The Dirt: Confissões do Mötley Crüe

Otavio Almeida 31 de março de 2019 0
The Dirt: Confissões do Mötley Crüe

Um filme sobre o Mötley Crüe do mesmo diretor de “Jackass” só poderia dar nisso

Por Otávio Almeida

Até quando veremos cinebiografias que tentam contar quase a vida inteira dos biografados em apenas duas horas de filme? Você conhece a fórmula: passagens importantes da timeline de seus protagonistas são picotadas e aceleradas com tratamentos dramáticos superficiais para preencher o tempo e reduzir a reclamação dos fãs no caso de algum fato ficar de fora (nem que seja um trechinho de uma música). Como li num comentário recente e muito bem colocado sobre esse tipo de filme, a sensação é conhecer uma história real pela WikiPedia. O mesmo pode ser dito de The Dirt: Confissões do Mötley Crüe (The Dirt, 2019), cinebiografia do Mötley Crüe, banda de metal farofa que ficou mais famosa pela zona que fez por onde passou (com os outros e eles próprios) do que o legado de sua música.

E, bem, o filme faz exatamente isso. Deixa a playlist no backstage para privilegiar o caos que seus quatro integrantes liberaram no mundo. Não mais que um toque especial de mau gosto para relembrar tais situações, uma cortesia de Jeff Tremaine, um dos criadores de Jackass e diretor dos filmes da série, assim como de Vovô Sem Vergonha.

Entendo que a banda causou, mas se você quer saber como Jeff Tremaine interpretaria os fatos, basta imaginar que ele abre o filme “jorrando” o orgasmo de uma mulher numa cena criada para o público masculino rir. Pergunto: precisava?

Depois disso, conhecemos os integrantes da banda, que se dividem no voice over executado de forma pobre do ponto de vista narrativo, afinal é só imaginar o filme sem tal recurso e notar que isso não faria a menor diferença. Não entendi também qual foi a motivação para mostrar apenas o baixista Nikki Sixx (Douglas Booth) em sua infância antes de encontrar o baterista Tommy Lee (Machine Gun Kelly), o guitarrista Mick Mars (Iwan Rheon) e o vocalista Vince Neil (Daniel Webber). Será que só para justificar sua entrega às drogas e uma vida de excessos? Bom, Vince e Tommy também cometem seus exageros. Mas estamos falando de um filme em que bastou esses caras tocarem juntos somente uma vez para saírem do anonimato. Aliás, Nikki foi abandonado pelo pai e fugiu da mãe. De repente, sem mais nem menos, cresce sabendo tocar baixo. O que mais para demonstrar os buracos? Tem uma cena em que um dos músicos dá um soco na cara de sua namorada. Faz expressão de quem se arrependeu, mas não vemos nenhum consequência. Pelo contrário, isso é esquecido e ele ainda se casa com Heather Locklear como se fosse um prêmio.

Mas, OK, depois da abertura já mencionada, ninguém vai ligar para The Dirt tropeçando em suas próprias ambições narrativas sem nenhum arco devidamente desenvolvido. É questionável, mas o importante é ver o  Mötley Crüe zoando por aí na primeira metade e rir disso. Desde que, claro, você admita que está se divertindo com um filme ruim. Se foi feito para chocar, The Dirt falha 100%, pois soa datado. Inclusive ao utilizar quebra de quarta parede para driblar suas deficiências e explicar o que o filme deixou de contar.

Só não me peça para concluir que, depois de tudo que aprontaram, esse filme, no fundo, era sobre a família que eles formaram, porque é assim que Jeff Tremaine ousa terminar essa história.

the dirt 2
Não antes de exercitar um lado dramático pífio como diretor na segunda metade. A tentativa acaba resultando em um novo filme a partir daqui, mas arrastado, enfadonho, que escancara o quanto seus atores são fracos e estavam disfarçados de engraçadinhos no início. Tirando Iwan Rheon, que esteve em Game of Thrones e lá a exigência é outra.

Embora tenha sido produzido por seus integrantes e dirigido pelo sujeito de Jackass, não posso afirmar nem negar que um filme sobre o Mötley Crüe só poderia dar no que deu. Mas posso dizer que o desafio e a surpresa estariam na entrega um bom filme e, sim, isso seria perfeitamente possível se o diretor contratado fosse um pouquinho apaixonado pela música da banda e não trocasse isso pela escatologia barata.

Será que Cameron Crowe não estava disponível? Ou alguém que soubesse contar histórias e entendesse de direção de atores e desenvolvimento de personagens. Coisas básicas. Talvez focando nos bastidores de uma única turnê ou na gravação de um álbum, onde um curto espaço de tempo ilustrasse o todo, um tratamento dramático mais consistente. Sabe? David Fincher não precisou cobrir boa parte da vida de Mark Zuckerberg em A Rede Social. Mas, cara, isso é rock e é o Mötley Crüe, então muita gente usará isso como desculpa. Porém, o Jack Black de Escola de Rock discordaria. No filmão de Richard Linklater, ele explica o que denigre a imagem do rock e acho que esses caras não assistiram.

VEJA O TRAILER:

The Dirt: Confissões do Mötley Crüe (The Dirt, 2019)
Direção: Jeff Tremaine
Roteiro: Amanda Adelson, Rich Wilkes, Neil Strauss, Nikki Sixx, Vince Neil, Mick Mars, Tommy Lee
Elenco: Machine Gun Kelly, Erin Ownbey, Douglas Booth, Aaron Jay Rome, Daniel Webber, Alyssa Marie Stilwell, Iwan Rheon
Duração: 1h47
Distribuição: Netflix

Deixe seu comentário »