Operação Fronteira | Crítica

Otavio Almeida 15 de março de 2019 0
Operação Fronteira | Crítica

Filme foi produzido por Kathryn Bigelow, mas merecia uma diretora como ela

Por Otávio Almeida

Kathryn Bigelow, a única mulher em nove décadas de Oscar a ganhar a estatueta de Melhor Direção, por Guerra ao Terror, considerou dirigir Operação Fronteira (Triple Frontier, 2019). Mas o texto de seu roteirista de confiança, Mark Boal, que também assinou Guerra ao Terror, A Hora Mais Escura e Detroit em Rebelião para a cineasta, acabou ganhando a colaboração do diretor do “quase”, J.C. Chandor, que ainda assumiu a direção. Sem Kathryn à frente, embora tenha ficado na honrosa função de produtora executiva, Operação Fronteira deixa o espectador o tempo inteiro preso à imaginação do quanto esse filme tinha potencial para ir mais longe.

É sobre cinco amigos, ex-soldados das Forças Especiais (Oscar Isaac, Ben Affleck, Charlie Hunnam, Garrett Hedlund e Pedro Pascal), que retornam à atividade para roubar uma cacetada de dinheiro de um chefão das drogas na América do Sul. Um flash que me fez lembrar logo no início de Três Reis, o melhor filme de David O. Russell. Mas não. Estranhamente, apesar do envolvimento de Kathryn Bigelow, Mark Boal, e até mesmo de J.C. Chandor (falo mais sobre ele depois), o primeiro ato lembra o tipo de filme de ação feito com e para machões dos anos 80. Para pegar um exemplo recente, algo próximo à premissa da saudosista trilogia Os Mercenários. Mais para o tom, incluindo o uso de trilha sonora roqueira, diálogos ruins, curtos, frases de efeito e narizes empinados, do que em relação à execução das cenas de ação, que são muito bem orquestradas e lembram mais a pegada visceral de Kathryn Bigelow (sem a câmera balançando graças a Deus).

Enfim, fiquei com a impressão que a estratégia foi equivocada e que as cabeças pensantes por trás do projeto jamais chegaram a um equilíbrio criativo. Mas tive essa certeza da metade para o final, dominada por um mix de tensão, ganância e um senso de moralidade capaz de enlouquecer o quinteto muito mais que seus perseguidores. O filme cresce nessa segunda metade e repare como as guitarras rasgadas e barulhentas dão um descanso na trilha. Inclusive contém uma reviravolta dramática inesperada, mas coerente para o desenvolvimento dos personagens.

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Os atores demonstram suas forças do meio para o final, inclusive Ben Affleck, mas obviamente todos são prejudicados pela condução da primeira metade. O que nos leva ao nome que deveria ser o grande responsável pelo resultado de Operação Fronteira, assim como o de qualquer outro filme, o diretor.

Neste caso, J.C. Chandor, o diretor do “quase”. Por que? Bom, porque ele sempre fica no quase. Quando vemos um trailer, a sinopse e o elenco de seus filmes, nossos olhos cinéfilos se enchem de esperança. Mas suas ambições costumam parar na premissa. Margin Call, sobre os bastidores da crise econômica, prometia, mas ficou no quase. Foi engolido, por exemplo, por A Grande Aposta. Podemos dizer o mesmo de Até o Fim, com Robert Redford mudo e sozinho num barco no meio de uma tempestade, mas o filme não foi muito mais longe que isso e ficou no quase. O Ano Mais Violento talvez seja seu trabalho mais interessante. Só que sugeriu um filhote de O Poderoso Chefão, acabou não indo para lugar algum e ficou no quase.

Ainda é um mistério para mim o que motiva atores badalados a trabalharem com ele. Talvez vejam algo de bom em J.C. Chandor, mas depois de tantas tentativas, por que ele não muda para a função de produtor? Ou a de produtor executivo? Por exemplo, com Kathryn Bigelow dirigindo um roteiro como Operação Fronteira. Sei lá, só uma ideia.

VEJA O TRAILER:


Operação Fronteira (Triple Frontier, 2019)
Direção: J.C. Chandor
Roteiro: Mark Boal e J.C. Chandor
Elenco: Oscar Isaac, Ben Affleck, Charlie Hunnam, Garrett Hedlund, Pedro Pascal e Adria Arjona
Duração: 2h05
Distribuição: Netflix

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