O Menino que Descobriu o Vento

Otavio Almeida 14 de março de 2019 2
O Menino que Descobriu o Vento

Chiwetel Ejiofor estreia na direção com sua emocionante ode ao poder transformador da educação

Por Otávio Almeida

Você lembra quando os filmes se preocupavam acima de tudo em contar uma bela história? Um tempo em que ambições artísticas individuais eram colocadas em segundo plano e todos os envolvidos numa produção uniam esforços para que um filme ganhasse vida e fosse maior que cada talento pago para tirá-lo do papel. Pode ser bem filmado, escrito, interpretado, qualquer coisa, mas a história é construída sem recados panfletários para o momento político, social e econômico de sua época, embora dialogue com a realidade de qualquer geração devido aos seus temas universais e atemporais. É esse tipo de cinema que propõe o ator Chiwetel Ejiofor em sua estreia como diretor de longas-metragens. De alguma forma, os lados viscerais e emocionais de sua força como o ator que conhecemos estão muito bem representados em sua visão do livro de William Kamkwamba e Bryan Mealer, O Menino que Descobriu o Vento (The Boy Who Harnessed the Wind, 2019).

Alguns atores conseguem adaptar seus talentos para a função de diretor de uma maneira tão natural que é fácil reconhecer suas características e temáticas preferidas em cada cena. Clint Eastwood e Woody Allen tiram isso de letra, mas temos outros bons exemplos como os de Kevin Costner, que vivia um grande momento em sua carreira como ator quando se arriscou na direção de Dança com Lobos. Podemos dizer o mesmo de George Clooney, quando filmou Boa Noite e Boa Sorte. O Menino que Descobriu o Vento é a cara do ator indicado ao Oscar por 12 Anos de Escravidão, inteligente, humanista e extremamente honesto por abrir seu coração.

Ele conta a história real de William Kamkwamba (Maxwell Simba) que vivia em Malawi, África, em 2001, com sua pobre família, vivendo de colheitas numa terra castigada pelo sol e a ausência de chuvas. Quando Ejiofor faz referência à queda das Torres Gêmeas, em Nova York, naquele ano, temos a certeza de que o cenário que veremos a seguir remete a um período de um sofrimento inimaginável para quem tem dinheiro para ir ao cinema e pagar Netflix todos os meses. Lutando para ir à escola sem dinheiro, William se encanta pela ciência e vê nela a solução para os problemas da família e das pessoas ao seu redor.

Só que estamos falando de um lugar esquecido pelo tempo e o mundo, onde o conservadorismo e velhas tradições imperam. A juventude e o futuro representados por William batem de frente com as convicções antigas de seu pai, Trywell (o próprio Chiwetel Ejiofor mais uma vez sendo maravilhoso). No meio do desespero, ele acredita que chegou a hora do menino esquecer os estudos, pegar a enxada e encarar o trabalho duro. Como convencer uma pessoa enraizada a culturas e educações que não têm mais espaço no mundo de hoje? Essa é a grande pergunta que nos fazemos quase todos os dias sobre nossos pais e outros antepassados. É a pergunta que faz William, que o respeita e não quer um confronto com o próprio pai mesmo sabendo que tem razão nessa discussão.

O Menino que Descobriu a Vento

Mas Ejiofor está ciente que não pode ceder aos clichês, embora eles circulem o filme o tempo todo atrás da carniça. Só que o ator e diretor nunca permitem que eles ataquem. Prova disso é que nem sempre ele deixa a música ajudar nas cenas mais tristes ou bonitas, mas principalmente sua decisão de pisar em todos nós e deixar as emoções mais fortes somente para o finalzinho me parece acertada, porque na hora que ela vem a catarse é natural e grandiosa.

Ejiofor, no entanto, comete erros de principiante. Por exemplo, ao abrir várias frentes no primeiro ato para sem mais nem menos abandoná-las para se concentrar nos personagens que realmente importam. A mais grave, para mim, vem da sequência inicial em um ritual durante o funeral do irmão de Trywell, que é dominado por diálogos irritantes de tão expositivos para mostrar quem é quem.

Não precisava, porque não demora tanto assim para Ejiofor explicar de fato quem realmente são essas pessoas. Do início ao fim, conhecemos cada membro da família e entendemos seus medos, mas também suas inspirações. Trywell não é pintado como um vilão. Pelo contrário, apesar do que escrevi acima, ele é um pai e marido dedicado, trabalhador; um verdadeiro lutador e um homem apaixonado por sua terra, cultura e a família (parênteses aqui: a atriz que faz sua esposa, Aïssa Maïga, é sensacional).

Parece que já vimos algo como O Menino que Descobriu o Vento antes, afinal possui uma trama e significados explorados centenas de vezes pelo cinema. Mas é clássico e ao mesmo tempo novo, pois sabemos que Hollywood raramente olha para fora de seu umbigo com tamanha honestidade; isso graças à liberdade dada aos contadores certos de uma história específica, o que também é difícil de acontecer. Mais raro ainda é um diretor conseguir entrar em Malawi de alguma forma honrando o dialeto local (o Chichewa), que é privilegiado em relação ao idioma inglês durante cerca de 90% do filme. E Chiwetel Ejiofor tem algo a dizer em uma história real que você provavelmente nunca ouviu falar. Ainda mais quando políticos da vida real pregam adequação ao sistema, pensam em construir muros e armar a civilização, enquanto ignoram o poder transformador da educação.

Uma última coisa: finalmente um filme sobre um personagem negro indo à escola, mas sem lidar ao mesmo tempo com a violência das ruas americanas. Finalmente um filme sobre africanos sem guerras ou histórias envolvendo preconceito racial. Finalmente notamos que existem outras histórias maravilhosas que precisam ser contadas. Finalmente.

VEJA O TRAILER:

O Menino que Descobriu o Vento (The Boy Who Harnessed the Wind, 2019)
Direção e roteiro: Chiwetel Ejiofor
Elenco: Maxwell Simba, Chiwetel Ejiofor, Aïssa Maïga, Lily Banda e Felix Lemburo
Duração: 1h53
Distribuição: Netflix

2 Comentários »

  1. Paulo Ricardo 15 de março de 2019 às 12:36 PM -

    Eu gosto de filmes com esse teor humanista e Chiwetel Ejiofor merece nossa atenção atrás das câmeras depois desse belo drama.

  2. Otavio Almeida 15 de março de 2019 às 2:42 PM -

    Fiquei surpreso com o filme. Confesso que subestimei o Chiwetel. Abs

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