária e se a Disney comprar todos os estúdios (ou os mais importantes), não haverá pressão de um oponente para levar a uma evolução natural. Mas e se a Disney estiver se transformando numa nova Hollywood? O que vai mudar?

Calma, gente, o negócio é esperar para ver, mas acho que continuaríamos elogiando raridades e reclamando que a maioria dos budgets são investidos em blockbusters. Porém, penso aqui se Walt Disney sonhou que seu império tomaria tamanha proporção. Seu estúdio e sua marca já nasceram fortes, mas embora seu criador fosse sinônimo de entretenimento, talvez ninguém imaginasse na época que a Disney caminharia a passos largos para se tornar a própria Hollywood, mesmo que isso se consolidasse no século seguinte. E eu diria que a dominação não está começando; ela está em andamento.

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