Estrada Sem Lei | Crítica

Otavio Almeida 5 de abril de 2019 3
Estrada Sem Lei | Crítica

“Bonnie & Clyde” em versão conservadora

Por Otávio Almeida

Existe uma razão muito clara para o lendário cineasta Arthur Penn ter filmado Bonnie & Clyde, no fim dos anos 60, do ponto de vista do casal de criminosos: a história é muito mais interessante e desafiadora do que acompanhar seus perseguidores e velhos federais seguindo ordens sem questioná-las. Mas alguém achou uma boa ideia recontar essa história do ponto de vista da lei do que apostar num remake. E a única boa ideia nisso tudo é que, pelo menos, não é um remake.

Estrada Sem Lei (The Highwaymen, 2019) é uma espécie de versão conservadora da saga de Bonnie & Clyde. Ok, é uma visão de extrema direita mesmo. Ou seja, eles são vistos de longe, de relance e não têm voz. Por isso, o lado da lei (e vitorioso) não tem o menor pudor em pintar os bandidos como monstros matadores de pobres policiais e ladrões de bancos.  E que não adianta tentar prendê-los, porque o negócio é meter bala. Ainda por cima, demonstra pena dos fãs de Bonnie e Clyde, as verdadeiras vítimas dos bancos, mas completamente perdidas em adorar esses outsiders. Uma pegada nada surpreendente se conhecemos o diretor John Lee Hancock, responsável por um dos hinos dos filmes sobre white saviors (Um Sonho Possível) e outro sobre como a mulher que criou Mary Poppins era um pé no saco até cruzar com o homem mais maravilhoso do mundo, Walt Disney (Walt nos Bastidores de Mary Poppins).

Sei que Clyde Barrow e Bonnie Parker cometeram crimes e assassinatos, mas na época da crise financeira dos anos 30, eles ganharam o apoio das pessoas, pois roubavam dos bancos, não do povo. Viraram celebridades e símbolos numa luta inconsequente (e jovem até a raiz) contra o sistema. Somente a tentativa de compreender toda essa loucura faz do clássico de 1967 uma obra intrigante, capaz de questionar nossas posições sociais, políticas e até mesmo nossa própria sanidade. Em outras palavras, o filme não depende só dos brilhos de Warren Beatty e Faye Dunaway.

E a não ser que você simpatize com a ideia de que a polícia está sempre certa e deve descarregar uma covarde rajada de balas ao invés de prender jovens criminosos com direito a um julgamento, Estrada Sem Lei  depende exclusivamente dos apelos de dois grandes astros, que impedem um desastre maior: Kevin Costner e Woody Harrelson. Eles são respectivamente Frank Hamer e Maney Gault, os Rangers contratados para o clichê “mais um serviço antes da aposentadoria definitiva”.

Gosto como há algo de Os Imperdoáveis ali. Eu disse “algo”, afinal os protagonistas não pertencem ao mundo atual e civilizado, pois foram matadores frios em seus anos dourados e, agora, com a ascensão do FBI, precisam lidar com regras. O Oeste se foi e virou mitologia. Consequentemente, largam suas carreiras para viverem rotinas com suas famílias, embora não se encaixem nesse estilo de vida.

Quando recebem a oportunidade de acabar com o reinado de Bonnie e Clyde, os dois não hesitam em pegar a estrada, mas entendem que a missão só será cumprida se fizerem tudo do jeito deles. O que, de certa forma, explica a questionável tática final. Mas queria ver uma abordagem mais profunda dos dois enxergando em Bonnie e Clyde as evoluções de suas ações no passado. Acho que faltou uma reflexão mais contundente em relação aos seus atos, embora Estrada Sem Lei tenha um olhar sóbrio a respeito dessa caçada. Nunca heroico.

Por mais que o filme privilegie um tom sério, Hancock não comete o erro de entregar um resultado frio, com a cara de seus protagonistas, especialmente o de Kevin Costner, pois ainda há alguma humanidade no personagem de Woody Harrelson. Ambos não podem mudar quem são e sabem disso, pois voltar à ação não tem nada a ver com motivos financeiros, mas sim de uma chance de ressuscitá-los do marasmo de uma rotina que não combina com eles. Mesmo assim, de novo, o tabuleiro é devidamente preparado por John Lee Hancock, mas não vi um arco produtivo para os dois. É como se a jornada de ambos fosse do nada a lugar algum. Já o filme como um todo, parece uma enrolação costurada por belos planos até chegarmos à conclusão da caçada, o que é grave, pois 99% da polução da Terra conhece o final. Prova por A + B de que essa história está sendo contada pelos narradores errados.

Mas se você quer um cinema mais ousado e profundo, vá atrás dos filmes citados neste texto, porque Bonnie & Clyde, com Faye Dunaway e Warren beatty, e Os Imperdoáveis, de e com Clint Eastwood, sempre estarão disponíveis.

PS: Alguém me explica o que levou Kevin Costner a fazer uma voz de Batman de Christian Bale para compor seu personagem?

VEJA O TRAILER:

Estrada Sem Lei (The Highwaymen, 2019)
Direção: John Lee Hancock
Roteiro: John Fusco
Elenco: Kevin Costner, Woody Harrelson, Kathy Bates, Thomas Mann, William Sadler, Kim Dickens, John Carroll Lynch
Duração: 2h12
Distribuição: Netflix

3 Comentários »

  1. Kamila Azevedo 7 de abril de 2019 às 10:29 AM -

    Vi que estreou no Netflix, mas ainda não assisti. Coloquei na lista para ver. :)

  2. Kamila Azevedo 23 de abril de 2019 às 11:36 AM -

    Agora que já assisti, voltei pra comentar. Eu gostei do filme, a trama me prendeu a atenção. Só oferecendo um contraponto: acho que a visão do diretor é mais a do confronto velado entre criminosos célebres e a de homens da lei que também tiveram esse status de celebridade. Entretanto, ao invés de jogar a visão em cima dos “bandidos”, coloca o olhar sobre os homens da lei, tentando humanizá-los.

  3. Otavio Almeida 25 de abril de 2019 às 6:41 PM -

    Esperava bem mais. Não exatamente por “Bonnie & Clyde”, mas porque houve uma fase muito boa com Kevin Costner no cinema. E ele voltou agora como protagonista, então coloquei uma atenção maior em cima do filme. Bjs

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