Nós

Otavio Almeida 22 de março de 2019 2
Nós

Jordan Peele expande sua mitologia de horror social com uma obra-prima que será discutida por muitos anos

Por Otávio Almeida

O comediante Jordan Peele achou inspiração no terror para se arriscar como diretor. E ele não veio para brincar. Em Corra!, de 2017, Peele começa sua história de forma convencional, usa um ou outro clichê, mas somente para capturar a atenção do espectador até finalmente puxar a cortina que divide a realidade da fantasia e mostrar algo que nunca vimos antes. Neste ponto, seu trabalho seguinte, Nós (Us, 2019), anda nos mesmos trilhos. Ambos exploram um horror social enraizado na América, que vem de dentro de quatro paredes que impossibilitam a quem está lá fora enxergar a verdadeira natureza do ser humano. Em Corra!, o mal é representado pelo racismo. Em Nós, a discussão está voltada para as diferenças entre classes e como tratamos os outros. Só que, apesar de dialogarem nesse sentido, os dois filmes são completamente diferentes e igualmente brilhantes.

Assim como Corra!, Nós tem um prólogo. Em 1986, acompanhamos uma garotinha, Adelaide, entrando numa sala de espelhos, atração de um parquinho numa praia de Santa Cruz, Califórnia (a mesma dos vampiros de Os Garotos Perdidos). Lá, ela se depara com um trauma que carregará pelos próximos 30 anos. É com esse salto no tempo que passamos pelos créditos iniciais e conhecemos Adelaide adulta (Lupita Nyong’o) ao lado dos filhos, Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex), e do marido, Gabe (Winston Duke). Eles decidem aproveitar o sol nas areias da mesma Santa Cruz, onde encontram um casal de amigos ricos e esnobes (e suas filhas). Mais tarde, relaxando na casa de praia, eles recebem a visita de uma família praticamente idêntica (com a diferença de suas aparências mais desgastadas (para ser educado), roupões vermelhos e imensas tesouras douradas em mãos. Enfim, sinal de boa coisa não é.

Mas se você pensa que verá algo parecido com Os Estranhos ou Uma Noite de Crime, esqueça. Apenas relaxe e confie em Jordan Peele na condução dessa viagem única, aterrorizante e inesquecível. E como todo grande filme de terror, Nós reflete a sociedade real, especialmente a classe média alta americana, como eu disse acima. Porém, esse é um filme de 2019, portanto ver os vilões somente como o lado maligno de cada indivíduo sem qualquer outra motivação é um equívoco. Jordan Peele é um cineasta que tem coragem de expor a teoria das sombras, com nossas atitudes doentias que tanto escondemos ou esquecemos em algum lugar para evitar a barbárie. Mas que se manifestam às vezes, mesmo que de forma inconsciente, quando julgamos, desdenhamos, ignoramos ou até mesmo maltratamos algumas pessoas simplesmente porque não a consideramos do mesmo nível que o nosso.

As razões que levam as cópias da família a tocarem o terror são explicadas por Jordan Peele. Mas não veja essa decisão como falha, afinal é por isso que ele vem sendo comparado a Alfred Hitchcock. Não é por acaso que uma camiseta do filme Tubarão aparece em Nós. Steven Spielberg admitiu inspiração na obra de Hitchcock para construir seu clássico moderno e simbolizava o futuro. O mesmo serve para Jordan Peele. Ah, fiquei com a impressão que a excepcional trilha de Michael Abels atualiza alguns acordes tradicionais de Bernard Herrmann. E, bem, o mesmo serve para John Williams em Tubarão.

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Uma das armas do lendário cineasta de Psicose, Um Corpo que Cai e Janela Indiscreta é distribuir as peças no tabuleiro para você acreditar que o mistério ultrapassará a fronteira do território sobrenatural, mas sempre traz uma explicação no fim com os dois pés no mundo real. Peele é mais pop ao flertar com o mesmo conceito, porém adicionando elementos fantásticos da ficção científica tanto em Corra! quanto em Nós. Mas nunca o horror sobrenatural (por mais que admita certa influência na filmografia de George A. Romero em seu segundo longa).

Hitchcock não discordaria que entender o motivo do crime pode ser mais importante que destrinchar todos os detalhes do plano. Isso não impede Jordan Peele de espalhar pelos cantos as pinceladas de seu universo particular, deixando as entrelinhas de sua mitologia para a imaginação do público. E é aqui que Nós dividirá opiniões entre os que amaram e os que “não acharam tudo isso”. É um risco, porque Peele não tem receio de pisar no freio. Numa impressão inicial, parece que nem tudo é o que parece. Mas achei espetacular compreender numa revisão que nenhuma cena é colocada no filme à toa (como a primeira delas, que leva ao final).

Mesmo que Jordan Peele esteja inteiramente certo do que quer, o elenco estupendo contribui para gerar o resultado esperado por ele. Principalmente, Lupita Nyong’o na atuação de sua vida não em um, mas dois papéis poderosos, que ora se separam, ora se completam. Ideia que reflete no jogo de espelhos proposto pelo diretor durante todo o filme para demonstrar como não conhecemos profundamente diversas pessoas, incluindo membros de nossas famílias. Segundo o diretor, somos heróis e vilões alternando cada face na velocidade de uma dança.

O segredo aqui não é “matar o segredo” nem decretar se Nós é melhor ou não que Corra! O conselho é se entregar a um espetáculo de horror contemporâneo, mas que não cai na tentação dos sustos fáceis de hoje em dia graças à trilha surgindo do nada com volume máximo depois de alguns segundos de silêncio. Seguindo ensinamentos do passado, Jordan Peele trabalha o medo emergindo do ambiente e da sensação de impotência em relação à falta de controle em uma situação fora do comum. Mas sei que ainda vou cansar de procurar significados dentro dessa obra-prima intrigante em inúmeras revisões. Aposto que não estarei sozinho, mesmo que leve tempo para você reconhecer a grandeza desse filme, que expande temas explorados em Corra! numa escala bíblica e com material de sobra para ser incansavelmente discutido pelos próximos anos.

VEJA O TRAILER:

Nós (Us, 2019)
Direção e roteiro: Jordan Peele
Elenco: Lupita Nyong’o, Winston Duke, Elisabeth Moss, Tim Heidecker, Shahadi Wright Joseph, Evan Alex, Yahya Abdul-Mateen II, Anna Diop, Cali Sheldon, Noelle Sheldon
Duração: 1h56
Distribuição: Universal

2 Comentários »

  1. Kamila Azevedo 24 de março de 2019 às 10:26 AM -

    Não assisti “Corra!” ainda, mas tenho muita curiosidade. Não só para assistir ele, como também a esse “Nós”, apesar de não ser muito o tipo de filme que eu assisto no cinema.

  2. Otavio Almeida 26 de março de 2019 às 7:03 PM -

    Kamila, veja “Corra!” o quanto antes. De nada :) Bjs

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