Rutger Hauer e as lágrimas na chuva

Otavio Almeida 24 de julho de 2019 0
Rutger Hauer e as lágrimas na chuva

“I’ve seen things you people wouldn’t believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the dark near the Tannhäuser Gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Time to die.”

Como o replicante Roy Batty, o ator holandês Rutger Hauer entregou um dos monólogos mais icônicos da história do cinema. No clímax do clássico eterno Blade Runner, ele salva inesperadamente a vida de seu perseguidor implacável (Deckard) imortalizado pelo grande Harrison Ford. Na sequência, Roy faz esse discurso memorável enquanto lágrimas se misturam à chuva. No fim, ele só queria o que todos nós queremos: mais tempo de vida.

Mas Roy morre bem ali, na frente de Deckard, e a chuva para, a noite se vai e a pomba que ele segurava voa livre em direção ao céu que se abre.

Não viu Blade Runner? A culpa não é minha pelo spoiler, afinal você teve tempo para se esbaldar com essa maravilha que está disponível desde 1982. Quem viu, sabe do que estou falando, porque Blade Runner costuma ser lembrado diversas vezes pela sua excelência visual, mas essa cena é para os sentidos, meus amigos. E nunca teria dado certo sem Rutger Hauer.

O ator leu o roteiro e simplesmente improvisou essa fala. Costumo dizer que o filme pertence ao diretor até seu lançamento nos cinemas. Depois disso, pertence ao público. Mas, no fundo, criação pode ser um processo colaborativo e Blade Runner é prova disso. Para atuar no filme de Ridley Scott, Rutger Hauer recusou um papel em O Barco: Inferno no Mar, de Wolfgang Petersen. Mas se tivesse aceitado, teríamos esse monólogo, mas não da forma como o conhecemos.

É incrível como as coisas são. Por exemplo, Rutger Hauer nos deixou na última sexta-feira do mesmo ano em que Roy Batty se foi. Citamos Blade Runner, claro, mas ele fez outros filmes importantes, como O Feitiço de Áquila, fantasia de Richard Donner com Michelle Pfeiffer e Matthew Broderick que marcou uma geração. Da mesma maneira que o thriller A Morte Pede Carona, de Robert Harmon, Fúria Cega, de Phillip Noyce, Falcões da Noite, de Bruce Malmuth (contracenando com Sylvester Stallone e Billy Dee Williams), e Conquista Sangrenta, de Paul Verhoeven.  Esteve em Buffy também. Mas Hauer teve uma fase de ótimas produções toscas, como O Destruidor, de Tony Maylam, e Aliança Mortal, de Lewis Teague.

Desde a década passada, voltou à ativa com filmes, digamos, mais visados ou acessíveis. Entre eles, Confissões de Uma Mente Perigosa, de George Clooney, Sin City, de Robert Rodriguez e Frank Miller, Batman Begins, de Christopher Nolan, e Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, de Luc Besson, além da série True Blood.

Mas sua imagem estará sempre ligada a Blade Runner, porque quem é lembrado, vive.

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