Histórias Assustadoras para Contar no Escuro | Crítica

Otavio Almeida 9 de agosto de 2019 0
Histórias Assustadoras para Contar no Escuro | Crítica

Tudo que “Goosebumps” finge ser: um terror eficiente e exclusivo para crianças

Por Otávio Almeida

Alvin Schwartz escreveu seus contos de horror na mesma época em que o nome de Stephen King tomou conta do mundo. Ambos pegaram uma fase do cinema em que o terror concentrava suas doses de pesadelos em jovens e até mesmo crianças. Cerca de três décadas depois, Guillermo del Toro, o visionário cineasta que ama monstros (vide O Labirinto do Fauno e A Forma da Água), resolveu levar às telas Histórias Assustadoras para Contar no Escuro (Scary Stories to Tell in the Dark, 2019), antologia de Schwartz feita para tirar o sono da garotada. Com a ajuda das ilustrações diabólicas de Stephen Gammel, o autor praticamente convidava seu público-alvo para uma leitura “proibida”.

Del Toro produziu e colaborou com o roteiro, mas a direção é de André Øvredal (de O Caçador de Troll) e, talvez, isso faça toda a diferença. Explico: Histórias Assustadoras para Contar no Escuro não é tão bem-sucedido quanto It (um filme que lembramos de imediato) na hora de envolver adultos, jovens e crianças na mesma proporção na plateia. Além dos quarentões em busca de nostalgia, o filme foi pensado para honrar o legado de Schwartz; logo é bem mais impressionante para um público infantil. O problema é que sabemos que eles não podem ir ao cinema devido à censura para menores de 14 anos. Ou seja, a tal leitura “proibida”. Eles precisam dar um jeito de ver esse filme na companhia de responsáveis mais velhos ou, sei lá, esperarem até a produção ir para a TV. Calma, pessoal, porque todos nós fizemos isso na vida, o medo faz parte da vida e Histórias Assustadoras não é necessariamente “impróprio” para os pequenos.

Mas se Del Toro fosse o diretor, imagino que Histórias Assustadoras engajaria muito mais outros públicos e as mensagens críticas nas entrelinhas sobre racismo, Nixon e a Guerra do Vietnã teriam um efeito mais forte, afinal o ano é 1968 e toda esse clima negativo foi espelhado no cinema em filmes como A Noite dos Mortos-Vivos. Del Toro sabe fazer isso também. É só relembrar o que ele fez em O Labirinto do Fauno e A Espinha do Diabo, filme de horror protagonizados por crianças, mas que não foram feitos exatamente para elas. Com roteiros onde o ser humano é claramente o monstro mais perigoso e as criaturas que surgem nos pesadelos são consequências e reflexos de seus atos.

Em Histórias Assustadoras, os filhos ainda sofrem com os erros dos pais, mas é um sentimento que fica de escanteio porque André Øvredal prefere fazer jus ao título do filme, deixando todas as partes entre os contos intercalados um tanto superficiais. Se soltasse o cordão umbilical preso à obra original, assim como em relação à ambição constante em Hollywood de gerar mais uma franquia para o cinema (o finalzinho acelerado para provar que tem gancho para mais filmes é bem safado) e refletisse de forma mais profunda a respeito dos monstros reais, Øvredal teria a oportunidade de entregar algo inesquecível e atemporal.

Scary Stories
Primeiro porque acerta na ambientação. Histórias Assustadoras pode não honrar o adjetivo, mas é tenso demais (a cena do corredor vermelho é a minha favorita e o cinema poucas vezes representou tão bem o que é ter um pesadelo). E a caracterização dos monstros é sensacional. Há tempos que não testemunhava criaturas tão horrendas no cinema. Bravo, Del Toro! Sei que isso é contribuição sua.

Em segundo lugar, o elenco principal é um achado. Pena que não sabemos tanto sobre seus personagens; a não ser seus maiores medos (outra semelhança com It) só para eles se materializem. Com exceção da menina Zoe Margaret Colletti (guardem esse nome), que é a líder do elenco, os olhos da plateia e uma atriz incrível.

Terceito ponto positivo: Øvredal e Del Toro  voltam a explorar com extrema eficiência um tema recorrente em Hollywood, que é o poder da leitura para o bem ou para o mal. Efeito que deve ser mais poderoso nas crianças que tiverem a sorte de assistir ao filme. E é um belo ensinamento: temos histórias escritas com sangue e ódio que dão vida a terríveis bichos papões, incluindo seus próprios autores. Mas também a fagulha de esperança depositada numa nova geração; capaz de contar as histórias de forma justa e dando nomes aos seus verdadeiros monstros.

Gente, imaginem se Guillermo del Toro fosse o diretor desse mesmo material. Acredito piamente que ele entregaria um terror com crianças e não exclusivamente para crianças (como, de novo, It). No fim, Histórias Assustadoras fica como o filme ideal que as adaptações de Goosebumps apenas fingem ser.

VEJA O TRAILER:

Histórias Assustadoras para Contar no Escuro (Scary Stories to Tell in the Dark, 2019)
Direção: André Øvredal
Roteiro: Dan Hageman, Kevin Hageman, Guillermo del Toro
Elenco: Zoe Margaret Colletti, Michael Garza, Gabriel Rush, Austin Zajur, Dean Norris, Gil Bellows, Austin Abrams, Natalie Ganzhorn, Lorraine Toussaint, Kathleen Pollard
Duração: 1h51
Distribuição: Diamond Films

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