O Rei Leão | Crítica

Otavio Almeida 21 de julho de 2019 2
O Rei Leão | Crítica

QUEM VÊ CARA, NÃO VÊ CORAÇÃO

Por Otávio Almeida

A obsessão da Disney em realizar live-actions de suas animações chega ao clássico dos clássicos do estúdio nos últimos 25 anos, O Rei Leão (2019).

A escolha de Jon Favreau para dirigir é óbvia, afinal ele fez um milagre com Mogli, O Menino Lobo. Não somente elevando a barra dos efeitos visuais, mas ADAPTANDO um desenho que jamais poderia ser reproduzido quadro a quadro, pois assisti-lo hoje em dia resulta numa impressão inevitável de que estamos diantes de uma obra de are antiga, datada, ultrapassada. Mogli foi devidamente atualizado (melhorado?) para os tempos modernos e o que se vê na tela é um assombro que convence. Primeiro pela energia imposta ao digital para dar vida tanto a animais falantes quanto a locações 100% reais. Gente, não precisamos mais usar animais de verdade. Acabou! E os estúdios, agora, podem economizar com as habituais pesquisas e escolha de locações reais. Em segundo lugar, a história envolve não por se render à nostalgia, mas por parecer estranhamente nova. De novo: houve uma adaptação.

O que nos leva a O Rei Leão. Como é um daqueles filmes que permanecem atuais mesmo um quarto de século depois (e, por isso, deveria ser deixado bem quietinho), somente a ideia de mexer no roteiro ou em suas cenas irretocáveis soa como pecado. Em outras palavras, O Rei Leão de 1994 é perfeito e um dos melhores filmes de todos os tempos. Vai discordar?

Então, mesmo com Jon Favreau à frente, o live-action não seria louco de mudar algo que, assim como a Mona Lisa (e ao contrário da datada animação de Mogli), não precisa de pinceladas a mais nem a menos. Enfim, basta seguir o roteiro e reproduzir as cenas quase que quadro a quadro, como o cineasta Gus Van Sant fez no remake de Psicose. Certo? Errado! Porque a palavra é essa mesma: remake.

E remakes só têm chance de funcionar quando refazem aquilo que ainda pode melhorado ou, no mínimo, permitem novas leituras, quando a fonte original é um livro, uma peça ou mesmo um filme ok (não um clássico) e, às vezes, saído de outra cultura. Clássicos ganharam esse selo porque sobrevivem ao tempo e deixam um legado. Estão aí até hoje para serem vistos, revistos, descobertos e redescobertos por velhas e novas gerações.

Restou a Jon Favreau colocar toda sua energia à serviço da tecnologia. O cara é bom no que faz, precisamos levar em conta que três anos se passaram entre Mogli e O Rei Leão, e a diferença é vista em cada frame. O nível alcançado pelo fotorrealismo é de cair o queixo e fica a impressão que Favreau encontrou locações realmente idênticas às que vimos na animação. Mas o espanto vem da informação de que é tudo CGI, com exceção de uma única cena que Favreau não quer entregar. Isso quer dizer que O Rei Leão atingiu o topo nesse sentido e, agora, o desafio é superá-lo.

O Rei Leão_2

Por outro lado, embora os animais sejam realistas demais, a seriedade pretendida por seus realizadores prejudica um pouco o resultado. Nem vou entrar na onda da reclamação geral de que os animais não apresentam expressões humanas como no desenho. Não é que falta alma, porque animais têm suas expressões e elas estão lá. Eu prefiro cutucar nessa observação: em Babe, os animais falam, porém ninguém esperneou. Em O Rei Leão, eles ainda cantam. Não, não é proibido cantar se eles podem falar. O problema é que em Babe ou Mogli existem atores de carne e osso interagindo e validando essa proposta. Além disso, Babe é contado como uma fábula. O Rei Leão não. É para ser real. E aí, meus caros, a morte é horrível, porque animais não falam e, muito menos, cantam. O que deixa claro para mim que a história de O Rei Leão, como a conhecemos, não nasceu para ser tratada como a vida real. Até porque esqueceram as bolas dos leões. Certo, Disney?

Em 1994, ela surgiu com base na jornada do herói, e em Hamlet, William Shakespeare, e Kimba, o Leão Branco, de Osamu Tezuka. Tudo bem; isso é natural e saudável, porque é um novo olhar; uma adaptação. Como Pantera Negra, um filme de super-herói que recebeu o tratamento O Rei Leão em sua estrutura de roteiro. Logo, também é Hamlet. Já a versão de Jon Favreu não deixará qualquer outro legado que não seja a evolução dos efeitos digitais e, sem brincadeira, isso não é pouca coisa. É um achievement e tanto.

Mas causa uma certa estranheza ver os animais em cenas dramáticas. Não se preocupe com suas reações nos momentos musicais, porque Favreau acabou com as coreografias que ficariam exageradíssimas quando o objetivo é ser real. Então, nada de elefantes e avestruzes em cima uns dos outros com Simba cantando lá no alto. Os bichinhos apenas andam e… cantam. Eu entendo a opção, mas se é para buscar realismo, gente, ninguém me engana que animais cantam.

Fãs ardorosos dirão que O Rei Leão não é ctrl C + ctrl V da animação. De fato, entre uma coisa ou outra, um ratinho no começo anda mais tempo que o esperado antes de ser pego por Scar, as leoas dão porrada no final com mais destaque, Pumba peida mais que no original e aparece um cocô gigante lá pelas tantas (!). Juro. E não lembro disso na versão de 1994.

O live-action de O Rei Leão pode agradar porque o original tem uma história extraordinária.  Mas… precisava? Só lamento que uma nova geração vá se apegar a esse filme e não à animação. Podem até gostar bastante e, depois disso, não tenham paciência para ver o desenho, mas duvido que a sensação positiva seja tão grandiosa e duradoura quanto aquela que um público mais velho sentiu ao sair dos cinemas em 1994.

VEJA O TRAILER:

O Rei Leão (The Lion King, 2019)
Direção: Jon Favreau
Roteiro: Jeff Nathanson
Elenco: Donald Glover, Beyoncé Knowles-Carter, Chiwetel Ejiofor, James Earl Jones, Seth Rogen, Billy Eichner, Keegan Michael Key, Alfred Woodard, John Kani, JD McCrary, Shahadi Wright Joseph, John Oliver, Florence Kasumba
Duração: 1h56
Distribuição: Disney

2 Comments »

  1. Kamila Azevedo 22 de julho de 2019 às 9:59 AM -

    “O Rei Leão” é um clássico e acho muito interessante essa abordagem da Disney em refilmar os seus clássicos no formato live action. Ainda não assistir, mas pretendo conferir!

  2. Otavio Almeida 22 de julho de 2019 às 2:17 PM -

    Estou curioso para ver MULAN, porque devem fazer algumas mudanças significativas em relação à animação por causa da importância do mercado chinês para Hollywood. Bjs

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