1999, o melhor ano dos últimos 20 anos

Otavio Almeida 31 de julho de 2019 0
1999, o melhor ano dos últimos 20 anos

Não precisamos demorar muito para reconhecer um novo filme com potencial para ser grande, marcante, influente ou clássico. É raro, mas eles aparecem quase todos os anos. Muitas vezes, temos um ou dois por temporada. Três, vai. Às vezes, zero. Porém, logo após o fim da primeira sessão e a consequente digestão do que acabamos de ver, acho importante apontar aquele que é um em um milhão, embora esse potencial possa desaparecer em alguns anos, afinal somos humanos e também erramos. Mas o tempo não erra. Ele é implacável como o maior crítico de todos. E, hoje, por exemplo, posso afirmar sem medo de errar que 1999 foi a melhor safra de Hollywood dos últimos 20 anos.

Foi a temporada que nos deu filmes como Magnolia, Matrix, O Sexto Sentido, Quero Ser John Malkovich, À Espera de um Milagre, O Informante, Eleição, As Virgens Suicidas, Buena Vista Social Club, Tudo Sobre Minha Mãe, Clube da Luta, Beleza Americana, Toy Story 2, entre outros.

Você pode discordar e citar outro ano nesse período com tantos filmes excelentes e influentes. Talvez 2002. Mas terá dificuldade em encontrar uma temporada comparável nas últimas duas décadas com uma explosão de talentosos diretores não apenas marcando época, mas demonstrando um futuro promissor para a indústria.

Teríamos de voltar à década de 70 para tentar igualar. Foi quando o cinema foi salvo por cineastas como Martin Scorsese, Steven Spielberg, Francis Ford Coppola, Brian De Palma, George Lucas e William Friedkin. Em 99, mesmo que tenham assinado filmes antes (e outros não), Paul Thomas Anderson, Spike Jonze, David Fincher, Sofia Coppola, Alexander Payne, M. Night Shyamalan, Sam Mendes, Michael Mann, Pedro Almodóvar e a Pixar se consagraram.

Com Magnolia e Clube de Luta, Paul Thomas Anderson e David Fincher mostraram, respectivamente, que Boogie Nights e Seven não foram obras do acaso. Descobrimos as irmãs Wachowski e Matrix abriu novos horizontes para o cinema e desbravou os limites dos efeitos visuais, que viraram mais uma página.

Michael Mann entregou quatro anos antes o genial Fogo Contra Fogo, mas foi com O Informante que ganhou o reconhecimento da Academia. Foi a última grande atuação de Al Pacino e o filme que provou o quanto Russell Crowe pode ser um ótimo ator, emplacando a primeira de três indicações consecutivas ao Oscar (ganhando no ano seguinte por Gladiador e marcando seu nome entre os cinco finalistas em 2001 com Uma Mente Brilhante). E peço desculpas a Spotlight, The Post e Boa Noite e Boa Sorte, mas O Informante é meu filme favorito sobre jornalismo de 99 para cá.

Beleza Americana foi o vencedor do Oscar de Melhor Filme e jornalistas de cinema tiveram a ousadia de citar Orson Welles como comparação para dimensionar a importância da estreia de Sam Mendes, até então diretor nos palcos ingleses. Ele fez alguns filmes bons depois disso, mas o melhor desde Beleza Americana foi inesperado, afinal Sam Mendes estava saindo de sua zona de conforto para se aventurar com um blockbuster de respeito, 007: Operação Skyfall, o longa mais sensacional da franquia em muito, muito tempo.

Naquele ano, Almodóvar era o nome mais conhecido da lista, mas Tudo Sobre Minha Mãe o deixou perto da unanimidade. Foi o filme que rendeu o primeiro Oscar de sua carreira; e o outro viria três anos depois com o ainda melhor Fale Com Ela.

M. Night Shyamalan espantou o mundo com O Sexto Sentido e deu um fôlego tão forte aos filmes de terror que dura até hoje. Sem falar que Shyamalan fez Hollywood investir como nunca antes no truque do final surpresa (até ele viciou nisso). Errou demais na carreira nos anos seguintes, mas acho que ele está voltando aos pouquinhos.

Já Spike Jonze era o cara dos videoclipes mais fantásticos da época até fazer o louco Quero Ser John Malkovich, escrito por outra revelação daquele ano, Charlie Kaufmann. Ambos mostraram depois que conseguiriam viver muito bem juntos ou separados. Unindo forças, Jonze e Kaufmann ainda assinaram Adaptação. Separados, ganharam Oscars de Melhor Roteiro Original – Kaufmann por Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças e Jonze por Ela.

Antes de Encontros e Desencontros, de 2003, Sofia Coppola deixou de ser conhecida como a péssima atriz de O Poderoso Chefão: Parte III e revelou seu talento como diretora e roteirista em As Virgens Suicidas. 99 também foi o ano em que Alexander Payne dirigiu Eleição, talvez seu melhor filme. E olha que depois ele ainda assino Sideways, As Confissões de Schmidt e Os Descendentes.

E a Pixar? Bom, o estúdio havia revolucionado Hollywood com Toy Story, em 1995. Mas depois de um follow up OK com Vida de Inseto, suas mentes geniais decidiram bancar uma arriscada sequência em Toy Story 2, que comprovou a força do estúdio em ditar as regras para uma nova era digital na indústria e, claro, um padrão para as animações.

Falei de Brad Bird e seu O Gigante de Ferro? A animação também completa 20 anos em 2019. Bird também dirigiu Os Incríveis 1 e 2, além de Missão: Impossível – Protocolo Fantasma.

Além disso, 1999 foi o ano do último filme de Stanley Kubrick, De Olhos Bem Fechados.

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