“I See Dead People”: Os 20 Anos de “O Sexto Sentido”

Otavio Almeida 7 de agosto de 2019 2
“I See Dead People”: Os 20 Anos de “O Sexto Sentido”

Em 1999, um filme de terror chegou aos cinemas sem revelar muito de sua trama. Após diversos micos, o gênero não gerava muita confiança na época e começava a respirar graças a um indie lançado no mesmo ano, A Bruxa de Blair. Embora fosse uma estreia de grande estúdio, O Sexto Sentido fez menos barulho em sua divulgação que a produção rodada com câmera na mão, que citei acima. Dirigido por um cineasta indiano até então desconhecido, o longa se promoveu com a imagem imponente de Bruce Willis como se fosse mais um veículo tradicional para o astro. Mas não era bem isso.

O Sexto Sentido é terror. Mas logo em sua abertura tensa em que o protagonista leva um tiro, o diretor prova que estudou muito bem outro segmento, os filmes de suspense. Aos poucos, apesar da introdução à história do menino que vê gente morta (o tempo todo), entendemos que a situação abraça mais o drama que o horror. Bruce Willis é o Dr. Malcolm, psiquiatra, um homem da ciência, que se vê obrigado a derrubar os limites impostos a si próprio quanto ao ceticismo e dar espaço à compreensão do desconhecido.

Felizmente é o que ele faz. O Sexto Sentido não descamba para a tradicional dúvida quanto às afirmações de uma criança. Malcolm não demonstra teimosia; ele aceita o que o menino conta e tenta ajudá-lo a lidar com o problema. Temos sustos ao longo do filme, mas é o drama do pequeno Cole (Haley Joel Osment) em aprender a conviver com uma maldição que pode ser visto como um dom. Depende do seu ponto de vista otimistas ou pessimista. O drama segue na relação de Cole com sua mãe interpretada por Toni Collette. Ela sim tem dúvidas quanto às histórias do filho. E tem o drama de Malcolm, 100% dedicado; motivo pelo qual apenas observa as reações da esposa e vê seu casamento desmoronar. Malcolm, Cole e Lynn, três personagens perdidos que no meio disso tudo mudarão suas vidas para sempre. São três perfis que geram identificação com todos nós em diferentes fases da vida: a mãe (no caso solteira) que procura educar, compreender e proteger seu filho; a criança tentando ser criança e não crescer rápido demais devido às circunstâncias que abalam e influenciam sua rotina; e o protagonista que enfrenta problemas no relacionamento por não saber equilibrar seu tempo entre o pessoal e o profissional.

Mas como isso tudo termina? Cole aprende a conviver com os espíritos que aparecem do nada e entende que está ali para ajudá-los. Sua mãe finalmente acredita no garoto e ambos ficam em paz. Da mesma forma que Malcolm, pronto para voltar e dizer à esposa o quanto a ama. Lembra do tiro que Malcolm levou no começo?

Só que é nesse momento que ele descobre que estava morto o tempo todo e era mais um espírito interagindo com Cole. Horrível? Bom, Malcolm toma um belo susto, mas tem a chance de se despedir da esposa e partir em direção à luz branca que fecha o filme. Falando assim, parece brega, mas não é.

A direção de M. Night Shyamalan é elegante e mostra exatamente o que você precisa ver. Como Malcolm, estamos perdidos e não temos a mínima noção do que virá. Tudo não passa de um truque. Mas talvez o maior truque narrativo do cinema (e um dos filmes mais influentes) nos últimos 20 anos. O Sexto Sentido pode ter a melhor atuação de Bruce Willis em muito tempo, Toni Collette provando que O Casamento de Muriel e Velvet Goldmine não foram obras do acaso e que ainda tinha muito para dar ao cinema, e a revelação do melhor ator mirim desde então, Haley Joel Osment, que infelizmente não sobreviveu às armadilhas da complicada transição para a vida adulta e “desapareceu” de Hollywood como muitas outras crianças.

The Sixth Sense__

Mas é o roteiro do próprio M. Night Shyamalan que alcança a perfeição. As vozes e os olhares tristes dos personagens nasceram no texto. Sua estrutura bebe na fonte do professor Alfred Hitchcock que, apesar do drama e do suspense, ensinou ao mundo que ao invadir o território do sobrenatural, o filme é considerado como terror.

Ninguém é obrigado a rever O Sexto Sentido, mas sua reviravolta final faz com que você sinta a obrigação de voltar ao filme. E mais de uma vez. Shyamalan espalhou as pistas (de que Malcolm está morto) por todas as partes. Mas, assim como ele, parecemos cegos ao que está diante de nossos olhos. Até que o final vem e transforma todo o filme e faz com que a primeira revisão seja tão extraordinária e prazerosa quanto a primeira.

É um exercício narrativo impressionante que levou Shyamalan ao topo e, como não poderia ser diferente, passamos a exigir muito dele. Só que nem mesmo o diretor conseguiu se superar. Alguns acham Corpo Fechado, seu filme seguinte, o melhor de sua carreira. Mas só se for na Terra, porque O Sexto Sentido não é desse planeta.

Nos últimos 20 anos, vimos o terror se fortalecer novamente na indústria. Hoje, para você ter ideia, existe até um universo compartilhado orquestrado por James Wan, que não seria possível sem o sucesso de O Sexto Sentido (e não A Bruxa de Blair). De lá para cá, não só o gênero como também outros filmes desafiaram o público com o tal final surpresa, que não foi um ineditismo de M. Night Shyamalan. Mas foi por causa dele que Hollywood mergulhou na tendência e estragou para mim o último ato de filmes como Os Outros e Donnie Darko.

Acontece vez ou outra. Filmes que resgatam armas narrativas ou gêneros há tempos não explorados. Quando acertam na mosca, Hollywood volta a investir nesse tipo de filme. Um ano depois, esse exemplo serviu para Gladiador, que trouxe novamente os grandes épicos (romanos ou não), e O Tigre e o Dragão, que fez o mundo olhar com carinho para o cinema de artes marciais. Em 2001, O Senhor dos Anéis e Harry Potter e a Pedra Filosofal resgataram a fantasia e por aí vai.

2 Comentários »

  1. Kamila Azevedo 8 de agosto de 2019 às 9:17 AM -

    “O Sexto Sentido” é o grande filme e uma grande estreia de um, então, jovem diretor. Gosto da maneira como a trama é construída, como se a história fosse dividida em diversas camadas que são desnudadas aos poucos pela plateia. Me lembro até hoje do choque que senti com a revelação final, pois eu nunca esperava aquele fim. Tempos bons o que éramos surpreendidos dessa forma!

    Parabéns pelo texto, Otávio!

  2. Otavio Almeida 8 de agosto de 2019 às 2:32 PM -

    Obrigado, Kamila! Bjs

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