Dumbo

Otavio Almeida 31 de março de 2019 1
Dumbo

Como sempre, um Tim Burton belíssimo visualmente, mas repetitivo e ultrapassado como nos últimos anos

Por Otávio Almeida

Tim Burton está muito mais livre, leve e solto em Dumbo (2019) do que em Alice no País das Maravilhas, sua segunda adaptação para a Disney no pacote que trasnforma as clássicas animações do estúdio em live-action. Como sempre, seus temas favoritos estão lá. Antes de muita gente falar em grandes produções de Hollywood sobre o preconceito contra os excluídos ou o que é tido como diferente, Burton já abordava suas paixões como ninguém, inclusive numa fase que antecede a fama de Guillermo del Toro, artista que também gosta de viver nas sombras. Tudo isso envelopado com muita beleza e criatividade em termos de direção de arte, figurinos, fotografia e trilha sonora; seja na luz ou na escuridão, Burton tira cores do ambiente e de seus personagens. Em Dumbo, não é diferente. Mas, como disse, há tempos que ele não se sentia tão à vontade na direção.

Em poucos segundos, sua marca se faz presente. É tudo tão bonito de se ver que me perdi em enumerar meus frames prediletos, porque muitos devem inspirar artistas a pintarem quadros por aí. Mas destaco uma cena, com Dumbo olhando a pena mágica pegar fogo. Esse frame, gente, ficará na minha memória como um dos mais belos do ano.

Acho que todo mundo aqui conhece a história do filhote de elefante orelhudo que sabia voar, certo? Mas não espere uma cópia com uma ou outra mudança, como A Bela e a Fera, por exemplo. O novo Dumbo é um filme de Tim Burton e ele sabe o quanto foi necessário atualizar certos conceitos, como o final da animação, que pode ter emocionado a plateia de 1941, mas que não cabe em 2019. Portanto, fique de olho na primeira e na última sequência e o quanto elas dialogam com os dias atuais.

Dito isso, não preciso nem dizer que vamos a um filme como Dumbo para gostar e o jogo já está ganho antes mesmo das luzes se apagarem. Mas tudo que faz de Tim Burton uma atração também representa sua maldição. Explico: quando ele estava na vanguarda, apontamos um talento ousado e inigualável, um verdadeiro autor, um visionário capaz de levar Hollywood para o futuro. Tanto nos temas que destrincha quanto na inconfundível assinatura visual. Mas, narrativamente, o tom e o ritmo do cinema mudaram da segunda metade dos anos 80 para cá. Burton, no entanto, passa a impressão de que parou no tempo como contador de histórias e ainda faz filmes no ritmo que executava seus primeiros trabalhos. Em outras palavras, ele não entrou no século XXI como artista e se contenta em repetir a si próprio exaustivamente. E olha que ele já tem a cabeça voltada para monstros antigos e ama filmes B; imagem, então, essa mentalidade presa ao passado cerca de 30 anos depois. Tudo bem que na década de 80 não veríamos um elefante com orelhas gigantes voando com tamanha perfeição, mas o jeito de contar essa história merecia uma pegada mais 2019, quando o resultado, meus amigos, ficou lento, arrastado, com personagens unidimensionais, diálogos, atitudes, clima; tudo à moda antiga demais no pior sentido que cheira à mofo.

Dumbo 2
Quem não conhece o cinema de Tim Burton (falo de novinhos que ainda não estudaram profundamente a sétima arte) tem uma chance maior de se encantar com Dumbo e, provavelmente, terá a oportunidade de chorar litros. Porém, no geral, quem tem uma bagagem cinematográfica sairá do filme sem empolgação, mas pensando em nada além dos cenários, as cores, a beleza estonteante de Eva Green e a fofura provocada pelo elefante; um estouro do time responsável pelos efeitos visuais, principalmente em seus voos, afinal essas sequêncisa representam liberdade e sempre dão certo na linguagem do cinema (vide E.T., Superman levando Lois para um passeio ou Harry Potter decolando com o hipogrifo). É como se Burton jogasse doces coloridos e deliciosos para os espectadores e você não conseguisse pegar quase nenhum.

Assim como em O Lar das Crianças Peculiares, fico imaginando o que o Tim Burton de 30 anos atrás diria do Tim Burton atual. Para mim, aquele jovem ousado não atualizou seu discurso. Hoje, com tantos cineastas seguindo seus passos, mas com os pés fincados no agora, e (de novo) com Guillermo del Toro entendendo o desenvolvimento necessário da arte, Burton não é mais que aquele velho diretor que merece nosso respeito e admiração pelo que foi, não pelo que ainda faz ou fará. A destreza daquele sonhador à frente de seu tempo virou algo inesperadamente convencional e nada relevante.

Por outro lado, gostei que a Disney deu liberdade total para Tim Burton fazer o filme que queria e com seus atores favoritos (Michael Keaton, Danny DeVito, Eva Green). E isso você pode ter certeza que esse estúdio não permite a qualquer um.

VEJA O TRAILER:

Dumbo (2019)
Direção:
 Tim Burton
Roteiro: Ehren Krueger
Elenco: Colin Farrell, Danny DeVito, Michael Keaton, Eva Green, Nico Parker, Finley Hobbins, Alan Arkin, Joseph Gatt, Sharon Rooney
Duração: 1h52
Distribuição: Disney

One Comment »

  1. Kamila Azevedo 31 de março de 2019 às 12:07 PM -

    Ainda não assisti, mas as críticas são tão boas que eu devo conferir, em breve.

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