Era uma Vez em… Hollywood | Crítica

Otavio Almeida 19 de agosto de 2019 7
Era uma Vez em… Hollywood | Crítica

Mais pessoal e menos fã, Quentin Tarantino entrega um sonho de filme e nunca foi tão maduro em sua eterna declaração de amor ao cinema

Por Otávio Almeida

Em 1969, a atriz Sharon Tate foi brutalmente assassinada em sua casa, localizada no topo da elite da badalada Cielo Drive, em Los Angeles, por alguns integrantes da seita de Charles Manson. Ela estava grávida de oito meses e era casada com o cineasta Roman Polanski, que estava na Europa naquele momento que colocou um ponto final na inocência norte-americana de uma época que ficou para sempre no passado.

Não para Quentin Tarantino, que faz o que pode para resgatar o clima, a ambientação, as cores, os aromas, os fedores, o glamour, as dores, o calor, a paz e o amor de um tempo marcante em sua vida e transmitir toda essa sensação ao espectador por quase três horas de um sonho que está no título, Era uma Vez em… Hollywood (Once Upon a Time in… Hollywood, 2019). Só ele poderia fazer este filme ser essencialmente sobre isso. Nas mãos de outro cineasta, a chance seria imensa de ficar chato, pretensioso, irresponsável ou arrogante.

Mas e Sharon Tate? Bom, ela está lá. Mas ainda bem que existem autores como Tarantino, que não seguem a fórmula básica, desgastada e que já estão chatas e repetitivas pra caramba das cinebiografias de artistas de segmentos variados. Não tem nem mesmo uma tradicional overdose. Mal vemos drogas e nenhuma cena de sexo. Sim, tem um baseado aqui e ali e um cigarro especial no final. Mas essa é a Hollywood dos sonhos de Tarantino, onde Sharon Tate é uma imagem intocável, reluzente, positiva, colorida, mas que quase ninguém nota, afinal caminha tranquilamente pelas ruas de Los Angeles como se fosse uma santa, uma divindade, um símbolo da inocência que Tarantino quer trazer de volta em seu filme. Sua câmera guiada pelo mestre Robert Richardson, vencedor do Oscar de Melhor Fotografia por JFK, O Aviador e A Invenção de Hugo Cabret, parece emular um filme antigo, quando estrelas eram deusas, e suas lentes estão sempre apaixonadas por Margot Robbie, que empresta a Sharon Tate uma aura angelical que pode fazer você esquecer momentaneamente qual foi seu cruel destino. E esse tratamento dado por Tarantino e Margot à personagem só funciona porque conhecemos a mulher real.

Só que Era uma Vez em… Hollywood não é exatamente sobre Sharon Tate. No universo cinematográfico de Quentin Tarantino, ela é vizinha do ator decadente Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), que vê as chances de agarrar grandes papéis diminuírem rapidamente. Seu amigo inseparável é Cliff Booth (Brad Pitt), dublê do ator dentro e fora das telas, pois cuida de todos os problemas da rotina de Rick Dalton, inclusive consertar uma antena quebrada. Talvez Cliff Booth seja o melhor personagem do filme e uma das maiores atuações da carreira de Brad Pitt. Rick pode exagerar nos pedidos que faz a Cliff, mas o dublê nunca reclama. Pelo contrário, passa o filme inteiro com um sorriso no rosto. Mesmo quando enfrenta situações tensas ou deixa o amigo mimado em sua mansão e, na sequência, atravessa a cidade inteira para dormir num trailer em que sua única companhia é a cachorrinha mais incrível do cinema recente. DiCaprio está excelente como sempre, mas Pitt desaparece para entregar esse parceiro boa praça, que tem uma peculiaridade. Há um rumor sobre Cliff ter matado a própria mulher e jamais ter ido à prisão por isso. Então, como podemos gostar dele? Eu diria que Tarantino trata o assunto exatamente como um rumor, a boa e velha fofoca que o mundo adora agregar à vida dos artistas; como se precisássemos disso para aproximar mitos da nossa realidade falível. Mas existem o outro lado e Tarantino deixa para você interpretar. Vejo ainda como alusão à morte de Natalie Wood em um barco onde estava seu marido, Robert Wagner, mas nunca ninguém provou sua culpa. Ou seria uma mea culpa quanto aos erros do próprio Tarantino com Uma Thurman nas filmagens de Kill Bill. A verdade é que Cliff pode ser sim interpretado como o macho branco, galã, porém desprezível, que escapa da justiça e segue em frente com sua vida com mais facilidade que negros, mulheres ou estrangeiros quando suspeitos de algum crime. Neste ponto de vista é loucura se pegar torcendo por Cliff e Rick, que teria ajudado o amigo a não trazer a verdade à tona. O que reforça nossa tendência a glorificar artistas quando não sabemos quem é o ser humano por trás da perfeição muito bem vendida pela indústria. A resposta fica para o espectador e é por isso que considero Cliff o personagem mais interessante do filme.

Porém, o encanto é inegável e somos induzidos a torcer pela dupla; o que pode ser um prazer ou um incômodo daqueles dependendo do seu ponto de vista, mas não há como ignorar que, juntos, Rick e Cliff parecem aquelas duplas que a Hollywood atual praticamente esqueceu, como Paul Newman e Robert Redford. Separados, conduzem a narrativa por suas ramificações, personagens e desdobramentos necessários para que tudo se encontre num clímax excepcional que coloca Era uma Vez em… Hollywood como parte de uma trilogia involuntária de catarses libertadoras ao lado de Bastardos Inglórios e Django Livre.

E uma coisa: eu disse antes aqui que Pitt se sai melhor quando está engraçado. Digo, ele é bom sim. Mas parece mais inspirado quando se envolve de alguma forma com a comédia. E posso dizer agora que Leonardo DiCaprio também me surpreende positivamente quando libera esse lado cômico. Mesmo que esteja levando a sério seu papel, e que seu personagem viva uma tragédia (ainda que em relação ao seu próprio ego), DiCaprio é grandioso quando faz a gente rir. E por interpretar de forma séria tanto Rick Dalton quanto Jordan Belfort, de O Lobo de Wall Street, talvez isso deixe os personagens ainda mais divertidos.

Aliás, gosto como cada atuação corre o risco de soar caricata. Mas, no fim, o elenco está mesmo vivendo aqueles personagens intensamente. Eles riem, choram, vibram, sofrem de verdade. Pode parecer maior que vida, só que eles estão à flor da pele numa época em que se vivia como se não houvesse amanhã e, geralmente, artistas sentem mais que meros mortais.

Era uma vez em Hollywood 2

O que vai de encontro ao tópico que quero destrinchar mais, que é o ar que podemos respirar neste filme. Numa cena, Rick conta a uma atriz de apenas oito anos (a ótima Julia Butters) a história de um livro que ele está lendo. Mas a menina corta para reclamar que não quer saber a história toda; somente do ela trata. Rick segue descrevendo a saga do protagonista do livro, enquanto a confunde com sua própria condição naquele instante. Embora seja sobre Rick, Era uma Vez em… Hollywood é sobre Sharon, amizade, envelhecimento e, acima de tudo, sobre o ambiente e como os personagens reagem ao cotidiano. É mais herdeiro da Nouvelle Vague que da própria Hollywood.

Cliff dirige pelas ruas e é como se acompanhássemos todo o trajeto de dentro do seu carro, como espectadores privilegiados de carona num tour pela Los Angeles da virada dos anos 60 para os 70. A maioria das músicas vem das rádios ou do interior de bares, restaurantes ou quando alguém põe um disco na vitrola. Entramos nos bastidores de Hollywood, mas também vemos tretas com astros como Bruce Lee (que cena!), artistas se vendo na tela do cinema e testemunhando as reações do público (essa parte é maravilhosa) e no meio do sonho de Tarantino há espaço para a ameaça do pesadelo, quieto sem seu canto, observando e pronto para atacar. Como na cena em que conhecemos o rancho da Família Manson, apresentado como mais um elemento inocente do sonho de Tarantino, mas escondendo sua verdadeira face. Ele sempre dá um jeito de mostrar que esse sonho nunca é onírico em excesso, mas palpável em diversas vezes. Temos mulheres lindas, mas que roncam alto e têm pés sujos. Homens bonitões, mas inseguros, imperfeitos (assassinos?). Podemos ficar deslumbrados com a Hollywood do filme e seus personagens, mas nunca deixamos de lado o medo, a tensão e a preocupação com Rick, Cliff e, principalmente, Sharon (mesmo que ela diga quase nenhuma palavra). E quando algo assim acontece é porque o autor foi bem-sucedido.

Não há como comparar com nada que o cinema tenha feito nos últimos anos nem com os outros filmes de Tarantino. Tem um espírito ali de clássicos sobre o cinema ou mesmo Los Angeles, mas acredito que Quentin Tarantino fez um filme único, uma aula de cinema que será bem mais reverenciada no futuro, afinal o bom cinema é atemporal. Digo isso porque esse não é bem o momento para lançar esse tipo de filme; lento e sobre uma época que não reflete tanto os dias de hoje, além da ausência de uma trama ajudando a ligar os pontos e entregue a uma reflexão constante sobre nada e tudo ao mesmo tempo. Se forçar uma comparação, acho que Era uma Vez em… Hollywood se aproxima mais da estrutura de Pulp Fiction, mas com o ritmo de Jackie Brown.

Numa era dominada por marcas e filmes planejados por muitos e não somente por diretores e roteiristas, temos aqui um esforço digno de reconhecimento para levar aos cinéfilos uma sensação majestosa de alívio. E, ironicamente, acho que Era uma Vez em… Hollywood talvez consiga ter mais easter eggs que um filme de super-herói, embora só Tarantino seja capaz de encontrar todos eles.

Sempre vimos Tarantino declarando seu amor pelo cinema homenageando seus filmes e cineastas favoritos com referências, reciclagens e reinterpretações. Têm exageros? É lógico! Isso é Tarantino. Mas aqui, mergulhamos não apenas nos gostos do cineasta, mas na intimidade de sua visão. Talvez pela primeira vez ele tenha exposto com tanta profundidade seu olhar pessoal. Menos fã, mais honesto. Está tudo lá que conhecemos de sua filmografia, porém com uma execução mais melancólica, contida e, de certa forma, madura. Ainda que tomado pelo “era uma vez”, há um respeito pela nostalgia; não uma exaltação, que Tarantino faz questão de pontuar para lembrar a todos nós que estamos vendo um filme, arte que tem o poder de ser tão ilusória quanto real. Um mundo que pode ter alegrias e tristezas, mas que não precisa necessariamente espelhar a realidade. Talvez, um dia, essa arte possa mudar o mundo real para melhor, como já sabemos ser possível dentro da mente de Quentin Tarantino.

VEJA O TRAILER:

Era Uma Vez em… Hollywood (Once Upon a Time in… Hollywood, 2019)
Direção e roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie, Al Pacino, Dakota Fanning, Margaret Qualley, Kurt Russell, Timothy Olyphant, Luke Perry, Emile Hirsch, Lena Dunham, Michael Madsen, Bruce Dern, Damon Herriman, Maya Hawke e Austin Butler
Duração: 2h41
Distribuição: Sony

7 Comments »

  1. Paulo Ricardo 19 de agosto de 2019 às 1:09 PM -

    Estou apaixonado por esse filme.É a chance de ouro da AMPAS reconhecer Tarantino com os prêmios de Melhor Filme e realizador.

  2. Ariel Lucca 19 de agosto de 2019 às 8:16 PM -

    Sua crítica está perfeita, não poderia ter expressado melhor a beleza desse filme. Um dos melhores não só do ano, como da carreira do Tarantino, e talvez do cinema em geral.

  3. Lucas Nascimento 19 de agosto de 2019 às 10:13 PM -

    Excelente crítica! Talvez a melhor que eu tenha lido sobre,

    “Era uma Vez em… Hollywood se aproxima mais da estrutura de Pulp Fiction, mas com o ritmo de Jackie Brown”, essa é a fórmula, perfeito.

  4. Otávio Almeida 21 de agosto de 2019 às 10:18 AM -

    PAULO: Também estou nas nuvens. Mas se Tarantino não ganhar o Oscar de Filme e Direção, azar do Oscar. Abs!

    ARIEL: Obrigado! Acho que o filme ainda vai crescer. Não só para mim, mas para o público em geral. Dê mais alguns anos a ele. Abs!

    LUCAS: Obrigado! Valeu mesmo! Mas é o tipo de filme que permite análises futuras. Nada definitivo, sabe? Tem muita coisa para descobrir neste filme, então acho que o texto está em aberto 🙂 Abs!

  5. Ravi 27 de agosto de 2019 às 9:07 PM -

    E a pergunta que fica é: Por quê parar em 10?

  6. Kamila Azevedo 28 de agosto de 2019 às 2:34 PM -

    Confesso que me incomodei com vários aspectos da obra. Entretanto, é inegável que o filme tem aspectos técnicos muito bons e um elenco competente. Após assisti-lo, não acho que seja fundamental para a plateia ter o entendimento sobre quem foi Sharon Tate e o trágico destino que ela teve – até mesmo porque a intenção de Tarantino foi não se debruçar sobre isso.

  7. Otavio Almeida 30 de agosto de 2019 às 12:05 PM -

    RAVI: Pois é. Pelo menos, teremos mais um filme dele. No entanto, espero que ele reconsidere e volte um dia.

    KAMILA: Eu saí do cinema encantado pelo filme. Aquele “Once upon a time…” no final me cortou o coração, mas foi lindo ao mesmo tempo. Acho que a pegada do Tarantino foi mais europeia que hollywoodiana; por isso passamos por aqueles momentos em que parece que teremos “ação” e ela não vem. É situação, ambientação, clima, tensão, nostalgia… É sobre sentir aquele lugar. Eu vi assim. No lugar de violência, embora ela esteja lá, tivemos mais o amor do cineasta pelo cinema. Não com apenas com influências, referências… mas falando mesmo sobre isso em uma história construída exatamente em cima disso.

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