Infiltrado na Klan | Crítica

Otavio Almeida 8 de julho de 2019 2
Infiltrado na Klan | Crítica

A porrada de Spike Lee nos estômagos (e nos sacos) dos racistas

Por Otávio Almeida

Que porrada, Spike Lee! Tenho certeza que os racistas sentiram essa, porque Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman, 2018) reafirma o diretor como um dos maiores mestres do cinema. Tanto pelo domínio da linguagem quanto pelo discurso relevante e envolvente para contar uma história tão absurda quanto real, que alterna entre o deboche e o trágico com uma sutileza que poucos colegas de profissão conseguem transitar com tamanha eficiência.

Filmaço obrigatório não somente para quem ama cinema e os quase extintos longas policiais. Mas também por exaltar o ato de extrema bravura do tira Ron Stallworth, que nem todos conheciam, e colocar no devido lugar quem acha que há exagero e mimimi nas discussões atuais sobre racismo.

Ron Stallworth (John David Washington) é um herói. Policial negro nos anos 70, tentando encontrar seu lugar num país que vive um momento caótico de polarização, intolerância e violência, ele vê a oportunidade de mostrar o quanto é capaz de exercer a profissão aos colegas e chefes brancos quando (pasmem) se depara com um anúncio no jornal da Ku Klux Klan convocando novos integrantes. Ele liga para o número em destaque no jornal e se passa por um simpatizante branco querendo se juntar à causa. Mas, calma, como em nome de Deus ele se apresentará aos homens da organização?

Bom, nesse ponto, ele conta com a ajuda do parceiro na delegacia, Flip (Adam Driver), obviamente branco, mas judeu e totalmente alienado quanto à sua herança e à luta e sacrifício de seus antepassados. Um retrato de muitas pessoas que não fazem nada para melhorar o mundo e se preocupam apenas com seus próprios problemas. Mas Flip entra na missão e finge ser Ron Stallworth na presença dos membros da Klan. Só que para ele, trata-se de trabalho. Para Ron é uma cruzada.

Porém, diante de tanto ódio, Flip não sairá o mesmo dessa empreitada. E é uma atuação brilhante de Adam Driver, movido sobretudo pelo olhar denunciando sua transformação. Passa a respeitar mais a história dos judeus, a sentir na pele sua responsabilidade e a entender profundamente o que motiva Ron Stallworth.

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Uma parada aqui: ao conhecer a sinopse de Infiltrado na Klan, podemos imaginar que, de tão absurdo, o mesmo roteiro se adaptaria facilmente à comédia. Mas seria uma tentação equivocada, porque esse assunto é muito, muito sério. Isso não quer dizer que o gênio Spike Lee não tire sarro de algumas situações, afinal seria impossível diante de tanta barbaridade. E, cá entre nós, fazer a Klan de idiota (e é o que eles sempre foram) é uma jogada irresistível e bastante sensata.

Lee está na ativa desde o fim dos anos 80, e com o grande Denzel Washington como porta-voz e ator favorito da fase inicial de sua carreira. Agora, ele dirige o filho do homem, John David Washington. E o rapaz é um achado. O jovem ator é capaz de transitar entre o humor e o drama com extrema facilidade e equilibra personalidade e atitudes com sua segunda metade, Adam Driver. A dupla é icônica desde já e adoraria ver esses dois atuando juntos novamente.

E tem essa menina Laura Harrier, como Patrice, que é uma coisa. Que atriz! Sei que ela esteve em Homem-Aranha: De Volta ao Lar, mas nem me lembro dela ali, porque sua porta de entrada é definitivamente Infiltrado na Klan. Espero que Hollywood fique de olho nela.

Destaque também para Topher Grace no melhor momento de sua carreira desde That ‘70s Show. Como o grão-mestre da Klan, ele surpreende com uma fala tranquila, buscando a serenidade de quem tem a completa noção de que está fazendo a coisa certa e tentando melhorar os EUA e o mundo. De vez em quando, até veste roupas claras. Ou seja, o diabo em pessoa, gente! Não se deixem enganar.

Reparem como Spike Lee divide a tela nos diálogos entre Washington e Grace. E com câmeras inclinadas para enfatizar os opostos. Esteticamente, Infiltrado na Klan ainda acerta não somente na caracterização dos anos 70 em discotecas, bares, ruas, protestos, Panteras Negras, reuniões da Klan, policiais, civis, figurinos, penteados, o jeito de andar, falar; tudo é orquestrado de forma minuciosa. Mas é na reprodução do estilo de cinema que faziam na época que Spike Lee foi magistral. Infiltrado na Klan parece um filme policial da Hollywood da década de 70 no que consiste em direção, atuações, fotografia, montagem e trilha sonora.

O roteiro vencedor do Oscar foi adaptado do livro do próprio Ron Stallworth. Mas para não deixar aquele gostinho de missão cumprida no final, Spike Lee faz questão de mostrar que essa história ainda não terminou; então jamais poderia fechar o filme de maneira feliz. Com cenas reais dos dias de hoje, incluindo a ilustre “participação” de Donald Trump, o cineasta encerra Infiltrado na Klan provando ou esfregando na cara de quem não quer ver o quanto o racismo continua. Na verdade, nunca deixou de existir. E qualquer semelhança com o Brasil de Bolsonaro não é mera coincidência. Acredite: se você estava indiferente ou se divertiu de alguma forma até esse momento de Infiltrado na Klan, os últimos minutos dão um tapa na cara. E quando você pensa que acabou, Spike Lee manda aquele soco bem dado no estômago.

VEJA O TRAILER:

Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman, 2018)
Direção: Spike Lee
Roteiro: Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Wilmott e Spike Lee
Elenco: John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier, Corey Hawkins, Topher Grace, Isiah Whitlock Jr., Ryan Eggold, Jasper Pääkkönen, Alec Baldwin, Harry Belafonte e Paul Walter Hauser
Duração: 2h15
Distribuição: Universal

2 Comentários »

  1. Paulo Ricardo 8 de agosto de 2019 às 6:39 PM -

    Perfeita sua análise! Esse é o legítimo vencedor do Oscar de Melhor Filme.Admiro o cinema de Spike Lee e “Infiltrado na Klan” está no patamar de “Faça a coisa certa”,a última noite (meu favorito) e Malcolm x

  2. Otavio Almeida 9 de agosto de 2019 às 2:25 PM -

    Paulo, “A Última Noite” também é meu favorito do Spike Lee. Mas nem ligo muito se “Infiltrado na Klan” ganhou um Oscar só. Acho que o filme será lembrado pelos próprios méritos. Abs!

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