Suspiria | Crítica

Otavio Almeida 11 de abril de 2019 0
Suspiria | Crítica

Um remake inacreditável de tão ruim, bagunçado e ridículo

Por Otávio Almeida

Dario Argento fez de Suspiria um filme inesquecível porque estamos falando da obra de um artista visionário com um apuro estético particular. Não há nada igual a suas cores vivas e clima alucinógeno que levam a uma decida sem volta ao inferno. A não ser outro filme de Dario Argento, claro.

Por mais que seja um cineasta talentoso, Luca Guadagnino não é um autor nem mesmo engraxa as chuteiras de Argento. Perto dele, o diretor de Me Chame pelo seu Nome é apenas mais um entre tantos que apenas fazem filmes. Aliás, nem queria comparar com Argento. Prefiro comparar Guadagnino com Guadagnino: tem certeza que esse remake de Suspiria (2018) é do mesmo cara que fez o filme com Timothée Chalamet e Armie Hammer?

Parece que não. Mas do Suspiria original, eu diria que fica o empoderamento feminino, bruxas e a escola de dança. Só. Após cometer o erro de refilmar o que não precisa ser refilmado, a decisão de Guadagnino em fugir o máximo possível do roteiro do clássico é tão compreensível quanto injustificável. É uma boa ideia por ser uma estratégia para evitar muitas comparações e privilegiar um olhar próprio. E é uma péssima ideia, ao mesmo tempo, porque… qual é mesmo a explicação para refazer Suspiria?

Por que não filmar outra história sobre bruxas e com outro título? Ainda que admita a inspiração em Suspiria, afinal é e sempre será uma referência indiscutível. Mas, olha, preciso deixar claro que a opção de Guadagnino em se distanciar da obra original é o menor dos problemas. Eu fico me perguntando como alguém resolveu bancar esse roteiro. Começa destruindo qualquer possibilidade de mistério com Chloë Grace Moretz jogando na nossa cara que existem bruxas nessa história. Corta para uma casinha isolada no campo, com uma mulher moribunda na cama. Corta para a inexpressiva Dakota Johnson chegando a uma academia de danças onde o espectador já sabe onde ela está se metendo.

Suspiria_Tilda
Uau! Temos aqui uma espécie de abertura com três introduções distintas mesmo que o roteiro não seja composto por histórias diferentes que se cruzam e se complementam, como bem gostava Robert Altman. E logo conhecemos a principal professora do local, Tilda Swinton, maravilhosa como sempre, mas confesso que não peguei a desculpa para colocá-la em três papéis diferentes (deixo para você descobrir quais são os outros dois. Mas não, ela não é a protagonista. No fundo, parece ser Dakota, mas lá pelas tantas, a personagem da linda e talentosa Mia Goth, a maior revelação do elenco, começa a ganhar mais tempo em cena para representar e guiar os olhos da plateia, embora (de novo) a gente saiba desde os primeiros minutos que Suspiria tem bruxas nessa academia.

Tudo isso costurado por uma montagem absurdamente tosca, que não só dificulta a condução da trama como atrapalha a imersão do espectador com inúmeros e desnecessários cortes numa mesma cena. Fala aí: você pegou no pé da montagem de Bohemian Rhapsody porque o filme foi para o Oscar ou porque não viu o remake de Suspiria. Das duas, uma.

E se Luca Guadagnino se esforça tanto para fugir do filme de Dario Argento, por que ele começa a demonstrar lampejos surrealistas em alguns momentos? Por que quase duas horas e meia de filme? E pra quê uma surpresa final a mais? Só para justificar a passividade de Dakota Johnson? Enfim, aqui eu até respondo: é uma desculpa para orquestrar o banho de sangue mais ridículo da história recente do cinema. Gente, eu juro que gargalhei. Não pelo horror exageradamente B e gore, mas pela ruindade inacreditável da coisa.

É melhor ignorar isso e ouvir (separadamente do filme) a música de Thom Yorke, o vocalista do Radiohead, que assina a trilha sonora e sai dessa bagunça como o único sobrevivente.

VEJA O FILME:

Suspiria (2018)
Direção: Luca Guadagnino
Roteiro: David Kajganich
Elenco: Dakota Johnson, Chloë Grace Moretz, Lutz Ebersdorf, Mia Goth, Tilda Swinton
Duração: 2h32
Distribuição: PlayArte

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