Aladdin | Crítica

Otavio Almeida 28 de maio de 2019 1
Aladdin | Crítica

Entre a reprodução fiel e a liberdade criativa, adaptação de clássico da Disney vale pela extraordinária Naomi Scott

Por Otávio Almeida

Escrevi isso no texto sobre A Bela e a Fera, em 2017, e repito aqui: sua reação ao assistir à adaptação live-action de Aladdin (2019) depende do quanto você é fã de uma das animações mais amadas da Disney. Quem gosta do desenho de 1992, sabe cantar as músicas e chora em diversos momentos, incluindo a famosa cena do voo no tapete (e ela está lá) e vai sair do cinema achando que o filme foi feito sob encomenda para os fãs. Quem nunca viu (e é uma pessoa muito estranha por isso) ou não gosta é melhor passar longe.

Só que existem dois grupos à espera de um filme adaptado de uma animação: aqueles que querem ver praticamente uma reprodução quadro a quadro e os que exigem uma adaptação, embora eu acredite que este segundo grupo seja bem pequeno. Em cima disso, posso dizer que Aladdin, o live-action é 80% o que você viu no desenho. As principais mudanças envolvem dois personagens. Um deles é o Gênio imortalizado por Robin Williams e, aqui, reconstruído por Will Smith, que ganha muito, muito mais espaço na trama. Achei isso desnecessário, mas falo sobre esse ponto mais tarde.

A outra mudança significativa foi não foi apenas necessária, mas urgente. Diferente da indefesa e frágil princesa da animação de 1992, Jasmine é incrível, independente, inspiradora e não precisa de ninguém para fazer o que quer ou ser feliz. Vamos combinar que seria um retrocesso caracterizar a personagem da mesma forma que a conhecemos no desenho original (erro que aconteceu com o live-action de A Bela e a Fera).

Porém, isso tem suas consequências. Enquanto o filme se ajusta equivocadamente a Will Smith, não posso dizer o mesmo quanto a Naomi Scott. Uma pena, porque ela é, de longe, o melhor destaque da Aladdin. Além de sua presença imponente, Naomi tem a atuação mais visceral do filme e demonstra que tem um caminho promissor no cinema. Mas Aladdin sofre com a nova Jasmine por não adaptar as soluções do roteiro a sua personalidade. Por exemplo, a Disney não abdica do romance. Não que a princesa esteja proibida de escolher alguém, mas juntá-la com o protagonista não deveria ser uma obrigação já que ela tem o mundo pela frente. E, confie em mim, você vai acreditar que Naomi Scott tem tudo para conquistar o mundo.

Pense bem, a Jasmine do filme (não do desenho) é tão foda que não dá para comprar ela se apixonando por um banana como o Aladdin de Mena Massoud. Muito menos daria uma volta com ele num tapete voador para vislumbrar a whole new world.

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É por isso que a palavra “adaptação” deveria ser levada mais a sério. Não “cópia”. E a Disney erra ao tentar ligar essas duas vertentes. Mas na (nova) era dos produtores acima dos diretores em Hollywood, os filmes parecem remendos de ideias jogadas à mesa. O que não deveria ser normal, mas atualmente é. Mesmo que o resultado seja um Frankenstein sem alma e nada coerente na evolução da narrativa, a Disney sabe que o retorno financeiro e o lucro são objetivos garantidos antes da estreia nos cinemas, afinal são anos de tentativa, acerto e erro para arriscar nas marcas certas. E Aladdin é uma delas.

Isso eu até consigo entender. O que não consigo entender é o motivo do envolvimento do cineasta Guy Ritchie nessa produção, além da grana, claro. Goste ou não de seu cinema, temos aqui um diretor de assinatura facilmente reconhecível se curvando ao filme de produtor (ou estúdio). Ritchie pode ser fã de Aladdin, como muita gente, mas está mansinho como o tigre de Jasmine na condução do produto. A Disney até deixou Ritchie ser ele mesmo em alguns momentos, mas, cara, não combina em nada com um filme tão polido e bonitinho meter em certos segundos alguns fast forwards a la Os Trapalhões. Ou pequenas pausas com câmeras lentíssimas para, depois, liberar o movimento em alta velocidade (como na cena em que Aladdin é arremessado de uma janela). É constrangedor.

Não mais que o exagero de Will Smith (e não estou falando dos duvidosos efeitos visuais para criar o Gênio). Enquanto Robin Williams desaparece no personagem, o Gênio desaparece para dar lugar a… Will Smith. Vamos lá: há uma cena inicial desnecessária só para dar mais espaço ao ator que costuma recusar papéis em que se vê obrigado a dividir as atenções com outros grandes nomes. Aliás, ele é o primeiro do elenco a estampar os créditos de abertura quando sabemos que o Gênio é coadjuvante dessa história. E tem mais: a importância da conclusão do arco do personagem é diluída quando ouvimos repetidas vezes ele e Aladdin comentarem sobre seu provável destino. Como se não bastasse, o filme termina com um rap de Will Smith nos créditos finais. É muito Homens de Preto, não? Alguém precisa explicar ao astro que Aladdin não é um veículo para ele brilhar de forma soberana. Ou, então, chegou a hora da Disney comprar a marca Will Smith, assim como fez com Marvel, Lucasfilm, Fox etc.

Nem quero falar sobre o ator Marwan Kenzari, vai, que transformou o assustador Jafar em uma versão atual da patética múmia Imhotep daquele filme com Brendan Fraser. Só que Aladdin está bem distante de ser um desastre, pois diverte enquanto dura. Mas dias depois, aposto que, mesmo datado, o desenho de 92 ainda estará muito mais fresco em sua memória que o filme de Guy Ritchie. Talvez seja a versão mais fraca das adaptações de animações clássicas da Disney que explodiram depois de Mogli, de Jon Favreau. Embora tenham feito Cinderela e Malévola antes, o filme de Favreau é espetacular e deu o tom do que viria a seguir. Não por acaso, ainda é o mais bem resolvido em termos de desapego quanto à animação original.

VEJA O TRAILER:

Aladdin (2019)
Direção: Guy Ritchie
Roteiro: John August e Guy Ritchie
Elenco: Will Smith, Mena Massoud, Naomi Scott, Marwan Kenzari, Nasim Pedrad, Billy Magnussen, Alan Tudyk, Numan Acar, Navid Negahban
Duração: 2h08
Distribuição: Disney

One Comment »

  1. Kamila Azevedo 2 de junho de 2019 às 8:56 AM -

    Aladdin fez parte da minha infância, mas, curiosamente, não senti a mínima vontade de assistir a esta versão live action.

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