Rocketman | Crítica

Otavio Almeida 7 de junho de 2019 2
Rocketman | Crítica

Mergulho na imaginação de Elton John desconstrói a cinebiografia tradicional e transforma Taron Egerton em astro

Por Otávio Almeida

Como demoraram tanto para fazer um filme sobre Elton John? Talvez tenham esperado outras cinebiografias repetirem a mesma fórmula várias e várias vezes até entenderem que o astro precisava de um olhar fora da curva capaz de honrar seu legado. E o resultado dessa espera é Rocketman, “o filme do Elton John”, como será lembrado. Pode ter alguns clichês e seguir a velha e infalível estrutura do “gênero”, mas justifica suas opções ao contar a história do ponto de vista de Elton durante a rehab, onde ele relembra sua vida desde a infância até os primeiros anos de sucesso. Com essa desculpa, o filme mergulha em um universo paralelo e lúdico, cheio de números musicais intercalando memórias e a imaginação fértil do artista.

Foi uma bela jogada do diretor Dexter Fletcher e do roteirista Lee Hall fazer do filme uma terapia para desconstruir a biografia tradicional. Inclusive, justificando passagens rápidas de tempo, assim como os delírios. Diria que isso até explica o personagem unidimensional que é o empresário John Reid (Richard Madden, o Robb Stark de Game of Thrones) e o casamento de Elton com Renate (Celinde Schoenmaker) que dura cinco minutos. Biografia cometem esses erros, mas aqui podemos dizer que são passagens da memória dele.

O que mais gosto em Rocketman é que o filme não quer agradar ninguém. Elton tem um repertório maravilhoso, mas não temos um greatest hits jogado na tela para os fãs. Na maioria das vezes, letras e significados são devidamente inseridos para servir à narrativa. Compõem diálogos, explicam olhares e, de vez em quando, acabam no palco. Seja de forma contida e na abordagem mais real que esse filme é capaz de aplicar, por exemplo, quando vemos o surgimento de Your Song, uma de suas canções mais icônicas, ou quando o filme pira na própria visão diferenciada (abençoada?) de Elton John. O exemplo máximo é seu primeiro show nos EUA, quando ele deixa o público literalmente flutuando ao cantar Crocodile Rock. Sim, são minhas cenas favoritas de Rocketman.

Entre lembranças reais e oníricas, o filme convida você a entrar na mente de um gênio da música. Elton queria encher o mundo de cores e alegria para esconder o preto e branco de sua vida pessoal, especialmente em relação aos pais toscos, que deixaram a ele o ensinamento cruel de que era impossível amar e ser amado. Sabemos muito bem que a realidade em que vivemos não tem trilha sonora nem é um musical clássico de Hollywood com Gene Kelly cantando na chuva. É um mundo de sonhos necessário, mas para onde todos nós fugimos, geralmente, para ignorar as injustiças e decepções do dia a dia. O segredo para não cair de volta no abismo da realidade e se machucar duas vezes mais não é ignorar traumas, mas superá-los. Não é buscar amor nos outros, mas em si próprio. Quem não se identifica com isso? Não à toa, Elton começa o filme de vermelho (no inferno) e termina de branco (no céu).

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Entre dores, quedas, euforias e redenções, Elton John ganha o intérprete perfeito em Taron Egerton. Este jovem ator que surgiu para o mundo em Kingsman encontra aqui o filme ideal para ser alçado à justíssima condição de astro. Mais que isso, o reconhecimento como um ator de verdade, abraçando de corpo e alma o objetivo de interpretar Elton John (e não o imitar) nas expressões corporais, olhares e figurinos extravagantes (um trabalho estupendo do filme). Mas não exatamente na voz. E qual é o problema quanto a isso?

Taron Egerton é um ator e não precisa copiar sua voz, mas tem a coragem de dar a cara à tapa ao cantar entre a sensibilidade e a agressividade habituais de Elton suas versões particulares de músicas que nos ensinaram a viver e a sonhar. E ele se saiu muito bem. Taron suou a camisa, olhou de dentro para fora, jogou-se em paixões e cicatrizes, tentou de tudo para honrar o ídolo e entregou um trabalho completo para homenagear um dos artistas mais completos que andaram pela Terra e viajaram ao espaço.

Também destaco a performance de Jamie Bell, como Bernie Taupin, o grande amigo de Elton. O ator está em melhor momento desde Billy Elliot, produção que o revelou para o mundo. Mas é Taron Egerton que dá legitimidade às intenções do filme e, como consequência, todos os outros atores reagem à sua explosão. Da mesma forma que ficamos num show de Elton John, que deve estar orgulhoso do menino. E do filme. Aliás, Elton esteve presente do início ao fim da produção para garantir que sua vida não fosse retratada em versão censura livre pelo cinema.

Só não precisava daqueles famosos textos explicativos nos segundos finais de cinebiografias. Reparem que isso não é comum na obra de Martin Scorsese, que talvez seja o cineasta mais fora da curva ao dirigir cinebiografias. Vide Touro Indomável, O Aviador e O Lobo de Wall Street, que encerram sem esses malditos textos que deixam obras datadas mais cedo ou mais tarde. Só que, OK, Rocketman foi uma tentativa louvável de oferecer algo menos tradicional. Não estou pedindo um Scorsese, vai. Mas podem prestar atenção no esforço de Dexter Fletcher e Taron Egerton para que a tendência seja sair da mesmice.

VEJA O TRAILER:

Rocketman (2019)
Direção: Dexter Fletcher
Roteiro: Lee Hall
Elenco: Taron Egerton, Jamie Bell, Richard Madden, Bryce Dallas Howard, Gemma Jones, Steven Mackintosh, Tom Bennett, Matthew Illesley, Kit Conor, Charlie Rowe, Tate Donovan, Celinde Schoenmaker
Duração: 2h
Distribuição: Paramount

2 Comentários »

  1. Paulo Ricardo 7 de junho de 2019 às 7:54 PM -

    Perfeita sua análise! É um filme arrebatador e que merece ser lembrado na temporada de premiações. É pedir muito por uma nomeação ao Oscar para Taron Egerton?

  2. Kamila Azevedo 9 de junho de 2019 às 10:29 AM -

    Eu achei “Rocketman” um filme maravilhoso. Gostei muito da maneira como a música serviu à narrativa, sendo inserida para ilustrar os diversos momentos e sentimentos da vida de Elton John. Taron Egerton está sensacional no papel principal, incluindo nos vocais excelentes.

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