Toy Story 4 | Crítica

Otavio Almeida 22 de junho de 2019 2
Toy Story 4 | Crítica

É o mais fraco de todos e um milagre que, mesmo assim, seja bom

Por Otávio Almeida

Toy Story 1, 2 e 3 não são apenas excelentes. São alguns dos melhores filmes já feitos e podemos dizer que entregam com perfeição um começo, um meio e um fim como poucas trilogias foram capazes. E o que é Toy Story 4? Um novo final? Um novo começo? Precisava mesmo disso? Não ficou claro. Mas tenho certeza que não está à altura dos anteriores ao mesmo tempo em que é um episódio muito bom. É tão relevante quanto desnecessário. Uma delícia de assistir, enquanto é uma leve decepção. É complementar e uma perda de tempo. Mixed feelings bizarro, não?

Mas acredito que, assim como eu, todos aqui amam Woody, Buzz & Cia. Você sabe como funciona: é ótimo rever velhos amigos mesmo quando estamos fazendo o rolê de sempre e sem muita novidade. E é exatamente o que senti com Toy Story 4, um pot-pourri dos melhores momentos e conflitos da (antes considerada) trilogia. Isso é bom e ruim, porque satisfaz quem gosta da saga, mas também é o primeiro dos quatro filmes a não entregar um roteiro desenvolvendo dramas e obstáculos inéditos.

O único ponto de Toy Story 4 diferente de tudo que vimos desde 1995 é o seu final. Mas até chegar lá, parece que estamos vendo uma repetição. Divertida, emocionante, mas ainda uma repetição. E fica a pergunta: esse final foi feito para (de novo) encerrar a série pela segunda vez ou para indicar sua reinvenção? Enfim, o tempo se encarregará de responder essa questão. Mas garanto que esse final arrancará lágrimas dos fãs; não na mesma quantidade derramada em Toy Story 3, mas vai. Pode não ser o que você queria, porém é honesto com toda a série (olha os mixed feelings novamente) e demonstra o esforço de Toy Story 4 em, no mínimo, honrar os anteriores é digno de reconhecimento.

Até porque era impossível não tocar de novo em pontos como aceitação, abandono, lealdade, e existencialismo, amizade e a busca pelo nosso verdadeiro eu e nosso lugar no mundo. Tudo isso foi e explorado de alguma forma em Toy Story 1, 2 e 3. Inclusive, temos mais de um déja vù distribuidos em situações que parecem novas. Mas não são: só para citar alguns, conhecemos Garfinho, um brinquedo que não sabe que é um brinquedo (Toy Story 1), Woody é tentado a seguir sua vida com outros brinquedos e deixar sua criança para trás (Toy Story 2), e a fuga do antiquário remete à ideia da fuga da creche (Toy Story 3).

Mas não há como negar que tudo é tão bem amarrado que a história flui com maestria. Mesmo com seus repetecos, Toy Story 4 é mágico e envolvente do início ao fim com um entretenimento de primeira, coisa que Hollywood e a própria Pixar andam esquecendo como se faz. E é um milagre que esse filme dê certo. Eu mesmo estou indo contra todas as minhas crenças de como defino o bom cinema. Ou, melhor, uma boa continuação. E sei que não é girando em torno dos mesmos temas e conflitos. Mas Toy Story 4 é uma exceção.

Toy Story 4_2

Talvez por causa da coragem de sua conclusão, que dá legitimidade a uma ideia trabalhada ao longo do filme. É uma última decisão inesperada, mas que faz todo o sentido depois de tantos anos acompanhando esses brinquedos.

Principalmente, porque costumamos falar em Woody e Buzz. Mas, no fundo, Toy Story sempre foi sobre o caubói. Woody dedicou sua vida à Andy e aos amigos; nunca a si próprio. Em Toy Story 4, pela primeira vez, veremos Woody fazendo algo para ele mesmo. Quando o filme termina, entendemos que ele representa pessoas que abdicam de sonhos e vontades para cuidar dos outros e, num piscar de olhos, veem a vida passando num segundo. Toy Story 4 é sobre quem ainda não encontrou seu lugar no mundo. É sobre amadurecimento. E se a última cena não apresentasse essa ousadia, a ideia discutida neste parágrafo teria sido esquecida e o filme teria sido mais do mesmo. Mas precisamos esperar até os créditos rolarem para ter certeza.

Além disso, gostei como apresentaram novos personagens, como o dublê Duke Caboom (voz de Keanu Reeves) e a dupla Patinho e Coelhinho (Keegan-Michael Key e Jordan Peele). Também é interessante ver a indefesa Betty surgindo como uma jedi após cerca de sete anos vivendo nas ruas. Mas é o tal do Garfinho (voz de Tony Hale) que rouba a cena. Um brinquedo criado por qualquer criança no mundo, que costuma ser mais valioso que qualquer produto caríssimo vendido nas lojas. Ironicamente é o que deve acontecer com o Garfinho, que deve ser vendido a mais de R$ 100,00 nas megastores. Mas voltando ao filme, o personagem se vê como lixo, descartável e recusa sua existência. Se não fosse por Woody, ficaria para sempre numa lata de lixo. Ou seja, a Pixar toca sutilmente no tema do suicídio, mas não se preocupe, porque a abordagem é leve e divertida por incrível que pareça, porque estamos falando de um garfo tosco de plástico e não de uma pessoa.

Só que, enquanto temos ótimos personagens principais com muito tempo em cena, incluindo a boneca Gaby Gaby (voz de Christina Hendricks) e seus assustadores bonecos ajudantes, Rex, Cabeça de Batata, Slink e até Jessie são descartáveis para a trama. E nunca Toy Story tratou seus coadjuvantes de maneira tão pobre. Enfim, não é problema meu, mas dos roteiristas: não importa se tem muito personagem neste filme; encontrem um propósito para Jessie, Rex, Cabeça de Batata e Slink. Beleza?

Mas, OK, Toy Story 4 consegue dar certo. Resta saber se foi uma conclusão mesmo (de novo) ou se foi um recomeço. Mais cedo ou mais tarde, chegará a hora de tomar uma decisão, porque o antiquário pode ter uma estante reservada para Toy Story 5.

VEJA O TRAILER:

Toy Story 4 (2019)
Direção: Josh Cooley
Roteiro: Andrew Stanton e Stephany Folsom
Com as vozes de Tom Hanks, Tim Allen, Joan Cusack, Annie Potts, Madeleine McGraw, Wallace Shawn, John Ratzenberg, Blake Clark, Tony Hale, Keegan Michael-Key, Jordan Peele, Keanu Reeves, Christina Hendricks, Carl Weathers, Patricia Arquette, Mel Brooks
Duração: 1h40
Distribuição: Disney

2 Comentários »

  1. Kamila Azevedo 30 de junho de 2019 às 10:13 AM -

    Acho que “Toy Story 4″ é uma continuação desnecessária. O “Toy Story 3″ terminou de uma forma tão bela… Pra que comprometer isso com um quarto filme???

  2. Otavio Almeida 18 de julho de 2019 às 7:04 PM -

    Desnecessário mesmo, Kamila. Também acho que o final perfeito veio no 3. Bjs

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